Nós precisamos atualizar o ensino teológico?

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Os mestres do passado e os desafios do presente

O saudoso professor de Novo Testamento no Trinity Evangelical Divine School, Grant Osborne, fez a seguinte constatação em seu livro A Espiral Hermenêutica a respeito das novas necessidades do ensino teológico:

Em minha opinião, está na hora de um novo gênio teológico refazer os padrões da teologia sistemática, uma vez que o pensamento neoplatônico e aristotélico por trás de Charles Hodge e B. B. Warfield já não é mais culturalmente necessário. A rígida demarcação de doutrinas em bibliologia, teologia, cristologia, chegando enfim na escatologia (última nesta ordem porque é a doutrina das “últimas coisas”), não só não comunica mais nada, como também não é usada (OSBORNE, 2009, p. 528).

Osborne nos apresenta a urgente necessidade de recontextualizar o modelo tradicional de se fazer teologia. Ele fala especialmente da teologia sistemática, mas o desafio em questão não diz respeito só a ela. O contexto maior são as urgências que emergiram junto ao pensamento contemporâneo. 

Com esse apelo, Osborne não está de forma alguma nos dizendo que a abordagem tradicional dos séculos 17, 18 e 19 já não tenha mais nenhum valor ou relevância para os estudos teológicos. Não preciso gastar tempo aqui para lembrar que o conteúdo das abordagens tradicionais  mencionadas por ele é radicalmente alicerçado no ensino bíblico e, por isso, sua alteração não vem ao caso. Contudo, algumas categorias utilizadas na formulação de seus enunciados são afetadas pelos processos de mudanças naturais da cultura. 

Em outras palavras, o que está em jogo aqui não é o questionamento do teor da teologia feita pelos mestres do passado – como Hodge e Warfield, para citarmos apenas os exemplos que Osborne elenca. Antes diz respeito às incontornáveis mudanças que qualquer disciplina acadêmica sofre com os avanços e desenvolvimentos de uma sociedade. Isso nos leva a pensar sobre a capacidade de algumas metodologias teológicas de se mostrarem significativas aos leitores atuais. Acredito que essa é uma questão fundamental, pois, em última instância, estamos envolvidos no trato de questões teológicas específicas de uma cultura pós-moderna, na qual fomos chamados a ministrar. Como nos lembra mais uma vez Osborne: “é obvio que todos nós que fomos impregnados por esse método o achamos adequado, e quase todos os professores de teologia o continuam usando com sucesso. No entanto, há sérias desvantagens” (OSBORNE, 2009, p. 528).

Novos teólogos para novos padrões de pensamento 

É necessário dizer que todo aquele que deseja compartilhar a Palavra de Deus, e está comprometido com o ofício teológico, tenha consciência de algo que Walter Kaiser Jr. e Moisés Silva nos lembram: “as correntes de pensamento mudaram os padrões de raciocínio, de modo tão radical, a ponto de nos perguntarmos (apesar de, a nosso ver, só por um momento) se o leitor deste prefácio é capaz de compreender o que dissemos até aqui!” (KAISER; SILVA, 2009, p. 9). É claro que Kaiser e Silva exageram em sua momentânea dúvida a respeito das capacidades de seus leitores. Mas, novamente, a questão sobre as mudanças de paradigmas intelectuais apresentam-se a nós.

No entanto, essa breve problematização de nossa atividade teológica, à luz das radicais mudanças no contemporâneo, não deve ser tratada como algo simples ou sem grande importância. Esconde-se aí uma preocupação incontornável para todo o que pretende ocupar-se com o ofício teológico de maneira fiel, consistente e coerente com os deveres implícitos nessa atividade. É certo que não sabemos “exatamente qual a forma que essa nova teologia adotará” (OSBORNE, 2009, p. 528), mas sem sombra de dúvida algo precisa ser feito. 

E, justamente neste momento, coloca-se diante de nós a valiosa oportunidade de encontrarmos inspiração no diálogo com os estudiosos de outras áreas do conhecimento. A teologia reformada entende que a ação do Espírito Santo no mundo é constante e não se limita ao povo da aliança. Deus está enriquecendo a existência de muitos através de sua graça comum. É o que nos ensina o reformador João Calvino: “se o Senhor nos quis assim que fôssemos ajudados pela obra e ministério dos ímpios na física, na dialética, na matemática e as demais áreas do saber, façamos uso delas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, caso negligenciemos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas” (CALVINO, 2006, p. 44). Ou seja, seria negligenciar a obra de Deus no mundo, se não procurássemos correspondência entre os desafios que enfrentamos na teologia e outras disciplinas que também pensaram o contemporâneo. Isto porque, ele mesmo continua o raciocínio explicando-nos, que aqueles que “nessas artes liberais à farta se abeberaram, ou mesmo apenas de leve as experimentaram, ajudados por sua contribuição, são levados muito mais longe na penetração dos segredos da divina sabedoria” (CALVINO, 2006, p. 56). Sendo assim, gostaria de chamar a atenção para um novo caminho teológico a ser trilhado que surge da necessidade de uma revisão de nossas práticas de ensino e aprendizagem. 

Antes de transformar o mundo, vamos renovar nossa mente

Existe uma frase de Karl Marx que se tornou um emblema na filosofia da praxis. É uma das teses de Marx sobre o filósofo Ludwig Feuerbach, que diz que “os filósofos procuraram interpretar o mundo, mas nos compete transformá-lo”. Essa décima primeira tese virou emblema de muitos movimentos estudantis pelas universidades ao redor do mundo. Entretanto, um outro filósofo alemão empreendeu uma inversão de rara precisão nesse raciocínio de Marx. Trata-se de uma consideração feita por Martin Heidegger sobre a respeito da filosofia – só que, ainda hoje, pode ser devidamente aplicado à teologia:

entrementes, também se exigiu da filosofia que ela não mais se reduza a interpretar o mundo e a vagar em abstratas especulações; mas que importa transformar praticamente o mundo. Entretanto, a transformação do mundo assim visada exige, antes, que o pensamento se transforme, assim como já se oculta uma modificação do pensamento atrás da aludida exigência. […] De que maneira, entretanto, deve o pensamento transformar-se, se não se põe a caminho para o que deve ser pensado? (HEIDEGGER, 1979, p. 434).

Aqui, o filósofo alemão nos orienta dizendo que não existe maneira melhor de transformar o pensamento que o colocando a caminho daquilo que deve ser pensado. Claro que em nosso caso específico, o melhor caminho para colocar o raciocínio teológico envolve tanto a fidelidade à Palavra de Deus, como também a capacidade de comunicá-la significativamente na contemporaneidade. Como nos lembra Osborne: “o conteúdo não mudará (excluindo-se as proposições em que a interpretação dos textos for logicamente fraca e ‘não bíblica’), mas a forma sim” (OSBORNE, 2009, p. 528). 

Uma nova forma de estudar teologia

Não seria exagero dizer que o primeiro passo necessário na trilha de uma adequação cultural das práticas fundamentais da teologia na contemporaneidade seja o seu envolvimento com a tecnologia — em especial, o mundo digital. Tonou-se um lugar comum falar sobre o avanço da ciência e da tecnologia nas últimas décadas – suas conquistas são as maiores do que em qualquer outro período da história. Aqueles que ainda fazem diferenciação entre cultura e cibercultura, por exemplo, é porque não nasceram na era digital. 

Entretanto, é justamente nesse cenário que surgem problemáticas bem específicas de nossos tempos hiperconectados: essa nova cartografia das relações intelectuais, sociais e culturais não fomenta uma espécie de idolatria tecnológica? Se existe na tecnologia, digital ou não, práticas benditas, lugares sagrados, dias santos e pessoas intocáveis, também não é possível analisar alguns embates e debates dos registros técnicos como idólatras? Em outras palavras, precisamos de arcabouçou teológico e doutrinário robusto para lidarmos com as novas questões da era da técnica. 

Diante daquela ampla capacidade que a ciência e a tecnologia nos trouxeram – e entorpeceu alguns habitantes do contemporâneo – ainda é possível argumentar contra o lema “fora da técnica não há salvação”? Para respondermos essas questões, separamos alguns trechos de importantes textos sobre o assunto. Em primeiro lugar, temos o engenheiro e filósofo cristão Egbert Schuurman argumentando as características básicas, bem como os pressupostos típicos da sociedade tecnológica contemporânea. Nas suas palavras:

No mundo ao nosso redor, observamos uma supervalorização da tecnologia. A tecnologia é vista como a resposta a uma série de problemas e como a solução para todos os tipos de males. Neste contexto, a tecnologia adquire certa função idólatra. Isto é melhor ilustrado pela saga do rei Midas. A Midas é dado pedir um dom aos deuses. Sua resposta é pedir que tudo o que ele toque se torne ouro. A partir do momento em que este dom lhe é concedido, testemunhamos as consequências. Tudo o que ele toca – sua comida, sua esposa, e por aí em diante – se transforma em montes de ouro. O resultado de sua cobiça é que o ouro ameaça sua própria vida. A moral da história é que, embora o ouro, como metal precioso, tenha um lugar especial entre todas as coisas que existem e são preciosas, quando tudo se torna ouro a vida em si é sufocada. O mesmo vale para a tecnologia! A tecnologia é importante, mas quando tudo é marcado pela tecnologia, ela se torna uma maldição para a vida e para a sociedade. Nesse caso, a tecnologia ameaça a qualidade da existência. O homem e a natureza se tornam vítimas do despotismo da tecnologia (SCHUURMAN, 2016, p. 32). 

Fica evidente um dos cenários mais proeminentes que a prática teológica se defrontará. Nos deparamos justamente com esse despotismo tecnológico em nossa cultura. Schuurman dedicou muitos anos de sua vida para chamar nossa atenção ao tecnicismo como o pano de fundo intelectual e histórico de nossa cultura tecnológica. O tecnicismo surge de uma atitude elementar: nós estamos cada vez menos dispostos a deixar de procurar respostas retentivas na tecnologia e, por conseguinte, a aceitar que vivemos num mundo criado por Deus que só pode encontrar redenção em Cristo.

Quem também chamou nossa atenção para esse desafio primordial do ofício teológico foi outro engenheiro e filósofo – que, não por coincidência, foi professor de Schuurman. O holandês Hendrik van Riessen aprofunda um pouco mais as questões e nos mostra o que está no cerne das discussões em torno desses problemas tecnológicos, científicos, filosóficos, mas, em última análise, de devoção religiosa. Em suas palavras:

A tese da neutralidade não é certa, uma vez que a ciência sempre será determinada pela fé. Nesse caso, adotar uma atitude cristã diante disso, não só é útil, como obrigatório. É aqui que está o problema central de nosso tema. Está longe de ser simples, porque a pesar de que podemos demonstrar com relativas facilidades que a neutralidade é impossível, será difícil mostrar de um modo concluinte o significado do enfoque cristão da ciência. […] A pesar de que no podemos avançar sem ser guiados pela fé, nosso debate se produz no nível da ciência. Devemos demonstrar cientificamente, em um campo de batalha onde se defende essa tese, que a neutralidade não existe (1990, p. 22). 

Fica evidente, portanto, nas palavras de van Riessen que somente o evangelho bíblico revelado por Deus pode dar esperança. Isso recoloca com força total a importância da atividade filosófica na contemporaneidade hiperconectada e saturada de tecnicismos. Somente este evangelho atinge os pressupostos da ciência aplicada e os confronta diretamente, formulando a escolha com toda clareza: Cristo ou a ciência.  Mais uma vez, nas palavras de van Rissen, “Cristo, o Salvador do mundo, põe em descoberto os problemas do homem moderno. Somente ele pode dar soluções. O século XIX crê na redenção mediante o progresso e a tecnologia. O século XX crê na redenção mediante a ciência aplicada em uma sociedade planificada. Cristo, ou a ciência; essa é a escolha que nós apresentamos” (1990, p. 23).


Referências Bibliográficas

CALVINO, João. As institutas. Trad. Waldir Carvalho Luz. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 

HEIDEGGER, Martin. A tese de Kant sobre o ser. In: Conferências e escritos filosóficos. Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

KAISER, Walter C; SILVA, Moisés. Introdução à hermenêutica bíblica – 2ª Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2009.

SCHUURMAN, Egbert. Fé, esperança e tecnologia. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2016

VAN RIESSEN, Hendrik.  Enfoque cristiano de la ciencia. FeliRe, 1990.