Sobre Tentativas Recentes de Repensar Antigas Questões: um breve comentário sobre a Ortodoxia Radical

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A perpetuidade de antigas questões 

Mesmo os mais novos desdobramentos do pensamento humano ainda carregam consigo questões que já se tornaram clássicas. No auge de nossa era, chamada por alguns de pós-moderna, hipermoderna, líquida ou, simplesmente, de modernidade tardia, ainda nos deparamos com esforços intelectuais que procuram dar cabo da velha discussão sobre teoria versus prática. Ao que parece, a sedutora representação dicotômica da forma de vida humana, partida em âmbitos práticos e teóricos, não foi exorcizada do imaginário cultural do Ocidente. 

Quem dá testemunho desse fenômeno no domínio dos saberes teológicos é o brilhante norte-americano Kevin J. Vanhoozer, em um dos seus recentes livros O Drama da Doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã (2005). Apresentando o que está no centro dos seus esforços nesse livro, Vanhoozer nos diz o seguinte:

Estamos vivendo em uma era de mudanças dramáticas, até mesmo grandiosas (e.g., da época moderna para a pós-moderna, o fim da Guerra Fria, o pluralismo religioso). Podemos estar testemunhando mudanças igualmente profundas na teologia. O momento é propício para novas convergências e alianças, talvez até mesmo para cura, ao longo de uma faixa significativa daquilo que, não muito tempo atrás, foi chamado de “espectro fragmentado” da teologia cristã. O sistema bipolar “conservador versus liberal” já não parece adequado para descrever o que está ocorrendo. Cerca de vinte anos atrás, George Lindbeck publicou uma espécie de manifesto por uma teologia pós-liberal, linguístico-cultural e por uma teoria reguladora da doutrina. O presente livro expõe uma teologia canônico-linguística pós-conservadora e uma teoria diretiva da doutrina, que crava a teologia com mais firmeza nas Escrituras, enquanto preserva a ênfase prática de Lindbeck (2016, p. 13). 

Com essas palavras, Vanhoozer consegue nos dizer claro como que esse “espectro fragmentado da teologia cristã” continua presente em nossa prática teológica contemporânea. Seu próprio projeto teológico preocupa-se em elaborar uma teoria diretiva para a doutrina que seja adequada para preservar a primazia das Escrituras no ofício teológico, sem abrir mão da ênfase prática que esse ofício deve desdobrar. Ou seja, trata-se de uma tentativa de apresentar novas metáforas (como a dramaturgia, atuação e roteiro) para lidar com uma questão antiga na teologia. Nas suas palavras, “o problema mais profundo, no entanto, é a cativante representação da dicotomia teoria/prática em si” (2016, p. 29). 

Sobre a teologia pós-liberal

Vale reparar, entretanto, que Vanhoozer estabelece um marco histórico para falar sobre o que ficou para trás na produção teológica e para chamar atenção ao que há de novo nas discussões contemporâneas. A saber, a publicação do manifesto de teologia pós-liberal do luterano George Lindbeck. Em um pequeno livro de grande importância, chamado A Natureza da Doutrina (1984), Lindbeck forneceu aos seus leitores uma nova forma de pensar a natureza da doutrina cristã. Essa nova forma de trabalhar em teologia, posteriormente, ficou conhecida como virada linguístico-cultural. Sem sombra de dúvida, tal maneira de operar na teologia é a força motriz mais influenciadora que temos nos últimos anos. De uma forma ou de outra, nomes como John Caputo, Alasdair MacIntyre, Stanley Hauerwas, Daniel M. Bell, John Milbank, James K. A. Smith, Graham Ward e o próprio Vanhoozer, foram influenciados pela virada lingüístico-cultural. 

Em seu panorama histórico e filosófico da teologia cristã, Alister E. McGrath mostra-nos o pano de fundo do que estava ocorrendo desde o final da década de 1970 na teologia ocidental:

Uma das tendências mais significativas dentro da teologia, desde cerca de 1980, tem sido um ceticismo crescente em relação à questão da plausibilidade de uma visão de mundo liberal. O surgimento do pós-liberalismo é tido geralmente como um dos aspectos mais importantes da teologia ocidental desde 1980. O movimento começou nos Estados Unidos, sendo associado inicialmente à Yale Divinity School e, em particular, a teólogos como Hans Frei, Paul Homer, David Kelsey e George Lindbeck. Ainda que não seja estritamente correto falar sobre a existência de uma “escola teológica de Yale”, há, contudo, uma nítida semelhança de “traços hereditários” entre as diversas abordagens teológicas que nasceram em Yale, no final da década de 1970 e início dos anos 1980. Desde essa época, as tendências pós-liberais se consolidaram dentro da teologia acadêmica estado-unidense e britânica. Seus principais fundamentos se encontram nas abordagens teológicas narrativas, como as desenvolvidas por Hans Frei, assim como as escolas de interpretação social, que destacam a importância da cultura e da linguagem na geração e interpretação da experiência e do pensamento (2005, p. 157).

Com essa reconstrução histórica, McGrath nos coloca a par dos principais nomes e ênfases que estão ligadas ao pós-liberalismo. O próprio rótulo “linguístico-cultural” pretende resumir o centro do que está sendo enfatizado por esse novo movimento de trabalhos teológicos. A partir de uma clássica rejeição à ideia, tipicamente iluminista, de uma “racionalidade universal” – que encontra no trabalho filosófico de MacIntyre um ponto alto – o pós-liberalismo constrói um programa teológico que pressupõe que todo pensamento e experiência humana é radicalmente determinado pela história e incontornavelmente mediado pela comunidade que lhe dá origem. 

Novos desafios teológicos no contexto pós-liberal
Alister McGrath argumentará que, tudo isso faz com que, necessariamente, a teologia produzida pela virada linguístico-cultural seja: “anti-fundamentalista (por rejeitar a ideia de um fundamento universal para o conhecimento), comunitário (por apelar aos valores, às experiências e à linguagem de uma comunidade, em vez de priorizar o individual) e historicista (por enfatizar a importância das tradições e das comunidades históricas a elas vinculadas, para a formação da experiência e do pensamento” (2005, p. 157). Em outras palavras, fica evidente, portanto, que a abordagem linguístico-cultural é um esforço radical de conscientizar a cristandade de que não existe nenhuma teoria ou experiência humana universal, ou seja, experiências humanas que não sejam mediadas pela linguagem e pela cultura específica de onde vieram. 

 Justamente por essas ênfases que uma das primeiras e mais relevantes obras de teologia pós-liberal foi A gramática da fé (1978) de Paul Homer. Muitíssimo influenciado pelo trabalho do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, Homer aplica a ideia de “jogos de linguagem” à teologia. Para ele, a fé cristã possui uma gramática específica que deve regular a estrutura de seus discursos e formas de vida. Nesse sentido, o trabalho da teologia deve ser (reduzido) ao discernimento dessas regras gramaticais bíblicas para poder elaborar um discurso sobre Deus, Jesus e o culto que faça sentido no interior desse jogo de linguagem específico. Inclusive, podemos dizer que é justamente aqui que reside a raiz da crítica pós-liberal ao liberalismo teológico clássico. Para os aderentes da abordagem lingüístico-cultural o erro crasso do liberalismo foi justamente o de reinterpretar os conceitos bíblicos para correlacioná-los com a filosofia de sua época. Nessa metodologia correlacionista a teologia sujeitou-se totalmente aos jogos de linguagem que eram estranhos à comunidade cristã primitiva. 

Quem deixa esse ponto de vista claro é o brilhante teólogo inglês John Milbank. Junto da teóloga de Cambridge, Catherine PickStock  e do filósofo calvinista, James K. A. Smith, Milbank é um dos principais herdeiros da virada lingüístico-cultural na atualidade teológica com aquilo que batizaram de Ortodoxia Radical. No interior dessa proposta teológica, o papel principal da teologia é o seguinte:

Os onze capítulos anteriores, dedicados à crítica, não foram senão prelúdios de uma asserção: a da própria teologia como ciência social e rainha das ciências para os habitantes da altera civitas, em peregrinação por este mundo temporário. A teologia tem muitas vezes tomado de empréstimo alhures um relato fundamental da sociedade ou da história, vendo em seguida que introvisões teológicas são compatíveis com ele. Mas foi demonstrado que nenhum relato fundamental desse tipo, no sentido de algo neutro, racional e universal, é de fato disponível. E a própria teologia que terá de fornecer seu próprio relato das causas finais que atuam na história humana, tendo por base sua própria fé particular, historicamente específica. […] Em conseqüência, a teoria é primeira e primordialmente uma eclesiologia, e só se configura como um relato de outras sociedades humanas na medida em que a Igreja se define, na sua prática, em continuidade e descontinuidade com essas sociedades. Como a Igreja é já, necessariamente, em virtude de sua instituição, uma “leitura” de outras sociedades humanas, torna-se possível considerar a eclesiologia também como “sociologia”. […] Mas a reivindicação aqui não é de que a teologia, concebida de uma maneira amplamente tradicional, possa agora adicionar à sua competência certos pronunciamentos novos, de cunho “social”. Pelo contrário, alego que toda teologia tem de reconceber a si mesma como uma espécie de “sociologia cristã”: quer dizer, como a explicação de uma prática sociolingüística ou como a consta-te renarração dessa prática tal como se desenvolveu na história. A tarefa de uma tal teologia não é apologética, nem uma discussão. Em vez disso, ela tem de contar outra vez o mythos cristão, pronunciar novamente o logos cristão, e conclamar de novo a uma praxis cristã de uma maneira que lhes restaure uma vez mais seu frescor e sua originalidade. Ela tem o dever de articular a diferença cristã de um modo que a torne estranha (1995, p. 485-486). 

Considerações finais
Não temos espaço aqui para explorarmos cada uma daquelas três características elucidadas por McGrath anteriormente. Trata-se de uma tarefa urgente para pensarmos suas implicações teológicas. Entretanto, por hora, é necessário concluir que, ainda que seja um movimento grande, não-uniforme e não-organizado, o pós-liberalismo tem a mais relevante declaração de sua agenda teórica na publicação de Lindbeck sobre A Natureza da Doutrina.  Manter-se atento aos seus principais movimentos argumentativos, como também seus representantes mais ativos na contemporaneidade, é uma tarefa importante para pastores e estudantes de teologia. Tão somente assim, conseguiremos mostrar seus limites e a necessidade de uma abordagem mais adequada para relacionarmos os diferentes âmbitos possíveis da experiência humana.