O Deus conhecido

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Se nossa teologia não nos desperta a consciência e amolece o coração, na verdade ela endurecerá a ambos; se ela não estimula o compromisso de fé, reforçará o desligamento da descrença; se ela deixar de promover a humildade, inevitavelmente alimentará o orgulho.

J. I. Packer

Geerhardus Vos, Princeton e a Teologia Bíblica

(Theologia) a Deo docetur, Deum docet, ad Deum ducit. “[A teologia] é ensinada por Deus, ensina a Deus, conduz a Deus”. A célebre frase de Tomás de Aquino (1224-1274) dá início à obra Biblical Theology (Old and New Testament, 1948, de Geerhardus Vos (1862-1949), publicada no Brasil pela editora Cultura Cristã com o título Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos.

Geerhardus Vos, nascido na Holanda, foi professor de Teologia Bíblica no Princeton Seminary, Estados Unidos, de 1893 a 1932. Um marco na bibliografia teológica. sua obra Teologia Bíblica tornou-se referência em seminários por todo o mundo, inclusive no Brasil. O tema, já expresso no título, Teologia Bíblica, é uma área indispensável na pesquisa das disciplinas teológicas. Trata-se do estudo a respeito do desenvolvimento progressivo da Revelação Especial de Deus, motivo pelo qual Vos observa que um nome mais adequado seria “História da Revelação Especial”, embora reconheça a dificuldade de mudar o uso consagrado do termo “teologia bíblica” (VOS, 2019, p. 27).

Geerhadus Vos divide o livro em três partes, a primeira sobre o período mosaico da Revelação, a segunda acerca do seu período profético, onde trata sobre o modo de recepção da Revelação profética e o lugar do profetismo na Revelação do Antigo Testamento, e a última parte dedicada ao Novo Testamento, onde aborda temas como o ministério público de Jesus e a estrutura da Revelação no Novo Testamento.

A Teologia Bíblica na enciclopédia teológica

No estudo das disciplinas teológicas, Vos localiza a Teologia Bíblica entre a Exegese e a Teologia Sistemática. Gordon Fee e Douglas Stuart, no livro Entendes o que lês?, definem a primeira como “o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para descobrir o significado original, o significado pretendido. A exegese é basicamente uma tarefa histórica. É a tentativa de escutar a Palavra do mesmo modo que os destinatários originais devem tê-la ouvido; descobrir qual era a intenção original das palavras da Bíblia” (FEE; STUART, 2011, p. 31, grifo dos autores). Do ponto de vista bíblico, todas estão igualmente comprometidas com as Escrituras. O caráter distintivo da Teologia Bíblica, principalmente em relação á Teologia Sistemática, reside na sua abordagem:

“Não há nenhuma diferença se uma estaria mais atrelada às Escrituras do que a outra. Nesse aspecto, elas são totalmente parecidas. A diferença também não se estabelece ao se afirmar que uma transforma o material bíblico enquanto que a outra não modifica esse material. Ambas, igualmente, fazem que a verdade depositada na Bíblia passe por uma transformação: a diferença surge, entretanto, no fato dos princípios, pelos quais a transformação se efetua, serem diferentes. Na teologia bíblica, o princípio é o de estruturação histórica; na teologia sistemática, o princípio é o de estruturação lógica. A teologia bíblica desenha uma linha de desenvolvimento. A teologia sistemática desenha um círculo.” (VOS, 2019, p. 28)

O lócus da Teologia Bíblica

Logo no início das suas Confissões, Agostinho (354-430) se depara com um dilema: “Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-te ou louvar-te; conhecer-te ou invocar-te. Mas quem te invocará sem te conhecer?” (AGOSTINHO, 1984, p. 15). O dilema agostiniano, de certa forma, está presente no labor teológico. Eis a questão: O teólogo estuda para conhecer a Deus ou porque Deus se fez conhecido a ele? O que define a atividade teológica?

Geerhardus Vos argumenta que a base da teologia, o seu ponto de partida fundamental, é a revelação, pois “à medida que tal ser [Deus] escolhe se expor é que podemos conhecê-lo”, e “o conteúdo da mente de Deus pode ser possuído mediante o desvendar dessa mente, feito pelo próprio Deus” (VOS, 2019, p. 13, 14)”.

Há duas razões para a necessidade da primazia da revelação de Deus. Em primeiro lugar, o ato criativo de Deus foi a inauguração da possibilidade de um conhecimento extradivino do Senhor. Antes da Criação, nenhum conhecimento exterior a Ele era possível; Deus era “conhecido somente de si mesmo” (VOS, 2019, p. 14). A Criação foi o ato gracioso de Deus em se tornar conhecido. A possibilidade do conhecimento de Deus, em si mesma, já foi um ato de graça do Criador.

Em segundo lugar, o pecado afetou completamente a natureza humana. De uma vida em comunhão com o Criador, o homem se perdeu em seus próprios caminhos de um modo que se tornou incapaz de retornar ao relacionamento original com o Senhor:

“Em razão da natureza da situação, todos os passos tomados na direção de corrigir essa anormalidade partiram da soberana iniciativa divina. Esse aspecto particular, portanto, quanto à indispensabilidade da revelação, prevalece ou fracassa com o reconhecimento ou não do fato do pecado.” (VOS, 2019, p. 14)

O thelos da Teologia Bíblica

Assim, uma vez que Deus se revelou e pode, portanto, ser conhecido, o teólogo jamais deve ter a teologia como um fim em si mesma, ou para seu próprio benefício. O thelos [finalidade] da teologia, e da teologia bíblica em particular, é glorificar a Deus, e “ela atinge essa finalidade ao nos dar uma nova visão de Deus como aquele que apresenta o aspecto particular de sua natureza em relação com sua abordagem ao homem e comunicação com o mesmo. A bela declaração de Tomás de Aquino exemplifica isso: (Theologia) a Deo docetur, Deum docet, ad Deum ducit” (VOS, 2019, p. 31)


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Referências Bibliográficas

AGOSTINHO, Bispo de Hipona. Confissões. Trad. Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1984.

FEE, Gordon; STUART, Douglas. Entendes o que lês? Trad. Gordon Chown e Jonas Madureira. São Paulo: Vida Nova, 2011.

VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos. Trad. Alberto Almeida de Paula.

1 comment

  1. Virginia

    Muito obrigada por disponibilizar uma tamanha riqueza… louvado seja nosso Deus !!! Abcs

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