Laboratório invisível apresenta:

Os impactos do isolamento social nas igrejas evangélicas
brasileiras

Entender uma situação é fundamental para sabermos quais são as melhores formas de agir. Nos últimos meses, a igreja evangélica brasileira foi colocada muito rapidamente diante da necessidade de tomar sérias decisões a respeito de novos desafios. Com o início da pandemia, as decorrentes crises sanitária, econômica e política, bem como com o isolamento social, muitas questões começaram a ser discutidas no âmbito eclesiástico: desde o uso de recursos tecnológicos até a questão da assistência social.

Um dos braços de interesse do Invisible College é a pesquisa e interpretação de dados à serviço das igrejas e suas lideranças. Através da cooperação de muitos irmãos e irmãs, estamos buscando formas de trazer ajuda para as comunidades cristãs entenderem o momento atual em que se encontram e se anteciparem a alguns desafios futuros.

Para isso, realizamos uma pesquisa com pastores e líderes de igrejas brasileiras para tentar entender os impactos da crise nas suas comunidades locais. A pesquisa foi realizada entre os dias 24 de abril e 05 de maio de 2020, contando com a participação de 270 igrejas, espalhadas nos 26 Estados e no Distrito Federal, de diversas denominações.

Esse material contém os principais dados obtidos, bem como complementações de outras fontes. Esperamos que ele seja útil para você e sua comunidade. Que ele te ajude a compreender melhor o que estamos vivendo e lhe dê condições de pensar e executar ações que contribuam com o bem comum.

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Equipe Invisible College

Tamanho das igrejas

Estão contempladas igrejas de todos os Estados e do Distrito Federal

Encontros
presenciais

Quase metade das igrejas possuem mais de 4 reuniões presenciais semanais no prédio

Equipe de Mídia

2/3 das igrejas possuem uma equipe de mídia, e quase metade delas tem 5 ou mais pessoas envolvidas.

Igrejas que possuem 5 ou mais pessoas na equipe de mídia

45%

Principais Mídias

31% das equipes de mídia produzem conteúdo em vídeo para suas igrejas, seguido por conteúdo em áudio (20%).

parte 02

O Culto
Público

Muito provavelmente, o principal impacto do isolamento social na rotina da igreja foi em relação ao culto público, uma agenda que toda comunidade de fé possui.

Uma parte da pesquisa foi dedicada a explorar como as igrejas lidaram com essa nova condição social para viabilizar uma rotina de cultos à sua membresia.

Resposta ao
Isolamento

A transmissão ao vivo foi a forma mais comum de suprir o culto público (74%).

Em algumas igrejas, o WhatsApp também foi utilizado como uma ferramenta de suporte para o envio de devocionais.

Também foram adotadas reuniões de pequenos grupos remotamente.

Por que escolheram a transmissão ao vivo?

  • Interatividade
  • Pessoalidade
  • Evangelização
  • Já havia estrutura para isso

Por que escolheram a gravação?

  • Falta de recursos técnicos para transmitir
  • Facilidade de acesso para idosos
  • Prevenção de problemas técnicos
  • Flexibilidade de formato
  • Já realizavam gravações antes do isolamento

Antes da pandemia da Covid-19, quase metade das igrejas não realizavam a transmissão ou gravação dos cultos

48%

Alternativas
à falta de
internet

Perguntamos quais eram as alternativas encontradas para suprir o culto público das pessoas que, por algum motivo, não tinham acesso à internet.

7% não souberam responder ou disseram não haver nenhuma alternativa

  • Incentivo ao culto familiar;
  • Entrega de material impresso em casa, como devocionais;
  • Ligações telefônicas;
  • Atendimento pastoral individual;
  • Visita de irmãos da igreja;
  • Visita de equipe de apoio com notebook para exibição do sermão;
  • Envio de correspondências com as leituras recomendadas;
  • Encontros pontuais em locais abertos e sem aglomerações;
  • Proporcionar financeiramente o acesso à internet;
  • Envio de SMS;
  • Envio de cartas;
  • Carro de som com músicas e sermão.

Ceia

Perguntamos sobre como cada igreja lidou com o sacramento da Ceia:

1 – Orientação para celebração individual ou em família, com os elementos tradicionais.

2 – Orientação para celebração individual ou em família, com elementos alternativos.

3 – Orientação para que a ceia não fosse celebrada individualmente ou em família.

4 – Não deram nenhuma orientação.

5 – Outras respostas.

NOTAS DOS AUTORES

Observamos uma manutenção das liturgias de costume das igrejas e a busca por formas alternativas de socialização digital. O aumento considerável pela procura na transmissão dos cultos pela internet sinaliza uma modificação que poderá se tornar comum nas práticas eclesiásticas pós-pandemia.

Relatórios de tendências apontam a “manutenção de ritos” como uma necessidade em um tempo no qual somos induzidos à ansiedade. Buscar formas de unir a família, sustentar comunidades e gerar união são fundamentais, segundo especialistas.

Quanto à administração do sacramento da Ceia, a pesquisa mostrou que não existe consenso nas práticas das igrejas. Sabemos que vários pontos da teologia do culto são tangenciados quando passamos a “transmitir um culto” pelo internet e ministrar um sacramento “à distância”. A ausência de unanimidade aponta para a necessidade de discutir teologicamente a viabilidade dessas práticas durante e após a pandemia.

Uma atividade que se mostrou muito relevante no cenário da pesquisa é a reunião de pequenos grupos remotos para que as pessoas compartilhem com irmãos e irmãs os seus desafios, as tristezas e alegrias, além de orarem juntos ou realizarem uma breve reflexão bíblica.

parte 03

Trabalho
Social

Uma das principais questões relacionadas ao isolamento social são as necessidades que emergiram: tanto no aspecto emocional, quanto financeiro. 

A terceira parte da pesquisa trata especificamente dessa questão. Tentamos entender como a igreja reagiu a esses desafios que, embora já existissem, agora foram potencializados.

Projetos Sociais

1 %

das igrejas não realizavam nenhum tipo de trabalho social antes da pandemia da Covid-19

1 %

das igrejas que não tinham projetos sociais, iniciaram algum durante a pandemia

1 %

do total de igrejas que responderam o questionário iniciaram um novo projeto social durante a pandemia

51% das igrejas disseram que gostariam que houvesse maior capacitação em “assistência social”

51%

Questões
de atenção

Perguntamos qual está sendo a principal preocupação da igreja, enquanto instituição, em relação ao contexto de isolamento social.

Listamos aqui as principais, sem ordem de importância.

  • Saúde mental e emocional;
  • Suprir as necessidades básicas dos membros;
  • Evitar a propagação do vírus;
  • Acompanhamento espiritual;
  • Cumprir com as obrigações financeiras;
  • Manutenção dos relacionamentos e unidade dos membros;
  • Auxílio aos mais vulneráveis;
  • Impacto nos projetos missionais;
  • Atendimento a imigrantes;
  • Preparação para o pós-crise (servir a cidade).

Demandas
emocionais

Perguntamos se houve alguma iniciativa para suprir as demandas emocionais dos membros durante o período de isolamento.

1/4 das igrejas não fizeram nada a respeito. As demais fizeram algo através de profissionais da saúde mental ou de obreiros da própria igreja.

NOTAS DOS AUTORES

Segundo o relatório “Connecting in a Isolated World”, da The Nucleus Group, é notório observar os efeitos colaterais emocionais provocados pelo isolamento social, tais como: confusão, solidão, tédio, desesperança e impotência.

Uma das razões disso é por estarmos em um período no qual somos confrontados com a incerteza. Assim, processamos tal momento como algo ameaçador, o que nos traz um desgaste físico e emocional.

A pesquisa mostrou uma lista grande e variável de novas preocupações da igreja, enquanto instituição, em relação ao contexto de isolamento social. Entretanto, no que diz respeito às ações efetivas para lidarem com essas questões, predominou a atuação dos obreiros ou até mesmo nenhuma iniciativa a respeito. Isso aponta para a necessidade de desenvolvimento de propostas articuladas entre pastores e profissionais da saúde das mais diversas especialidades para fazer frente às novas demandas emocionais dos membros.

Ficou evidente também o desejo de mais da metade das igrejas em capacitar-se melhor para suprir das novas demandas de assistência social que surgiram durante a pandemia.

O relatório “Futuro Tensionado” traz uma reflexão sobre a questão da comunidade em que vivemos. Para os autores, é um momento oportuno para refletirmos sobre nosso papel enquanto cidadãos, colaboradores, familiares e amigos.

Para os cristãos, essa reflexão deveria ser constante e intencional. Se faz necessário, mais do que nunca, entender as implicações do mandato cultural e do cuidado com o próximo.

parte 04

Mídias Sociais e
Educação

As mídias sociais tornaram-se uma importante – e talvez fundamental – ferramenta para a manutenção do contato entre os membros e as dinâmicas das igrejas.

Essa etapa da pesquisa buscou entender como está sendo a relação das comunidades com elas, além de explorar a questão da educação à distância como alternativa às classes presenciais.

Redes Sociais

Quase metade das igrejas que participaram da pesquisa passaram a utilizar oficialmente o YouTube após o isolamento social.

Antes do isolamento, 95,6% das igrejas não faziam uso de nenhum recurso de EaD.

95.6%

Após o isolamento, quase 1/3 adotaram recursos de EaD para suprir as classes presenciais

29.8%

Uso de
EaD

A maioria das igrejas que adotaram a educação à distância foi para suprir as classes bíblicas.

Depois, vieram as classes de crianças e adolescentes, e apenas uma minoria para a formação de lideranças.

Produção
de EaD

3/4 das igrejas que adotaram o uso de EaD produzem os seus próprios materiais.

As demais, utilizam materiais de terceiros, sendo alguns de uso comum, outros de uso exclusivo da própria igreja.

NOTAS DOS AUTORES

Chama a atenção que mais de 95% das igrejas não faziam nenhum uso de recursos de EaD. Mesmo após a pandemia, menos de 30% das igrejas iniciaram algum projeto dessa natureza.

Fica evidente um imenso horizonte de trabalho que precisa ser explorado pelas igrejas que, dentre outras coisas, são comunidades de educação e formação cristã. Pensar a educação cristã na era digital é urgente para a maioria das comunidades de fé no Brasil.

Mesmo com todas as dificuldades mencionadas, das igrejas com iniciativas de EaD, 76% procuraram produzir o seu próprio material. Com certeza, essa é uma oportunidade de crescimento e criatividade nessa área pouco explorada, mas também sinaliza uma possível precariedade dos recursos, que foram iniciados sem preparo prévio, ou mesmo um esnobismo digital, tendo em vista a imensidão de materiais já disponíveis na internet.

A curadoria de conteúdo será uma prática cada vez mais fundamental para o sucesso da educação cristã na era da informação.

parte 05

Próximos Passos

Na última parte da pesquisa, buscamos entender quais eram as perspectivas futuras das igrejas, bem como seus próximos passos.

Importante ter em vista a data em que a pesquisa foi feita (24/04 a 05/05). Isso tem implicação direta nas respostas dadas, as quais podem ter mudado com o avanço da contaminação até a data de publicação.

Retorno das atividades

Perguntamos qual era a previsão de retorno das atividades nos próximos 6 meses. 

Metade das igrejas disseram que retornarão com todas as atividades, mas gradualmente.

Eventos

Perguntamos se as igrejas pretendem realizar algum evento, como conferências ou seminários, nos próximos 12 meses.

Quase metade das igrejas pretendem realizar algum evento dessa natureza de forma presencial.

Metade das igrejas que participaram da pesquisa disseram não ter nenhum fundo de reserva para situações emergenciais

50%

Desafios
Futuros

Perguntamos quais seriam os principais desafios da igreja para os próximos 6 meses. Listamos aqui os principais apontados, sem ordem de relevância.

  • Organização financeira;
  • Relevância ministerial;
  • Resgatar as pessoas perdidas;
  • Restaurar a esperança e a fé;
  • Cuidado emocional;
  • Retorno das atividades presenciais;
  • Enfrentar o medo de voltar a se reunir;
  • Readequação do cronograma;
  • Compreender o novo paradigma social;
  • Elaborar um planejamento.

NOTAS DOS AUTORES

A LSN Global, uma das mais importantes plataformas de pesquisa de hábitos de consumo e tendências do mundo, aponta um dado relevante: somos a população mais jovem da história.

Dentre as diversas implicações que isso tem, uma delas é a relação com as marcas, que estão sendo questionadas sobre a incompatibilidade entre o discurso e a ação.

Acreditamos que para a igreja isso não será diferente: cada vez mais seremos confrontados com a coerência entre aquilo que pregamos e fazemos.

É urgente uma teologia com desdobramentos públicos e práticos emanando das nossas comunidades. É urgente um testemunho mais coerente por parte da igreja evangélica brasileira.

CONTEÚDOS
EXTRAS

Diaconia Online: projeto gratuito para gestão de demandas e recursos
https://diaconia.online

Artigo: Os desafios relacionais para a igreja pós-crise
https://bit.ly/3dbf0EQ

Artigo: Medo, prudência e coragem na pandemia 
https://bit.ly/30VUTYG

Podcast: Igreja em tempos de pandemia
https://spoti.fi/3fJA7Q7

Podcast: A igreja pós-pandemia 
https://spoti.fi/3dbfdrC

REFERÊNCIAS

Connecting in Isolated World (The Nucleus Group, 2020)
https://www.thenucleusgroup.com

Futuro Tensionado (No One, 2020)
https://futurotensionado.noone.is

Post-Purpose Brands (LSN Global, 2020)
https://www.lsnglobal.com/macro-trends/article/25289/post-purpose-brands