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A criação de Nárnia pela Palavra: uma análise do senso comum em Thomas Reid e C. S. Lewis através da linguagem, seu uso e sua degeneração

Ensaio filosófico escrito por Camila Aguiar, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2024


No escuro, finalmente, alguma coisa começava a acontecer. Uma voz cantava. Muito longe. Nem mesmo era possível precisar a direção de onde vinha. Parecia vir de todas as direções, e Digory chegou a pensar que vinha do fundo da terra. Certas notas pareciam a voz da própria terra. O canto não tinha palavras. Nem chegava a ser um canto. De qualquer forma, era o mais belo som que ele já ouvira. Tão bonito que chegava a ser quase insuportável. O cavalo também parecia estar gostando muito, pois relinchou como faria um cavalo de carga se, depois de anos e anos de duro trabalho, se encontrasse livre na mesma campina onde correra quando jovem e, de repente, visse um velho amigo cruzando a relva e trazendo-lhe um torrão de açúcar.

(…)

E duas coisas maravilhosas aconteceram ao mesmo tempo. 

Uma: outras vozes reuniram-se à primeira, e era impossível contá-las. Vozes harmonizadas à primeira, mais agudas, vibrantes, argênteas.

Outra: a escuridão em cima cintilava de estrelas. Elas não chegaram devagar, uma por uma, como fazem nas noites de verão. Um momento antes, não havia nada lá em cima, só a escuridão; num segundo, milhares e milhares de pontos de luz soltaram, estrelas isoladas, constelações, planetas, muito mais reluzentes e maiores do que em nosso mundo. Não havia nuvens. As novas estrelas e as novas vozes surgiram exatamente ao mesmo tempo. Se você tivesse visto e ouvido aquilo, tal como Digory, teria tido a certeza de que eram as estrelas que estavam cantando e que fora a Primeira Voz, a voz profunda, que as fizera aparecer e cantar. 


(C. S. Lewis)1

Um mundo criado pela Palavra

O trecho acima foi retirado do famoso livro de C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia. Nele, é retratada a forma como Aslam — uma tipologia de Deus na obra de Lewis — cria e molda o mundo através da Palavra — e, no caso de Nárnia, a Palavra cantada. Na teologia bíblica, o mundo também foi criado através da Palavra. O Senhor falou “haja luz” e a luz passou a existir2. Por meio da Palavra, aquilo que antes não existia passou a existir. Semelhantemente, o evangelista João, em seu primeiro capítulo, observa que no princípio era o Verbo; o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus. Desses dois relatos que descrevem o mesmo grande evento da criação do mundo, depreende-se a importância da palavra, não apenas para o cristianismo, mas para o funcionamento de todas as coisas — inclusive da mente humana. 

Acerca da importância da linguagem, para além de terras fantasiosas, como Nárnia, em nosso próprio mundo, o filósofo Thomas Reid, ao lecionar sobre a linguagem natural em seu livro Investigação sobre a mente humana segundo os princípios do senso comum, trata sobre a linguagem natural da humanidade e dos signos que a acompanham para concretizar o que chamamos de comunicação. É a temática que trataremos no presente ensaio.

Linguagem natural da humanidade

Segundo Thomas Reid:

Um dos mais nobres propósitos do som é, sem dúvida, a linguagem, sem a qual a humanidade mal seria capaz de alcançar qualquer grau de melhoria em relação aos animais. A linguagem é comumente considerada como uma invenção puramente dos homens, que, por natureza, não são menos mudos que os animais, mas, por terem um grau superior de inventividade e razão, puderam elaborar signos artificiais de seus pensamentos e propósitos, e estabelecê-los em comum acordo (REID, 2013, p. 81).

Ao falar da linguagem natural, Reid destaca a sua importância no que tange à comunicação humana: é através da linguagem que expressamos os nossos desejos, nossas afeições, dores e tristezas; mas é através da linguagem, também, que nós criamos. Através da palavra repassada de pai para filho, nas casas, cerne da filosofia bíblica, por exemplo, as tradições do povo hebreu perduraram e, a cada feriado e data comemorada naquela cultura, a palavra, através da oralidade, era um elemento crucial para que as próximas gerações soubessem o que o Deus de Israel havia feito pelo seu povo:

Depois que o SENHOR te fizer entrar na terra dos cananeus, como jurou a ti e a teus pais entregar-te por herança, separarás para Yahweh o primeiro nascido de todo ventre. Todos os primeiros machos de teus rebanhos pertencem ao SENHOR. Resgatarás com um cordeiro toda primeira cria dos jumentos, mas se não quiseres resgatá-la, tu lhe quebrarás o pescoço; mas todo primogênito do homem, entre teus filhos, tu o resgatarás. E quando amanhã o teu filho te perguntar: ‘Que é isto?’- responder-lhe-ás: ‘Yahweh tirou-nos do Egito, da casa da escravidão, com mão poderosa! Porquanto tendo se obstinado o Faraó e não querendo deixar-nos partir, Yahweh matou todos os primogênitos na terra do Egito, desde o filho mais velho do homem até as primeiras crias dos animais. É por isso que sacrificamos a Yahweh todo primeiro filhote macho entre os animais. Mas pagamos o preço do resgate para ficarmos com nossos primogênitos (Êxodo 13:11-16).

Ao ler o relato bíblico em Êxodo, no período em que se celebrava a primeira Páscoa, o memorial sagrado de que o Deus de Israel havia resgatado o seu povo do Egito, observamos a importância da palavra e da sua tradição. É através da palavra que as crenças são compartilhadas, que as verdades eternas são inculcadas nas mentes e nos corações, e é, enfim, através da Palavra, que todas as coisas foram criadas, e continuam existindo porque a Palavra continua falando sobre elas. As Escrituras Sagradas, portanto, se utilizam da linguagem artificial da escrita para a preservação daquelas coisas que aconteceram, que foram vividas, e que por isso são transmitidas através de tradições e memoriais. No entanto, a oralidade da linguagem natural é essencial para que exista, de fato, comunicação. Sobre isso, Thomas Reid observa da seguinte forma:

É principalmente por signos naturais que damos força e energia à linguagem, e quanto menos a linguagem tiver deles, menos ela será expressiva e persuasiva. Assim, a escrita é menos expressiva que a leitura, e a leitura, menos expressiva que a fala sem livro. Falar sem as modulações, força e variações de voz próprias e naturais é uma linguagem frígida e morta em comparação com aquela linguagem que atenta para isso; é ainda mais expressiva quando acrescentamos a linguagem dos olhos e as características; e só estará em seu estado perfeito e natural e com a energia que lhe é própria quando a tudo isso acrescentarmos ainda a força da ação (REID, 2013, p. 84). 

Noutras palavras, Reid sustenta, em sua filosofia, a importância de a linguagem expressar e persuadir. E é nesse lugar em que a “contação da história” toma um lugar de destaque. Para ser viva, e a linguagem é vida em abundância, a fala precisa expressar, precisa conseguir criar emoção e interesse por meio das modulações, das expressões, dos gestos, da entonação da voz. Essa é uma das razões pelas quais os ministros do Evangelho precisam ser teólogos públicos: é a verdade que está — ou deveria estar — sendo professada através da Palavra, domingo a domingo, nos púlpitos das congregações. Semelhantemente a Aslam e ao próprio Senhor, ao manejarmos a palavra e a linguagem, criamos vida através daquilo que falamos e professamos; expressamos e comunicamos através do que falamos e de como falamos.

O hino nacional do Brasil cantado

Ao final de toda essa reflexão, é importante observar o entorno e reparar em como o presente tempo tem se utilizado da palavra e da linguagem. Para isso, é oportuno lembrar-se do episódio recente em que o hino nacional do Brasil foi cantado na linguagem neutra ou não-binária. Acima de todas as polêmicas e extremismos políticos que cercam esse ocorrido, o fato é que esse dia repercutiu. Mas por quê? Vejamos, pois, uma conceituação de linguagem neutra ou linguagem não-binária:

A linguagem neutra ou linguagem não-binária, é basicamente a formulação de modos de comunicação oral e escrita que não demarcam gênero, no intuito de incluir e abarcar uma maior diversidade de experiências e existências de pessoas, para além da estrutura binária de masculino e feminino da língua portuguesa, expressa em especial nos pronomes e terminações de gênero das palavras (HIGA, MOUTINHO, LOPES, 2023, p. 14).

A resposta à inserção de tal conceito, trazido pelos estudiosos da linguagem neutra, guardadas as devidas proporções históricas, havia sido dada por Thomas Reid desde 1764, época em que o seu texto foi escrito, enquanto ele buscava responder aos anseios da sociedade diante da iminente falta de sentido e aporia trazidos pelo ceticismo. Ora, se tal linguagem não demarca gênero e busca, com isso, “abarcar uma maior existência de experiências e existências de pessoas”, ela, na verdade, restringe e suprime a linguagem natural, outrora criadora de vida. Vejamos o que Reid fala, ainda, acerca da vida civilizada e da corrupção da linguagem natural. 

Não é uma pena que os refinamentos de uma vida civilizada, em vez de suprir as deficiências da linguagem natural, as extirpem e plantem, em seu lugar, articulações maçantes e sem vida de sons sem sentido ou rabiscos de caracteres insignificantes? É comum pensar que a perfeição da linguagem é expressar distintamente pensamentos e sentimentos humanos por esses signos maçantes, mas, se isso é a perfeição da linguagem artificial, é certamente a corrupção da natural. Signos artificiais significam, mas não expressam; eles falam ao entendimento, como o fazem os caracteres algebraicos, todavia as paixões, as afeições e a vontade não os ouvem: continuam dormentes e inativos até que falemos a eles na linguagem da natureza, aos quais são todos ouvidos e obediência (REID, 2013, p. 84).

Com isso, é possível afirmar que a linguagem neutra, ao invés de enriquecer a língua portuguesa e trazer para ela expressões que se assemelham à linguagem da natureza, a mesma linguagem que trouxe vida a todas as coisas, que veio através do Verbo no princípio, acaba por, em última análise, corromper a língua natural. Por essa razão, o escândalo do hino nacional cantado em linguagem neutra comoveu negativamente ambos os espectros, o que nos deixa uma ousada, porém comum, conclusão: a tradição, a honra e a própria vivência da linguagem natural da humanidade expulsa o ceticismo da linguagem neutra e traz de volta a essência da linguagem: expressar, comunicar, e, em última análise, criar e co-criar através da verdade da Palavra. “Nárnia, Nárnia, desperte! Ame! Pense! Fale! Que as árvores e os animais caminhem! Que os animais falem! Que as águas sejam divinas!” (LEWIS, 2009, p. 64).


1LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. Tradução: Silêda Steuernagel Paulo Mendes Campos. Ilustrações: Pauline Baynes. – 2 ed. – São Paulo, SP: Editora WMF Martins Fontes, 2009, p. 56.

2Gênesis 1:1-2, BKJ.


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Referências Bibliográficas

BÍBLIA KING JAMES ATUALIZADA. Disponível em: https://bkjfiel.com.br/.

HIGA, Laís Miwa. MOUTINHO, Laura. LOPES, Pedro. Diferenças, acusações e resistências acerca do uso de linguagem neutra de gênero: atualizando dilemas de identidade. 2023, 27 p. Paper. Universidade de São Paulo, Bauru, 2023. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Santo André, RJ.

LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. Tradução: Silêda Steuernagel Paulo Mendes Campos. Ilustrações: Pauline Baynes. – 2 ed. – São Paulo, SP: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

REID, Thomas. Investigação sobre a mente humana segundo os princípios do senso comum. Tradução: Aline Ramos – 1 ed. – São Paulo, SP: Nova Vida, 2013.