A beleza como dádiva divina

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Os olhos amam a beleza e a variedade das formas, o brilho e a luminosidade das cores.

Agostinho

[…] Olhai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam. Eu, porém, vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, vestiu-se como qualquer deles.

Mateus 6:28b-29

Se alguém é indiferente à beleza, sem dúvida, é porque não a percebe. As palavras iniciais de Roger Scruton (1944-2020), no parágrafo que abre o prefácio de seu livro Beleza, expressam a convicção do filósofo do quão problemático é o relativismo como visão de mundo, especialmente no que diz respeito aos juízos de beleza. Nesse sentido, não haveria, em última instância, um fundamento objetivo a partir do qual seria possível julgar o belo.

Mas se os nossos julgamentos de beleza são fundamentalmente relativos, todos pertencentes aos recônditos do subjetivo, o ceticismo quanto a um conceito objetivo do belo é inevitável. Para o filósofo, entretanto, “convicções céticas acerca da beleza são injustificáveis. Defendo que ela é um valor universal ancorado em nossa natureza racional, assim como defendo que o senso do belo desempenha papel indispensável na formação do nosso mundo” (2013, p. 8).

Nesse sentido, a beleza importa “não apenas porque agrada os olhos, mas porque transmite significados e valores que nos são relevantes e que desejamos conscientemente expressar” (2013, p. 19). Mas de onde provém, poderíamos perguntar, essa noção de valor universal, que confere à beleza um caráter intrínseco, em detrimento de uma concepção subjetivista? Para Agostinho (354-430), em um maravilhoso trecho de suas Confissões

A beleza que, através da alma do artista, é transmitida às suas mãos, procede daquela Beleza que está acima de nossas almas, e pela qual a minha alma suspira noite e dia. No entanto, aqueles que fabricam ou admiram essas obras dotadas de beleza exterior, delas tiram o critério para um julgamento estético, e não a norma para bem usá-las. Todavia, essa norma aí está, mas eles não enxergam… (1984, p. 307)

Para o filósofo de Hipona, Deus não só criou todas as coisas boas, como também dotou o homem de uma sensibilidade para com a beleza das coisas criadas. Como disse Salomão, em Eclesiastes, Ele tudo fez formoso a seu tempo (Ec 3:11). Nesse sentido, o cristão, sobretudo o artista cristão, tem diante de si uma nobre tarefa. Se Deus nos deu talentos, podemos usá-los criativamente – ou, antes, devemos usá-los criativamente, disse Hans Rookmaaker (1922-1977) em O dom criativo. A beleza vista como uma dádiva divina:

A arte cumpre sua tarefa quando proporciona ao próximo coisas belas, uma alegria perene. A arte está diretamente ligada à vida, à alegria, à profundidade de nosso ser, simplesmente por ser arte, e, portanto, não precisa de justificativa externa. É assim porque Deus, que criou a possibilidade da arte e que pôs beleza na criação, é o Deus da vida e quer que as pessoas vivam. Deus é o Deus da vida, o doador da vida. (2019, p. 103).


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REFERÊNCIAS

AGOSTINHO, S. Confissões. Trad. Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1984. Coleção Espiritualidade.

ROOKMAAKER, H. S. O dom criativo. Trad. William Campos da Cruz. Brasília, DF: Monergismo, 2018.

SCRUTON, R. Beleza. Trad. Hugo Langone. São Paulo: É Realizações, 2013.

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