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A beleza da verdade

Artigo escrito por Yuri Sousa Jackson, estudante do Programa de Tutoria Essencial 2024


A Palavra de Deus é o que necessitamos para consolo de nossas almas. Entretanto, precisamos mais do que a mera descrição do evangelho para nossa salvação. Um bom argumento convence, mas não converte. Essa é a proposta de John Frame, em seu livro Apologética para a glória de Deus. Segundo o autor, a apologética não serve para convencer os descrentes, mas, sim, para glorificar a Deus.

Frame nos recorda a exortação do apóstolo Pedro (1Pe 3.15)1, com ênfase na fidelidade à santidade de Cristo. Santificar a Cristo como Senhor em nossos corações nos torna tão devedores de guardarmos a sã doutrina quanto também da fiel imagem de Deus em Cristo Jesus. Nesse ponto, o escritor nos alerta sobre a necessidade de ampliar nossa visão acerca da apologética: “é tarefa do apologeta não apenas argumentar em favor da verdade, mas descrevê-la como é, em toda a sua beleza, sem negligenciar os tons escuros” (FRAME, 2010, p. 37).  

Com isso em mente, neste artigo pretendemos analisar quais são as nuances estéticas do trabalho apologético. Como não podemos negligenciar essa perspectiva sem desonrar ao nosso Senhor, somos responsáveis pela beleza que ocultamos. Além disso, como seres criados à imagem de Deus, somos dotados de um senso estético. Logo, sem a contemplação da beleza de Cristo, o homem jamais será plenamente obediente ao Senhor.

O compromisso com a beleza da verdade

A definição de apologética de Frame chama atenção pela necessidade de um compromisso prévio com o senhorio de Cristo. Tal compromisso deve dirigir a apologética ao próprio Cristo, mesmo que a contragosto do apologeta. Muitas vezes, somos tentados a confiar mais em nossos argumentos e razões do que nas consolações do Espírito Santo. Quando fazemos isso, estamos pecando, ainda que estejamos pregando a mais pura doutrina.

É fato que, durante muito tempo, a apologética esteve associada à persuasão racional. Após o longo desenvolvimento das ciências, muitos apologetas se convenceram de que a fé carecia de argumentos não religiosos para convencer os incrédulos. “Assim, lógica, fatos, experiência, razão e coisas como tais se tornariam fontes da verdade. A revelação divina, especialmente a Escritura, fica, assim, totalmente excluída” (FRAME, 2010, p. 15). Logo, se as fontes da verdade são meramente racionais, a beleza, fatalmente, também estaria excluída.  

Todavia, as Escrituras revelam a luz da beleza da verdade em toda a sua glória. Mesmo em “seus tons mais escuros”, ela nos comove e nos inspira. Segundo Tiago 1.17, “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes”. Neste trecho, podemos ver claramente uma associação entre o bem e o belo, entre a dádiva e a luz. Os dons perfeitos são transferidos a nós do céu pelo Pai das luzes. Tal descrição cativa nossa imaginação sobre os dons, não só por seu benefício, mas também por sua beleza. Refletindo sobre essa duplicidade, Frame destaca o poder atrativo da fé:

Com frequência, antes que confesse a verdade, a pessoa chega a um ponto em que deseja que ela seja verdadeira. Tudo isso é para o bem. (…) Uma pessoa com um desejo para ser realizado geralmente está no caminho para a crença. Um incrédulo consistente não acha a cosmovisão bíblica atrativa; ele se afasta dela (FRAME, 2010, p. 37).

Para aguçar nossa sensibilidade estética, o livro bíblico de Salmos nos apresenta aos mais diversos tipos de contemplação da verdade. O maior deles, o Salmo 119, é um hino de amor à Palavra de Deus. No entanto, é em Salmos 37.4 encontramos que um mandamento marcante: “agrada-te do Senhor e ele satisfará os desejos do seu coração.” Em outras traduções, a palavra “agrada-te” é substituída por “deleita-te”. Paradoxalmente, o texto evoca o compromisso com o deleite no Senhor, ao mesmo tempo em que promete a satisfação de nossos desejos mais profundos. 

O salmo bíblico demonstra que Deus não nega a satisfação dos nossos desejos, contudo, aponta para nós a direção, e ela começa pela obediência. O mandamento precede a satisfação. O Senhor é o criador e consumador dos nossos desejos. Com efeito, a beleza deve ser gozada em todas as suas formas, conquanto permaneça iluminada pela fé no Pai das luzes. Jesus Cristo, o Senhor, é, para todos os efeitos, nosso deleite e a fonte da nossa satisfação. 

A beleza de Cristo, a Verdade bela

Jesus Cristo, sendo a imagem do Deus invisível, não era apenas um grande mestre, mas também uma pessoa sensível e amorosa. Ele nos revelou o Deus pessoal e generoso, dono de toda a sabedoria e poder, justiça e glória, amor e compaixão. Mesmo em seus mais agudos sofrimentos, encontramos nele a serenidade e a ternura do Pai que se agradou de sua morte pela nossa salvação. Neste sentido, a verdade bela, evocada por Frame, é Cristo em toda a sua glória.  

Em outra abordagem apologética, porém sobre a perspectiva da Teologia Natural, Alister McGrath, importante apologeta cristão, destaca a relevância da beleza. Ao considerar as confissões de Santo Agostinho acerca do que é o belo, ele conclui: “Se Deus, Jesus Cristo ou as ideias do evangelho puderem ser considerados ‘belos’, terão uma capacidade de atração intrínseca, antes de um possível apelo ao intelecto humano” (McGRATH, 2019, p. 271).

Para reforçar seu argumento, McGrath apresenta o pensamento de outro importante teólogo da tradição reformada: Jonathan Edwards. Encontrando correlação direta entre a santidade e a beleza de Deus e no seu desejo de comunicar essa beleza ao nosso coração, Edwards enfatizava o papel de Cristo como logos na criação. Dessa forma, o mundo criado reflete a beleza divina. Por conseguinte, conclui McGrath (2019, p. 272-273): “A natureza destina-se a revelar a beleza de Deus, funcionando como se fosse uma escola de desejos em que a humanidade pode aprender a identificar a glória de Deus e reagir com fé e reverência.”.

Fica evidente que bons argumentos convencem, mas não convertem. O homem é um ser de desejos e, embora possam ter sido afetados pelo pecado, o texto de Salmos 37.4 deixa claro que eles não são essencialmente pecaminosos. Aliás, o texto bíblico enfatiza que a satisfação do coração humano está no Senhor, e não nos seus próprios sentidos. Assim, a luz que emana da beleza natural não é perfeita. A beleza sem a fé permanece vazia e desorientada.

Inevitavelmente, a busca pela beleza nos impele ao encontro da fonte dessa beleza. Este é pensamento e crença de outro importante apologeta: C. S. Lewis. Em seu sermão O Peso da glória, ele traça um paralelo semelhante ao de Edwards. Lewis via a glória de Deus associada à beleza. Com efeito, toda beleza, inclusive a produzida pelo homem, sempre remeterá ao Senhor. Nas suas palavras: “Os livros ou a música nos quais pensamos que a beleza estava localizada nos trairão, se confiarmos neles; não é que isso estava neles, apenas que veio por meio deles, e aquilo que veio por intermédio deles era apenas um anseio” (LEWIS, 2017, p. 36). A verdade é que a beleza, embora seja mediada pelas coisas deste mundo, não está contida nelas. O deleite na criação sem o Criador nos tornará escravos do prazer insaciável. A tragédia da beleza sem Cristo é inquietação de um coração insatisfeito. 

Desde a origem, Deus, o Criador, nos fez à sua imagem e semelhança. Nesse sentido, ao olharmos para Cristo, somos provocados a refletir sobre nossas próprias visões de nós mesmos e do mundo. Nesse processo, descobrimos que nossa visão é turva, distorcendo o que pensávamos e prejudicando nossas conclusões. Contudo, à luz da nova criação, encontramos a satisfação na Verdade bela: Cristo. Uma verdade meramente racional, além de não convencer, aprisiona o homem em si mesmo. Dessa prisão somente o Senhor Jesus Cristo nos libertará (Jo 8.32). 


11 Pedro 3.15: “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”.


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Referências bibliográficas

FRAME, John. Apologética para a glória de Deus: uma introdução. Trad. Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. 223 p. 

McGRATH, Alister. Teologia natural: uma nova abordagem. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2019. 368 p. 

LEWIS, C. S. O peso da glória. Tradução de Estavan Kirschner. 1ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. 192 p.