Ensaio filosófico escrito por Liz Marília Vecci, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2024
Em 1976, durante um período de intensa repressão e censura no Brasil, foi lançada a música “Como os nossos pais”, de Belchior, que aborda o conflito entre gerações e as expectativas de mudança que muitas vezes não se realizam, redundando na eterna repetição de ciclos. Nesse mesmo ano, morria um dos mais proeminentes filósofos contemporâneos da Alemanha, Martin Heidegger. Absolutamente distante do protesto em forma de poesia do compositor brasileiro, Heidegger, em seus últimos dias, parecia confirmar a profecia do nosso músico-poeta, que denuncia o dilema de querer ser diferente dos pais, mas perceber que, de alguma forma, acabamos reproduzindo os mesmos padrões e sofrendo as mesmas decepções. Diante disso, neste breve ensaio, pretendo analisar como parece provável que o grande fenomenólogo tenha sucumbido no embate entre idealismo e realidade, e a melancolia que surge ao perceber que, por mais que tentemos fugir, a influência do passado e dos valores familiares continua a nos moldar.
Sem muita dificuldade, é possível achar na internet, em pesquisa rápida, uma foto de Heidegger em seus últimos anos de vida, em uma cabana bucólica, cercado por lenhadores, fumando um cachimbo. A cabana foi comprada pouco antes da ida de Heidegger para Marburg, cidade pequena, protestante, onde ele lecionaria como professor extraordinário da universidade. Segundo Rüdiger Safranski:
Algum tempo antes da mudança, Heidegger compra uma pequena propriedade em Todtnauberg, na qual manda construir sua primeira pequena cabana, bem modesta. Ele próprio não mexe em nada. Elfride organiza e fiscaliza tudo. A partir dali, Todtnauberg é domicilio de seu afastamento do mundo e ao mesmo tempo torre do seu filosofar.1
Seus últimos anos, profundamente marcados por uma simplicidade quase rural, não refletindo a grandiosidade disruptiva de sua proposta filosófica. Filho de pais católicos de origem simples, Heidegger teve sua formação na transição do iluminismo para o ceticismo. “Iluminismo, no sentido mais amplo de pensamento em contínuo progresso, buscou desde sempre o objetivo de tirar dos homens o medo e torná-los senhores (…) O programa do Iluminismo era libertar o mundo da magia. Ele propunha dissolver os mitos e reverter a imaginação com a ciência”2. Antiseri e Reale ainda acrescentam que “o iluminismo é a filosofia otimista e é a filosofia da burguesia em ascensão. É a filosofia que se empenha e trabalha para o progresso”3.
No entanto, o Heidegger produtivo intelectualmente viveu em um momento de guerras, em que a razão não era suficiente, pois o otimismo passou. O filósofo também alemão Theobald Ziegler descreve este momento como um fim de ciclo:
Assim, esse fin de siècle era um mundo cheio de contrastes, em que tudo girava e se misturava caoticamente, tudo acontecia ao mesmo tempo, o Carnaval e a Quarta-Feira de Cinzas, a vigorosa ascensão do renascimento e o cansaço pessimista da decadência; o desejo imperialista de poder e a ânsia por paz a qualquer preço; era uma época de “inquietação e necessidade de estímulos”, mas que também necessitava de quietude, saturada que estava de estímulos; uma época de dispersão e abandono de si mesmo no mundo exterior, bem como de ânsia por reconquistar uma interioridade e uma inteireza perdidas. E as pessoas dessa época, por um lado, eram hiper-intelectualizadas, debilitadas desde a juventude pela palidez do pensamento, e, por isso, nervosas e agitadas por estados de ânimo não verbalizados e não verbalizáveis, e, apesar disso, simultaneamente práticas, utilitaristas, cheias de vontade, ativas tanto num sentido externo quanto interno; pessimistas e esnobes, cansadas e lânguidas, por um lado e, por outro, atraídas e animadas pela vontade e alegria de viver, movendo-se energicamente para a frente, buscando ambiciosamente planos mais elevados; eram livres de preconceitos, descrentes e críticas, frias até o fundo do coração e, ao lado disso, arrebatadas por todo tipo de misticismo ou ao menos brincavam com isso artificialmente, cheias de interesse e curiosidade por tudo que fosse enigmático e misterioso, por tudo que fosse profundo e ultramundano, rebaixavam a própria ciência colocando-a a serviço da superstição ou dando-lhe pretensiosamente a forma de uma ciência ocultista4.
O alinhamento de Heidegger com o nazismo salta em todas as publicações que louvam sua produção filosófica. E as lentes de horror que usamos para ler esse período, quase embota nossa capacidade de respeitar sua grandiosidade. Não muito diferente da postura acadêmica que florescia, e se perpetuaria até hoje, Heidegger desprezou sua herança cristã católica. “Visto que desprezaram o conhecimento de Deus, o único (elemento) que guia nossas mentes à genuína sabedoria, o Senhor os entregou a uma mentalidade pervertida, a qual não consegue escolher nada distintamente”5. Essa análise do reformador Calvino, do verso 24 da Epístola ao Romanos, parece confirmar o registro indignado feito pelo economista Adolf Lamp, na “Comissão da Depuração” da “ausência por parte de Heidegger de qualquer sentimento de culpa. Essa postura não mudou substancialmente até o fim”6.
Todavia, nosso imaginário triunfalista, de que homens como Heidegger, que colaboraram com o regime nazista, por associação conivente ou ação intencional, e impingiram a destruição através de seu pensamento, deveriam morrer de forma agonizante, não subsiste ao seu fim bucólico. Ali, no calor das chamas da cabana, sentado com lenhadores, ele os escutava atentamente, criando um ambiente de troca em que esses encontros com a vida simples da Floresta Negra pareciam influenciar seu pensamento. E foi nesse ambiente, muito semelhante a uma igreja primitiva, que Heidegger fez a inflexão que se assemelha à música de Belchior. Ao lado de sua esposa Elfriede, concedeu a famosa entrevista ao semanário alemão Der Spiegel, cuja publicação só foi autorizada postumamente,. “Somente um Deus pode nos salvar” foi a frase mais impactante desse breve encontro entre o autor de Ser e Tempo e uma revista de ampla circulação.
Quando nos deificamos, nos tornamos frágeis: “Nossa única esperança é acreditar em nós mesmas quando dizemos que somos suficientes, só que não podemos ser quem nos propusemos a ser, então nós nos perdemos”7. Como afirma Timothy Keller: “O eu moderno é esmagador”8. Debaixo de todas as camadas desse filósofo que teve uma vida pujante, controversa, esse movimento existencial final de recolhimento, de introspecção e busca do sentido do ser, pode confirmar a sabedoria do provocador Belchior:
Que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais.9
1 SAFRANSKI, Rüdiger. Heidegger: um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. Edição do Kindle. São Paulo: Geração Editorial, 2013. p. 451.
2 HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W. Dialética do Esclarecimento. In: REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: idade moderna. Tradução. 5. ed. São Paulo: Paulus, 1991, p. 587.
3 REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: idade moderna. Tradução. 5. ed. São Paulo: Paulus, 1991, p. 588.
4 ZIEGLER, Theobald. Die geistigen und sozialen Strömungen Deutschlands im neunzehnten Jahrhundert. 740 p. Legare Street Press, 18 jul. 2023. In: GRUNENBERG, Antonia. Hannah Arendt e Martin Heidegger: História de um amor (Perspectivas) (Portuguese Edition) . Editora Perspectiva S/A. Edição do Kindle.
5 CALVINO, João. Romanos. Tradução Valter Graciano Martins. 2.ed. São Paulo: Editora Parakletos. 2001, p. 73.
6 REALE; ANTISERI op. cit., p. 454.
7 OSHMAN, Jen. Que eu diminua: encontrado alegria duradoura na era do eu. Tradução Karina Naves. São José dos Campos, SP: Fiel, 2021, p. 37.
8 KELLER, Timothy. Deus na era secular. Trad. Regina Lyra. São Paulo: Vida Nova, 2015.
9 BELCHIOR. Como os nossos pais. Belchior. 1976.
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Referências Bibliográficas
CALVINO, João. Romanos. Ed. Parakletos, 2001. São Paulo. Tradução Valter Graciano Martins. 2. ed. p. 73.
BELCHIOR. Como os nossos pais. Belchior. 1976.
KELLER, Timothy. Deus na era secular. Trad. Regina Lyra. São Paulo: Vida Nova, 2015.
OSHMAN, Jen. Que eu diminua: encontrado alegria duradoura na era do eu. Tradução Karina Naves. São José dos Campos, SP: Fiel, 2021.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Filosofia: Idade Moderna. Vol. II. 1. ed. São Paulo: Paulus Editora, 2018.
ZIEGLER, Theobald. Die geistigen und sozialen Strömungen Deutschlands im neunzehnten Jahrhundert. 740 p. Legare Street Press, 18 jul. 2023. In:GRUNENBERG, Antonia. Hannah Arendt e Martin Heidegger: História de um amor (Perspectivas) (Portuguese Edition) . Editora Perspectiva S/A. Edição do Kindle.