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A condição original e o Destino Final: a relevância do pacto das obras para a construção de uma teologia da arquitetura

Artigo de opinião escrito por Isabel Lopes Campello, estudante do Pocket Essencial 2024


No contexto da Igreja Brasileira, há uma compreensão equivocada acerca do relacionamento de Deus com Adão em seu estado pré-queda no Éden. Há, por conta de uma leitura superficial de Gênesis 1-2, a tendência de exaltar o seu estado inicial, esquecendo-se de que, apesar de ter sido “criado à imagem de Deus em verdadeiro conhecimento, justiça e santidade” (Bavinck, 2021, p. 280), o homem ainda possuía a necessidade de progredir, uma vez que não havia alcançado “o estado de glória para o qual ele havia sido destinado” (Bavinck, 2021, p. 279). 

Nesse sentido, pode-se questionar no que as atribuições de Adão antes da queda influenciam em profissões modernas como a arquitetura, mas a realidade é que uma teologia da criação deturpada leva a uma ontologia errônea do ser humano. Assim, esses equívocos podem resultar no desprezo do desenvolvimento humano e de diversas profissões que contribuem para tal progresso. Em contrapartida, uma teologia sadia da condição do homem na criação pode ajudar no estabelecimento de uma relação saudável do cristão com o desenvolvimento humano e urbano.

No Éden, Deus estabeleceu seu primeiro pacto com o homem, o Pacto das Obras. Foge do escopo do texto debater tal tópico, antes, parte-se do pressuposto de que a compreensão reformada do pacto das obras está correta. Nesse sentido, Barcellos define o Pacto das Obras de Adão da seguinte maneira:

Aquele compromisso ou relacionamento divinamente sancionado que Deus impôs a Adão no Jardim do Éden. Adão era um representante sem pecado da humanidade e um filho de Deus e portador da imagem dele. Adão foi condicionado à obediência, e tudo para a melhoria da condição do homem (Barcellos, 2023, p. 77).

Disso, extrai-se que, em seu estado inicial, Adão era capaz de não pecar, contudo, não era incapaz de pecar. Deus o colocou sob um mandamento probatório, no qual, mediante sua contínua obediência, Adão alcançaria a vida eterna, ao passo que a desobediência resultaria na morte. 

Assim, compreende-se que o estado inicial em que o homem foi criado não era o estado final para o qual ele foi criado. Deve ser retirada a ideia de que Adão não trabalhava ou vegetava e olhava para as plantas no Éden. Assim, pontua Bavinck: “Existe uma grande diferença e uma ampla separação entre a condição na qual o primeiro homem foi criado e o destino para o qual ele foi chamado” (Bavinck, 2021, p. 276). Deus o criou com a intenção e o propósito de que houvesse desenvolvimento e crescimento para o jardim e para a humanidade. A primeira palavra de Deus aos seres humanos foi para que fossem fecundos e se multiplicassem, enchendo a terra e a sujeitando. Seria, portanto, mediante o cumprimento do pacto das obras e suas estipulações positivas e negativas que Adão alcançaria seu glorioso destino final.

Entendendo o estado inicial da criação, que apesar de muito bom, ainda não era tudo que poderia e deveria se tornar, e compreendendo o mandamento dado a Adão, entende-se que o trabalho de um arquiteto, isto é, de organização e criação de espaços que contribuam para o desenvolvimento das atividades humanas de forma bela, confortável e piedosa, não é fruto do pecado, mas parte do propósito de Deus na criação do homem.

Sabe-se, contudo, que Adão não cumpriu o mandamento. Ele falhou em obedecer a Deus, e como representante de toda a humanidade, a colocou debaixo do poder corrosivo do pecado. Nenhum homem, então, é capaz de cumprir as exigências do Pacto das Obras e alcançar a vida eterna e todo trabalho de cultivo e desenvolvimento na criação agora se torna egoísta e perverso.

Entretanto, Cristo, o segundo Adão, sendo Filho de Deus e sem pecado, é o único que foi capaz de obediência perfeita. É somente pela obra dEle que o homem pode receber gratuitamente a vida eterna. Sendo assim, o cristão, revestido da Justiça de Cristo, é capacitado a buscar o progresso piedoso intencionado no Éden antes da queda. O trabalho pode novamente refletir os atributos do Criador.

O entendimento do relacionamento de Adão com Deus no Éden, onde lhe foi prometida a vida eterna mediante a perfeita obediência, esclarece como, em seu estado inicial, Adão ainda não tinha tudo para o qual ele foi criado para ter. Deus, desde o início, intencionou que houvesse desenvolvimento e crescimento em sua criação e por isso há espaço para atividades como a arquitetura.

O homem foi criado em um Jardim, mas o fim da história da redenção se dá em uma cidade celestial. Não há um retorno à condição do Éden, mas, por meio de Cristo, é dada aos eleitos uma condição que Adão nunca foi capaz de alcançar. A queda deturpa o desenvolvimento humano, mas a obra de Cristo redime todas as coisas e capacita os cristãos a continuarem a desenvolver a criação de maneira piedosa. É a partir dessa realidade que é possível construir uma teologia sólida e concisa acerca do papel dos arquitetos na obra de Deus. 


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Referências

BARCELLOS, Richard. Entendendo o Jardim Corretamente: A obra de Adão & o descanso de Deus à luz de Cristo. Tradução de William Teixeira e Camila Rebeca Teixeira. 1ª ed. Francisco Morato, SP: O Estandarte de Cristo, 2023. 434 p.

BAVINCK, Herman. As maravilhas de Deus: instrução na religião cristã de acordo com a confissão reformada. Tradução de David Brum Soares. 1ª ed. São Paulo: Pilgrim Serviços e Aplicações; Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021. 736 p.