A natureza do autoconhecimento

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Ó Deus, Tu me conheces, faze que eu Te conheça, como sou por Ti conhecido.

Agostinho

Quem nunca ficou maravilhado com as palavras de Davi ao ler o Salmo 8? Ele inicia exaltando o nome do Senhor sobre toda a Terra e a Sua glória demonstrada nos céus. Difícil não vir à memória neste momento também o Salmo 19, quando ele mesmo começa dizendo: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das Suas mãos”. Davi se deleitava nas obras Deus, e o reconhecia em todos os seus caminhos. Este homem, a quem Deus certa vez descreveu por meio do profeta Samuel como “um homem segundo o Seu coração” (1Sm 13:14), amava o Senhor e o livro de Salmos é como uma galeria de obras artísticas esculpidas por um coração regenerado por Deus; a arte da adoração “em espírito e em verdade” (Jo 4:23) por meio de poesias resultantes de pessoas que verdadeiramente nasceram de novo.

À semelhança do Salmo 19, nos versículos 3 e 4 do Salmo 8, Davi contempla os céus e se dirige a Deus com as seguintes palavras: “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que estabeleceste, pergunto: Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que com ele te preocupes?” Diante de todo o vislumbre frente à Criação, surge uma pergunta no coração de Davi: Que é o homem? Diante de toda a maravilha da Criação de Deus, da imensidão do Universo, do número incontável de estrelas, muitas incrivelmente maiores que o Sol, “que é o homem para que te lembres dele?”. Davi colocou seu coração na posição mais digna que poderia estar diante de Deus: na condição de humildade.

Sua humildade não era movida por interesses pessoais, pois assim não seria verdadeira. Ela era o reconhecimento do senhorio de Deus e Sua grandeza, e ao mesmo tempo da sua própria pequenez. Mas, embora pequeno, ainda assim lembrado — e amado — por este Deus. Certamente foi com o mesmo coração que Agostinho se dirigiu a Deus nas primeiras palavras das suas Confissões:

Grande és Tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e a sua sabedoria não tem limite. E quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação; o homem, carregado com sua condição mortal, carregado com o testemunho do seu pecado e com o testemunho de que resiste aos soberbos; e, mesmo assim, quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação (AGOSTINHO, 1984, p. 15).

Dois corações regenerados pelo mesmo Deus e com o mesmo desejo: amá-lo e adorá-lo tal como Ele é, grande e sumamente louvável. E, à medida que conheceram mais a Deus, tanto Davi como Agostinho conheceram mais a si mesmos. Que é o homem? Essa pergunta já foi respondida de muitas maneiras, mas nenhuma delas encontrou solidez à parte de Deus, pois “a maravilhosa bênção que a revelação divina oferece para aqueles que a conhecem é a grande descoberta de que o Deus das Escrituras revela ao homem não somente o verdadeiro Deus, mas também o verdadeiro homem” (MADUREIRA, 2017, p. 189).

Houveram homens que levantaram a questão: O que vem primeiro? O autoconhecimento ou o conhecimento? É o autoconhecimento que o homem tem de si mesmo que o conduz ao conhecimento de Deus ou é o conhecimento de Deus que conduz o homem ao seu autoconhecimento? Onde, pois, reside o fundamento da máxima “Conhece-te a ti mesmo”? Que é o homem? Enquanto morto em seus delitos e pecados e, portanto, cego espiritualmente, o homem jamais teria condições de conhecer a si mesmo plenamente. É somente o ato regenerador de Deus no seu coração, trazendo-o “das trevas para a sua maravilhosa luz” (2Pe 2:9) que o permite “conhecer ao Senhor” (Os 6:3) e, assim, conhecer a si mesmo verdadeiramente.

Referências

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad. Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1984. — Coleção Espiritualidade.

Bíblia de Referência Thompson: com versículos em cadeia temática; Antigo e Novo Testamentos. Compilado e redigido por Frank Charles Thompson; Trad. João Ferreira de Almeida. São Paulo, Vida: 2010.

MADUREIRA, Jonas. Inteligência Humilhada. São Paulo: Vida Nova, 2017

5 comments

  1. Raquel

    Olá. Gostei bastante do texto. Mas acredito que mesmo se conhecermos a Deus verdadeiramente, esse autoconhecimento que nos é revelado ainda se refere a questão espiritual e a percebermos nossa pequenez diante de Deus e algumas falhas, mas para desenvolver nossa inteligência emocional, por exemplo, e termos autoconhecimento quanto a emoções, outras limitações, comportamentos, vejo que não basta apenas ter a revelação divina e isso não vem automaticamente por estudar a Bíblia ou tentar praticá-la. Envolve habilidades e desenvolvimento psicológico também. O que vocês acham?

    1. Douglas Quintiliano

      Olá, Raquel! Muito boa colocação! De fato, o autoconhecimento de nós mesmos, fruto do conhecimento de Deus revelado a nós é, antes de tudo, espiritual: o ato regenerador do Espírito Santo no coração do homem, fazendo-o nascer de novo. O desenvolvimento da inteligência emocional, por exemplo, como você bem coloca, nesse sentido, tem na regeneração o seu ponto de partida. O que queremos dizer? Há diferentes aspectos da vida humana que necessitam ser trabalhados de maneira progressiva, como este campo que você bem citou. É claro que o Senhor também o levou em conta ao dar nova vida ao homem. Uma vez nascido de novo, o homem sendo agora filho de Deus, e não mais seu inimigo, pode glorificá-lo em diferentes áreas da vida, tendo em Deus pela sua graça, a capacidade de desenvolver habilidades e a sua inteligência emocional, por exemplo, de uma forma que agrade a Ele. A sua contribuição, portanto, é muito complementar à nossa reflexão. Muito obrigado, e que o Senhor te abençoe!

      1. Raquel

        Douglas, obrigada pela resposta! Muito bom, entendi perfeitamente. Sem esse “start” da regeneração, portanto, nem a capacidade de percebermos que temos tanto a melhorar é despertada verdadeiramente. Obrigada, parabéns pelo conteúdo e que Deus também te abençoe.

  2. Bruno

    É uma alegria ver o Douglas produzindo coisas cada vez mais ricas. Belos textos nessa coluna aqui meu amigo! Vida longa ao querido Douglas e ao InC!

  3. Cleiton Silva

    Muito bom. Parabéns! Prossigamos, então, no conhecimento à Deus.

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