A pretensa autonomia da experiência sensível

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É de grande utilidade para o marinheiro saber a extensão de sua linha, embora não possa com ela sondar toda a profundidade do oceano. É conveniente que saiba que ela é suficientemente longa par alcançar o fundo dos lugares necessários para orientar sua viagem, e preveni-lo de esbarrar contra escolhos que podem destruí-lo.

John Locke

Poucos autores da tradição filosófica são tão importantes para a compreensão do nosso tempo do que o inglês John Locke (1632-1704), um dos pensadores que mais exerceram influência sobre o pensamento ocidental. Além de sua participação na esfera política durante boa parte de sua carreira, da qual obras como os Dois tratados sobre o Governo Civil são frutos, é digno de nota e atenção também uma de suas obras mais importantes, de cunho estritamente filosófico: Ensaio sobre o entendimento humano. Tendo levado cerca de duas décadas para ser escrito, e publicado no final do século XVII, esse texto se tornou um clássico da epistemologia, não tanto pela concordância ou não com seus argumentos, mas sobretudo pela profundidade da discussão que Locke se propôs a fazer: “investigar a origem, certeza e extensão do conhecimento humano” (LOCKE, 1997, p. 29).

John Locke pertente à tradição empirista da filosofia. Ao lado de George Berkeley (1685-1753) e David Hume (1711-1776), foi um de seus maiores proponentes (BROWN, 2007, p. 54). Se por um lado, o racionalismo, enquanto abordagem filosófica, fazia da razão a arché do conhecimento, o empirismo passou a defender — fazendo aqui uma alusão à terminologia de Herman Dooyeweerd — a pretensa autonomia da experiência sensível: “Em contraste com os racionalistas, que procuravam erigir sistemas filosóficos por meio de raciocínios baseados em verdades supostamente evidentes por si mesmas, os empiristas ressaltavam o papel que a experiência desempenhava no conhecimento. Argumentavam que não temos ideia alguma senão aquelas que derivam da experiência, que chega até nós através dos sentidos” (BROWN, 2007, p. 54).

Seria injusto pensar que a preocupação de Locke não passasse de uma querela filosófica. Para ele, era de suma importância entender a altura, largura e profundidade do conhecimento humano, não no sentido de erigir uma espécie de torre de Babel epistêmica na qual o homem poderia habitar à revelia do seu Criador. Locke foi um prodigioso apologeta cristão do seu tempo. O que ele se propôs a fazer no seu ensaio foi oferecer uma teoria representativa do conhecimento. Locke foi instigado pela leitura da obra do filósofo Ralph Cudworth (1617-1688), O verdadeiro sistema intelectual do Universo, onde argumentou que a existência de Deus, para ser provada, requer a participação de ideias inatas na mente humana, isto é, ideias evidentes por si mesmas. O princípio da não contradição seria um exemplo.

Ideia, para Locke, é um termo técnico, “sendo este termo mais indicado para significar qualquer coisa que consiste no objeto do entendimento quando o homem pensa”, ou seja, “qualquer coisa que pode ser entendida como fantasma, noção, ou tudo o que pode ser empregado pela mente pensante” (LOCKE, 1997, p. 33). O debate, portanto, girou em torno da existência ou não de ideias na “mente pensante” a despeito ou por causa da experiência sensível. A arché do conhecimento, para Jonh Locke, se encontrava necessariamente na experiência sensível. O Livro I do seu ensaio foi dedicado a refutar a tese de Cudworth. A existência de Deus poderia ser provada ser a necessidade de ideias inatas.

Na introdução do seu livro Filosofia e Cosmovisão, o filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, começa com uma provocação filosófica. E se, de um dia para o outro, os sentidos se voltassem para o cérebro, em atitude de rebelião, e lhe dissessem: “Tuas generalizações, tuas coordenações, são puramente abstratas, meras lucubrações sem nenhuma realidade. Nós não precisamos de tuas reflexões sobre os nossos atos; basta-nos apenas sentir e nada mais. O que tu fazes é obra morta, anquilosada, estática; um pobre fantasma, criado por ti” (SANTOS, 2018, p. 19)? A experiência humana envolve mais do que sua experiência sensível, responde Mário; os sentidos necessitam de direção, a qual não podem oferecer por si mesmos.

O racionalismo, apontando para a razão, e o empirismo, com sua ênfase na experiência sensível, são filosofias que se diferem por seus compromissos pré-teóricos; a primeira fundamentando-se na reflexão racional e a segunda, na empiria. Apesar dos seus respectivos empreendimentos, em ambas uma compreensão reducionista da realidade é inevitável. À luz da abordagem de Dooyweerd, elas são exemplos do que acontece quando fragmentos da realidade são elevados como condições de possibilidade para a compreensão de toda a realidade. É pretensa autonomia, seja da razão, seja da experiência sensível.


Bibliografia

BROWN, Colin. Filosofia e fé cristã. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2007.

LOCKE, John. Ensaio sobre o entendimento humano. Tra. Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 1997. Os Pensadores.

SANTOS, Mário Ferreira dos. Filosofia e cosmovisão. São Paulo: É Realizações, 2018.

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