A visão do quadro todo: a peregrinação de Alister McGrath

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Eu acredito no Cristianismo como acredito que o Sol nasceu, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todas as coisas.

C. S. Lewis

Entre setembro de 2007 e julho de 2008 a escritora e pesquisadora Ruth Bancewicz, do Instituto Faraday de Ciência e Religião, entrevistou uma série de renomados cientistas que, a despeito de seus diferentes campos de atuação, possuíam algo em comum: a fé cristã. Assim como em O Regresso do Peregrino, de C. S. Lewis, de certo modo eles fizeram um caminho parecido com o do brilhante escritor de Cambridge. Alguns durante boa parte da vida foram ateus convictos e outros, agnósticos. Em O teste da fé: os cientistas também creem, Bancewicz compartilha suas histórias de como vieram abraçar o cristianismo e porque a fé genuína no Cristo ressurreto, longe de contradizer, apenas realçou a “visão do quadro todo”, da relação entre a fé e suas respectivas vocações científicas.

Alister McGrath, doutor em biofísica molecular, professor de teologia histórica na Universidade de Oxford e autor de inúmeros livros, foi um dos entrevistados. Entre os seus escritos traduzidos para o português se encontram Surpreendido pelo sentido, O ajuste fino do Universo, C. S. Lewis, Richard Dawkins e o sentido da vida, A ciência de Deus e Fundamentos do diálogo entre ciência e religião. McGrath está entre os autores que mais têm contribuído na academia para o entendimento da compatibilidade entre fé e ciência. Longe de necessariamente entrarem em conflito, elas podem sim andar juntas e, até mesmo, necessitam.

E sua história com as ciências naturais teve início ainda cedo: “Quando eu era jovem, desenvolvi um interesse apaixonado pelas ciências. Isso começou com um fascínio pelo céu noturno. Li tudo o que pude sobre astronomia e, quando tinha 9 anos, construí sozinho um pequeno telescópio” (2013, p. 146). Tempos depois ele viria a ganhar um microscópio do seu tio-avô que só fez o seu encanto pelas ciências aumentar ainda mais. “Parte do que me fascinava sobre a ciência era descobrir como as coisas funcionam, mas também havia a descoberta de coisas novas que precisavam ser explicadas. Isso realmente me fazia pensar” (2013, p. 146). Na adolescência, sob a influência de seu tempo, McGrath acabou cultivando uma concepção bastante popular ainda hoje sobre a relação entre fé e ciência: o modelo do conflito:

No início da adolescência, adotei a visão de que a ciência era profundamente antirreligiosa e que oferecia uma explicação total das coisas. Consequentemente, também entendi que não havia lugar algum para Deus. É claro que crescer na Irlanda do Norte não ajudava muito. Os conflitos religiosos que vi entre protestantes e católicos romanos criaram em mim a impressão de que a religião sempre causa conflito. Assim, aos poucos adotei a visão, bastante difundida nos anos de 1960, de que o mundo seria um lugar melhor se não houvesse religião. Eu pensava que isso fazia sentido cientificamente e também moralmente, de modo que me tornei um desses ateístas que advogam a abolição da religião. De fato, quando leio Richard Dawkins, sinto certa nostalgia, porque é assim que eu costumava ser!” (2013, p 146).

Mas não demorou muito tempo para McGrath perceber os problemas de sua visão de mundo, quando ingressou na Universidade de Oxford para iniciar seus estudos em química. Nesse período, relata McGrath, ele aprendeu duas coisas: “Uma era de que o argumento intelectual em prol do ateísmo era muito mais fraco do que eu imaginava. Mais importante, comecei a entender que as ciências têm seus limites e que eles precisam ser identificados e respeitados. Essa linha de pensamento começou na biblioteca científica da escola, onde acidentalmente me deparei com a seção de história e filosofia da ciência” (2013, p. 147). Para McGrath, reconhecer os limites da ciência não implicou num tipo de obscurantismo intelectual, mas, isto sim, no entendimento de que ela simplesmente não pode fornecer todas as respostas para as questões perenes da vida.

Quando começou a aprofundar seus estudos em história e filosofia da ciência, McGrath teve contato com um “ácido universal” diferente daquele descrito por Daniel Dennett: “O filósofo Daniel Dennett fala sobre o que ele chama de “ácido universal do Darwinismo”, referindo-se a algo que corrói tudo. Para mim, no entanto, a história e a filosofia da ciência foram o ácido que corroeu a abordagem da ciência feita pelo “positivismo científico” que encontramos em Dawkins e outros” (2013, p. 147). Foi quando ele compreendeu que as razões para o alegado conflito entre fé e ciência, como proposto por estes e outros autores, eram muito mais filosóficas do que propriamente científicas. Após sua conversão, McGrath teve de lidar com um dilema muito comum aos cristãos que trabalham com as ciências naturais:

“Quando me tornei cristão, tive de passar por um processo de reorganização das ideias, o que foi bastante desafiador e levou um tempo até eu me acostumar. O instinto inicial era não pensar sobre a relação entre ciência e fé. Uma opção recomendada por alguns amigos foi manter as duas coisas separadas em compartimentos estanques. Entretanto, logo percebi que isso seria extremamente estúpido e até perigoso, pois as duas entrariam em tensão, com a fé puxando para um lado e a ciência para o outro, e eu poderia enfrentar sérias dificuldades no futuro” (2013, p. 149).

O ponto levantado por McGrath na entrevista com Bancewicz trouxe à memória as palavras do salmista, “Grandes são as obras do Senhor, dignas de estudo para quem as ama” (Sl 111:2): “Se Deus fez o mundo, estudá-lo poderia de fato me ajudar a conhecer mais sobre Deus ou me fazer  apreciá-lo melhor. Comecei a descobrir que as ciências naturais  tinha ressonância com a minha fé. Para mim, uma das enormes atrações do cristianismo é a sua capacidade de não apenas fazer sentido internamente, mas também de dar sentido às coisas” (2013, p. 150). De forma análoga a C. S. Lewis e sua metáfora do Sol, McGrath entendeu que a fé em Cristo, longe de ser um obstáculo à sua atividade científica, precisamente a reforçava, conferindo-lhe uma visão mais nítida do “quadro todo”:

“[…] a fé, quando adequadamente compreendida, tem a capacidade de iluminar cada aspecto da vida, incluindo a ciência. Nada temos a temer da verdade” (2013, p. 150).


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REFERÊNCIAS

BANCEWICZ, Ruth. O teste da fé: os cientistas também creem. Trad. Guilherme Carvalho. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2013.

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