Artigo de opinião escrito por Hiago de Oliveira Gomes, estudante do Pocket Avançado 2024
Kevin Vanhoozer (2016), em seu livro O drama da doutrina, utiliza a metáfora do teodrama para explicar que a doutrina e a vida da igreja não devem ser vistas separadamente. Considerando as Escrituras como o roteiro de uma peça de teatro, em que a igreja é a companhia de atores, Vanhoozer esclarece que uma vida vivida para a glória de Deus é aquela que se dedica a encenar as Escrituras. No entanto, quando olhamos especificamente para as ciências naturais, encontramos um conflito. Como um cientista poderá se comprometer em encenar o drama da doutrina se não há direções claras sobre isso nas Escrituras?
De fato, a Bíblia não é um manual científico, não podemos lê-la em busca de respostas quanto às leis gravitacionais ou à fisiologia humana. Vanhoozer, no entanto, esclarece que “os cristãos não são chamados a reproduzir cópias exatas das Escrituras” (2016, n.p.), visto que os avanços científicos e tecnológicos nos proporcionam conhecimento inédito que não encontramos no cânon (e.g., engenharia genética, inteligência artificial). Portanto, para encenar o roteiro (Escrituras), duas coisas devem ser consideradas: fidelidade servil e liberdade criativa. Ou seja, devemos ser fiéis ao roteiro canônico, sem estarmos necessariamente presos à representação imutável de conteúdo e forma, mas também devemos viver de maneira criativa, sem exceder ao ponto de as circunstâncias da contemporaneidade estarem acima do cânon.
Ao contrário, surge um dualismo bastante comum na área das ciências naturais: a distinção entre teoria e prática. Apesar de entender que esta dicotomia é equivocada, as consequências de enxergar a realidade sob essa ótica é abrangente, como em subdivisões de áreas de estudo como “física teórica” e “física experimental”, ou mesmo em matrizes curriculares que comumente separam as disciplinas teóricas das laboratoriais.
Vejamos um exemplo simples. Para fazer um bolo, segue-se uma receita, em que os ingredientes são acrescentados, misturados, levados ao forno (na temperatura correta), para que ao final se obtenha um bolo bonito e bem assado. Mas, qual a função de cada ingrediente nesse processo? Se algo der errado na receita, como consertá-la? Como substituir os ingredientes de maneira correta para obter um resultado melhor? Aquele que prepara o bolo apenas seguindo a receita, sem entender a ciência por trás do processo, está limitado à mecanicidade do fazer e jamais será capaz de explorar novos sabores e técnicas (fidelidade sem criatividade). Não adianta, porém, conhecer bem todos os ingredientes e reações, mas tentar preparar um bolo sem saber em que ordem os ingredientes devem ser adicionados, ou em quais quantidades (criatividade sem fidelidade).
Ademais, devemos considerar que a ciência não opera na esfera da neutralidade e o trabalho intelectual não pode ser definido como algo frio e objetivo. As Escrituras apontam que “os céus declaram a glória de Deus” (Sl 19.1-2) e que “quando contemplo os céus, obra dos teus dedos […] que é o homem, para que dele te lembres?” (Sl 8.3-4). A natureza revela algo do divino e a partir dela podemos perceber a verdade, a beleza e a bondade de Deus. Assim, a correta interpretação da natureza só é possível quando olhamos a ciência pelo prisma da doutrina da encarnação, pois só a condição simultânea de criatura e habitação divina percebida em Cristo fornece as estruturas necessárias para o desvelar do divino no natural (McGrath, 2019).
Portanto, a resposta para encenar fiel e criativamente o roteiro canônico está na correta compreensão da natureza da matéria-prima das ciências. Um físico não estuda as leis gravitacionais tão somente, mas sim o universo criado ex nihilo. O campo de estudo de um cientista é a Palavra de Deus, relevada por meio da natureza (criação), e do Cristo encarnado. Se encararmos a natureza simplesmente como matéria bruta e sem significado, tendemos a utilizar nossos esforços para dominá-la e impor significados a ela. Todavia, se encaramos a natureza como criação de Deus, nossa perspectiva muda, pois o elemento moral entra em cena. Como consequência, a distância teoria-prática diminui, permitindo a correta encenação das Escrituras no campo das ciências naturais.
Acreditamos que o estudo teológico é fundamental para todo cristão, e não apenas para pastores ou líderes. Afinal, a teologia nos ajuda a seguir a Cristo em todos os aspectos da nossa vida!
No Loop, nossa equipe oferece suporte pedagógico e trilhas de estudo personalizadas para seus interesses, permitindo que você aprofunde seu conhecimento teológico e lide de forma segura com as situações do dia a dia.
Referências
MCGRATH, Alister. Teologia natural: uma nova abordagem. Tradução: Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2019. 368 p.
VANHOOZER, Kevin J. O drama da doutrina: uma abordagem canônica-linguística da teologia cristã. Tradução: Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016. 512 p.