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O ser humano e a fábrica de ismos

Ensaio filosófico escrito por Elysa Alencar Pinto, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2024


Ao analisar o decorrer da história, é notório o quanto o ser humano se move por seus afetos e convicções, ou seja, por aquilo que o indivíduo possui aceitação ou aversão. Também passamos anos de nossa vida acadêmica estudando os movimentos artísticos e intelectuais, resultados de ideologias de cada época, como o Romantismo do século XVIII ou o Naturalismo do século XIX. E não diferente de outras eras, na contemporaneidade, muito se vê do poder de influência que movimentos políticos identitários, como o socialismo ou o feminismo, podem ter sobre as massas. Mas o que há em comum entre esses fenômenos? Os ismos. O fenômeno que chamaremos de A fábrica dos ismos, se dá ao sobrepor um aspecto da realidade sobre os demais, suprimindo a soberania e o tempo-espaço dos demais aspectos que essa realidade possui. Isso se deve ao fato de o ser humano ser, por natureza, um ser religioso, sendo o seu coração o centro da religião (Dooyeweerd, 2017). Logo, o que ele ama recebe a supremacia em sua experiência da realidade.

Dooyeweerd (2017) defende a leitura da realidade por modalidades, classificadas pela maneira a qual a experimentamos. É válido ressaltar que esta não é uma teoria laica, visto que partimos do pressuposto que é antagônico à existência humana a neutralidade de suas convicções pessoais. Os aspectos modais são conceitos firmados por meio da análise (antecipações e retrocipações) das modalidades identificadas, garantindo, assim, que cada um dos quatorze aspectos modais seja único, não sobreposto, insubstituível e soberano em sua esfera, estes se conectando entre si na realidade do ser ou do ente.

Nosso horizonte temporal empírico tem um aspecto numérico, um aspecto espacial, um aspecto de movimento extensivo, um aspecto de energia no qual experimentamos as relações físico-químicas da realidade, um aspecto biótico, ou da vida orgânica, um aspecto de sentimento e sensação, um aspecto lógico, isto é, a forma analítica de distinção em nossa experiência temporal que se localiza no fundamento de todos os nossos conceitos e julgamentos lógicos. Em seguida, há um aspecto histórico, em que experimentamos o modo cultural de desenvolvimento de nossa vida social. Este é seguido pelo aspecto de significação simbólica, localizado no fundamento de todo o fenômeno linguístico empírico. Há ainda o aspecto de intercurso social, com suas regras de cortesia, polidez, boa postura, moda, e assim por diante. Este modo experiencial é seguido pelos aspectos econômico, estético, jurídico, moral e, finalmente, pelo aspecto da fé ou crença (DOOYEWEERD, 2017, p. 41).

O que acontece é que para manter o equilíbrio entre os aspectos, é necessário que o ser tenha o senhorio de Deus como prumo da realidade. O nosso coração deve estar conectado ao Criador para podermos entender sua criação. Poderíamos discorrer aqui sobre a aplicabilidade da metodologia (muito coerente de Herman Dooyeweerd), mas sem o correto amor, não será possível. Possuímos a tendência apóstata de (falsamente) emancipar as esferas da sociedade, antes subordinadas ao Senhor, subordinando-as às nossas paixões, realizando reducionismos e absolutizações de um modo da realidade sobre os demais.

De todo modo, vamos buscar aplicar os aspectos modais, levando em consideração a realidade de um buquê de rosas-vermelhas. De forma ingênua, cada leitor poderá levantar seus conceitos sobre o buquê, se este é bonito, o que ele significa, seu valor financeiro, o impacto ambiental que o cultivo de rosas causa, etc. Utilizando a metodologia de Dooyeweerd, este buquê possui núcleo modal biótico (significado especial e irredutível) por ser um ser vivo, ocupando o aspecto quantitativo, por ser formado por um conjunto de flores, com função simbólica por comunicar algo belo (aspecto estético), de grande valor e impacto econômico (aspecto econômico), que possui significado devido a uma tradição (aspecto histórico). 

Estes aspectos foram classificados desta forma, pressupondo que o buquê de rosas-vermelhas faz parte da criação divina. Contudo, imaginemos o cenário onde o aspecto modal econômico seja sobreposto aos demais. A Fábrica dos ismos estaria a todo vapor em subjugar toda a realidade do buquê de rosas-vermelhas ao consumismo. Em outro cenário, poderia haver a imposição do aspecto estético e ser considerado como belo somente rosas-vermelhas, surgindo o rosicultismo (movimento de tendência, fictício de cultivo em alta escala de rosas) ou uma interpretação identitária da realidade, sendo as rosas-vermelhas aquilo que determina quem o sujeito é, sendo posto como núcleo modal o aspecto lógico, levantando assim uma bandeira pelos direitos igualitários ou liberdade de expressão e a não objetificação das rosas-vermelhas, tendo assim, o movimento rosicismo.

A Fábrica dos ismos é a representação da cegueira crítica do dogma apóstata e dos “motivos suprateóricos mascarados pela pretensa autonomia do pensamento filosófico” (DOOYEWEERD, 2017, p. 53), pois tais ismos não são viáveis na perspectiva puramente teórica, assim como, na prática, pois não apresentam interrelações: 

É verdade que todos os aspectos se relacionam quando estamos tendo uma experiência ordinária, mas o ponto fundamental é que “os vários aspectos da realidade, no entanto, não podem ser reduzidos uns aos outros em sua relação mútua” (p. 58).  […] Para compreender a criação de Deus, o homem não pode absolutizar um de seus aspectos ou esferas. Não se pode compreender a realidade somente pelo seu viés histórico ou lógico. Embora cada um desses aspectos possua uma série de leis internas e uma soberania própria, todas as perspectivas da realidade manifestam-se de forma concreta e interligada. Aquele que deseja compreender melhor a criação, deve se esforçar por adquirir uma ampla visão de todas as esferas e de suas ligações analógicas (que Dooyeweerd chama de antecipações e retrocipações) (BRAZ, 2023). 

Podemos concluir que, ao absolutizar qualquer aspecto modal, nos afastamos da harmônica e complexa realidade, pondo em atividade a Fábrica dos ismos e, como resultado, nos afastamos da realidade criacional e do próprio Deus, firmando a fé (inerente ao ser) em ídolos criados por nossas próprias convicções. 


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Referências Bibliográficas 

BRAZ, Erica Campos Vieira. Resenha crítica: Raízes da cultura ocidental. Disponível em: <https://theinvisiblecollege.com.br/resenha-critica-raizes-da-cultura-ocidental/>. Acessado em 30/12/24.

DOOYEWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental: Estudo sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Tradução de Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim de Souza. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2017. 276 p.