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Quando a razão falha: a filosofia hebraica como alternativa às tensões entre a modernidade e a pós-modernidade

Ensaio escrito por Lucas Macedo, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2024


Mundos em tensão

A humanidade sempre foi marcada por tensões geracionais, políticas, filosóficas, religiosas e muitas outras. O Ocidente plural tem se tornado um lugar polifônico, porém, sem harmonia. Na filosofia, apesar de sua diversidade, temos duas raízes que se sobrepõem no debate público. Por um lado, pensadores ligados à modernidade que buscam suspender o self em busca de objetividade e precisão de significados em suas investigações do mundo. Por outro, intelectuais com bases pós-modernas que colocam o sujeito como o centro da análise da realidade, tornando-o responsável pela sua interpretação. Em outras palavras, a realidade é subjetiva, pois sua interpretação muda de acordo com o tempo, cultura e o sujeito que a está observando. 

Sobre isso, o psicólogo e escritor Jordan Peterson argumenta que a reivindicação central do pós-modernismo está correta ao alegar que “há um número infinito de maneiras de interpretar qualquer — mesmo finito — conjunto de fenômenos” (PETERSON, 2020). Nesse sentido, há um dilema para os modernos. Como conciliar uma realidade plural e com significados múltiplos a uma realidade objetiva. Será que há algo objetivo? E se sim, é possível achá-lo? O autor, apesar de apontar o acerto dos pós-modernistas, também mostra o que ele vê como o seu erro. Para ele, apesar de existir uma certa tendência a concluir que nenhuma dessas interpretações deveriam ser privilegiadas sobre nenhuma outra, não significa que existe um grande número de interpretações viáveis do mundo (PETERSON, 2020).

Existe saída para este embate? É possível conciliar uma realidade “concreta” com a subjetividade, sem cair no relativismo? Com o recente interesse nos pensamentos e culturas antigas de fora da Europa, tem se explorado novas bases filosóficas com pressupostos diferentes da era clássica grega. Dentro deste movimento, Dru Johnson, em seu livro Filosofia bíblica (2022), mostra que apesar do senso comum relacionar o cristianismo a uma mistura entre judaísmo e helenismo, esta posição é um erro. O pensamento dos cristãos do primeiro século era estritamente hebreu, mesmo que seus textos fossem escritos em grego. Se Dru está correto, a filosofia hebraica possui respostas e caminhos alternativos à discussão entre modernos e pós-modernos.

Questões sobre autoridade

Apesar de suas diferenças, tanto os modernos quanto os pós-modernos possuem uma única raiz, o humanismo. Ambos colocam o homem como autoridade na interpretação da realidade. Para o primeiro, se nos desassociarmos de nós mesmos, podemos encontrar a verdade com o uso da razão. Neste caso, a autoridade do pensamento se encontra neste ser humano autônomo que usa a razão para observar os fatos apresentados. Todavia, a crítica pós-moderna é de que não existe este ser humano autônomo. Estamos todos sujeitos a pressuposições culturais, étnicas, criação familiar e mais uma série de fatores que nos influencia a ver os eventos de determinada maneira. Como não há objetividade em si mesma, só existe narrativa. Em ambos os casos, o conhecimento é antropocêntrico. Luiz Felipe Pondé em seu livro sobre Dostoiévski, explica a situação da seguinte maneira:

Para Dostoiévski, é muito claro que temos um problema em conhecer a realidade. Para ele, só se conhece a realidade quando se ama. Então, uma leitura de sua obra sem Verkhoviénski, sem Ivan, pode cair na interpretação enganosa de que conhecer é abraçar o objeto. Tal leitura não permite a percepção de sua análise: há esse lado, mas há outro – o caminho radical do relativismo. Em outras palavras, podemos perceber que o ser humano tem dificuldade de conhecimento e permanece nessa dificuldade, num embate com ela. Podemos, também, pular essa dificuldade sem percebermos, por exemplo, que, quando se penetra na ideia de que tudo é simplesmente “uma” leitura, esbarra-se no niilismo. Para sair do relativismo é necessário um critério. Só que ou esse critério é circular e portanto, tem sua validade circunscrita a um contexto, ou é absoluto, o que nos leva a fé no Absoluto (PONDÉ, 2019, p. 241).

Diante disso, a filosofia hebraica possui um critério de autoridade diferente das teses humanistas. Ela é construída com base na revelação e está enraizada na ideia de um mundo criado por um Deus pessoal. Por mais que isto soe ingênuo aos olhos do mundo contemporâneo, essa ideia é central e consciente na filosofia hebraica. Mas ao contrário de ingenuidade, a consciência da revelação e da criação demonstra uma profunda intencionalidade e reconhecimento de seus pressupostos. Por toda a narrativa bíblica notamos esta coesão epistêmica tanto no Antigo quanto no Novo Testamento alicerçadas nestas bases. Dru Johnson nos auxilia a entender essa estrutura em suas distinções apontando que “os relatos da criação hebraica estabelecem uma estrutura metafísica discreta para o cosmo dando primazia às relações pessoais entre Deus e todos os objetos do universo. Deus regula e ordena todos os movimentos e objetos do cosmos” (JOHNSON, 2022, p. 92).

Essa consciência provê o que podemos chamar de direção canonicamente autorizada para lidar com os conflitos e com a interpretação das situações. Essa ideia não anula a subjetividade, contextualidade e nem a temporalidade. Ao contrário, lida com realidades complexas usando como lente a revelação. A filosofia hebraica é transdemográfica. Segundo o teólogo americano:

Por “transdemográfico”, quero dizer que o objetivo do empreendimento filosófico nas Escrituras cristãs visa promover um corpo social discernente com perspectivas diversas, mas mutuamente enriquecedoras da realidade. Nenhum indivíduo pode ser “o filósofo hebraico”. Nem Moisés, nem Jesus se aventuraram em ser o filósofo singular; em vez disso, ambos foram retratados como especialistas em uma comunidade que podiam adequadamente levar outros a ver o que estava lá antes deles (JOHNSON, 2022, p. 142).

Na filosofia hebraica, a sabedoria é submetida ao Criador.

Narrativas vs. a verdade

Outra tensão entre modernos e pós-modernos é entre a verdade e a narrativa. Para os modernos, existe uma relação entre a linguagem e os objetos a qual ela descreve que estes podem ser descobertos a partir da lógica e do pensamento abstrato, alcançando, assim, o axioma correto. A pós-modernidade troca a verdade objetiva pela narrativa. Nela, a linguagem e o objeto nunca se encontram e, por isso, o sujeito é responsável por fazer essa ligação. Na filosofia hebraica, a verdade se encontra enraizada nas narrativas. Segundo Dru Johnson:

Sugiro com Wenham e outros que estas não são meras histórias, seja qual for o gênero em que os coloquemos. São argumentos completos destinados a persuadir o ouvido a confiar ou a reificar as razões de sua confiança no movimento teopolítico do Caminho. No caso do final de João, o narrador chama a atenção para o fato de que o próprio evangelho pretendia participar de uma discussão pixelada. Mais instâncias podem ser adicionadas, mas esta coleção de instâncias em formato narrativo foi feita para persuadir você, ouvinte/leitor (JOHNSON, 2022, p. 170).

A narrativa dentro desta proposta não está ligada ao relativismo, como apontado por Pondé. Ao contrário, a verdade é uma metanarrativa que está ligada à criação, à aliança de Deus com a humanidade e a sua promessa de restauração final. Esta grande história é o centro das Escrituras, de Gênesis a Apocalipse. Portanto, na filosofia hebraica, a narrativa só pode ser verdadeira se ela se encontra em conformidade com a metanarrativa. O autor americano explica que

O fato de as Escrituras cristãs serem estruturadas, a grosso modo, como uma grande narrativa em uma coleção poética corresponde ao modo entrelaçado e à convicção criacionista. Alguns sugerem que somente na Bíblia Hebraica encontramos um esforço intelectual programático sempre autoconsciente de sua história se desenrolar com começo, meio e fim. Essa afirmação de exclusividade pode ser muito forte, mas o entendimento é correto. A história é importante porque os autores bíblicos empregam consistentemente seu trabalho filosófico na história. Isso implica o autor sempre ter consciência do papel do oráculo, lei ou história na metanarrativa, mesmo que você queira conceber toda a coleção de textos como uma obra poética (JOHNSON, 2022, p. 147).

Harmonizando as tensões

Desse modo, a grande falha do pensamento moderno é a sua incapacidade de perceber que a razão é um critério limitado de conhecimento. Por mais que os modernos prefiram o conhecimento abstrato ao narrativo, Dru nos alerta que “a pesquisa sobre a natureza da forma retórica e da argumentação tem mostrado consistentemente que as pessoas treinadas em lógica são muitas vezes incapazes de realizar a operação mais primitiva de modus ponens (ou seja, Se P, então Q) em forma abstrata” (JOHNSON, 2022, p. 175).

Esta ideia está razoavelmente em conformidade com o que Jordan Peterson argumenta em seu livro Mapas do significado (2018). Em sua tese, a filosofia é o final de um processo que se inicia em: exploração criativa; geração de comportamento adaptativo; imitação de comportamento adaptativo; jogo; ritual; drama; narrativa; mitologia; religião e, por fim, filosofia (PETERSON, 2018, p. 137). O ponto em questão é que, para haver abstração filosófica, é necessário que haja narrativa. O método de dedução abstrata só pode ser compreendido quando narrativas reforçam suas ideias. “A narrativa oferece uma estrutura lógica para a miríade de experiência em nossas vidas. Como um silogismo, ela nos dá uma maneira formal de processar a história como sendo considerações sobre a natureza das coisas” (JOHNSON. 2022, p. 172). O teólogo americano aprofunda mais ainda a falha da razão:

Basicamente, não podemos manter em mente todas as premissas ocultas e articuladas em nosso espaço conceitual necessárias simultaneamente para fazer cálculos de argumentos proposicionais formalizados. No entanto, de alguma forma, quando o mesmo argumento é colocado em uma estrutura narrativa, podemos compreendê-lo (JOHNSON, 2022, p. 151).

Não obstante, a narrativa bíblica não cai na armadilha do relativismo. Seus princípios são fundamentados em uma única metanarrativa. Com isso, possuímos uma epistemológica rica para entender a realidade criada. Como Deus é aquele que regula e ordena o cosmos, a realidade possui uma base sólida a ser sustentada, ao mesmo tempo que permite perspectivas diversas, enriquecedoras e plurais dentro dessa grande narrativa. A filosofia hebraica é um campo ainda pouco explorado, porém, muito frutífero. Ela possui o chão que a modernidade procura e a pluralidade que a pós-modernidade reivindica, sem que caia em seus maiores defeitos. Por isso, é uma alternativa viável para trazer harmonia em um mundo polifônico.


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Referência bibliográfica

JOHNSON, Dru. Filosofia bíblica: a origem e os aspectos distintivos da abordagem filosófica hebraica. Tradução Igor Sabino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2022. 400 p.

PETERSON, Jordan. Mapas do significado: a arquitetura da crença. Tradução: Augusto Cesar. São Paulo: É Realizações, 2018. 696 p.

PETERSON, Jordan. What Postmodernism Got Right & How It Fails | Jordan B Peterson. Jordan B Peterson Clips, 2020. 1 vídeo (06:32). Disponível em: What Postmodernism Got Right & How It Fails | Jordan B Peterson

PONDÉ, Luiz Felipe. Crítica e profecia: a filosofia da religião em Dostoiévski. São Paulo: Globo Livros, 2019. 320 p.