A ortodoxologia: adoração em espírito e em verdade

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Deus é espírito, e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.

João 4:24

Em Adoração: prioridade, princípios e práticas, opúsculo que se tornou um clássico da literatura cristã, John Charles Ryle (1816-1900) escreveu aos leitores aquilo que considerava ser um guia de princípios bíblicos para a adoração cristã, centrada em Cristo. A pergunta que moveu a pena daquele piedoso bispo da Igreja da Inglaterra em Liverpool continua tão importante em nossos dias: Como adoramos? “Nem toda adoração religiosa é correta aos olhos de Deus. Creio que para qualquer leitor honesto da Bíblia isto é tão claro como o sol do meio-dia. A Bíblia fala sobre a adoração realizada “em vão”, bem como a adoração verdadeira; sobre o “culto de si mesmo”, bem como sobre a adoração espiritual” (RYLE, 2018, p. 8). Afinal, como adoramos?

Para Ryle, um dos princípios norteadores para a adoração verdadeira é o de que ela deve ser direcionada ao objeto correto (RYLE, 2018, p. 16). A importância deste princípio reside na própria origem do termo adoração. Kevin Vanhoozer, em seu ensaio Adoração junto ao poço, cuja origem foi o sermão por ele ministrado na capela do Trinity Evangelical Divinity School em setembro de 2001, e um dos capítulos que integram sua obra Quadros de uma exposição teológica, esclarece que “a palavra inglesa worship [adoração] procede de um termo do inglês arcaico que se refere a uma pessoa de valor [worth]: vossa worth-ship. O que fazemos então quando adoramos? Reconhecemos e celebramos o valor [worth] de Deus” (VANHOOZER, 2018, p. 115).

Quando o assunto é o modo e a natureza da verdadeira adoração, difícil não vir à nossa memória um dos diálogos mais conhecidos e fascinantes das Escrituras, entre Jesus e a mulher samaritana, no capítulo 4 do evangelho segundo João. Havia um conflito histórico entre os judeus e os samaritanos desde a queda do Reino de Israel (2Rs 17). Uma das principais diferenças e motivo de embate entre eles dizia respeito ao lugar onde deveriam adorar o Deus vivo. Os samaritanos acreditavam que era o monte Gerizim. Já para os judeus este lugar não poderia ser outro a não ser Jerusalém. Isso não foi impedimento para o Senhor conversar com aquela mulher. Quando questionado por ela quanto ao lugar onde deveriam adorar, Ele lhe respondeu:

[…] Mulher, crê-me, a hora vem em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós, os samaritanos, adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. No entanto, vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, pois o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade. (Jo 4:21-24)

Mas o que seria a adoração em espírito e em verdade? Vanhoozer responde essa questão com princípios que merecem nossa atenção. Em primeiro lugar, com isso aprendemos que sinceridade sem conhecimento é adoração equivocada. (VANHOOZER, 2018, p. 119). Duras foram as palavras do Senhor, mas necessárias quando disse à mulher samaritana: Vós adorais o que não conheceis. A adoração não envolve apenas boas intenções. A adoração pressupõe uma resposta adequada à revelação divina:

O que está escrito a respeito dos samaritanos serve, portanto, como exemplo para nós. Que não se diga à igreja que ela teme o Senhor, porém adora outros deuses – ídolos culturais, como dinheiro, carreira, fama, celebridade, saúde, beleza, eficiência – segundo o costume das nações (VANHOOZER, 2018, p. 119).

Em segundo lugar, a natureza da adoração deve governar o modo como adoramos (VANHOOZER, 2018, p. 121). Aqui Vanhoozer se baseia na máxima de Brooke Westcott quando disse que o objeto da adoração determina sua condição. O Deus que fez o homem à sua imagem e semelhança espera que este o adore em conformidade com seu caráter revelado nas Escrituras. “O modo de conhecer e adorar deve se conformar ao objeto”, e não o contrário. A adoração jamais deve ser em conformidade com a imagem e semelhança do homem e seus próprios interesses.

A questão inicial, portanto – Como adoramos? – é de suma importância. Vanhoozer estava certo quando disse que o modo como adoramos molda o modo como cremos: “Se nossa adoração é vazia e superficial, nossa fé também será” (VANHOOZER, 2018, p. 125). Que possamos adorar a Deus como a árvore que produz bons frutos e a casa que é edificada sobre a rocha.

REFERÊNCIAS

Bíblia de Referência Thompson: com versículos em cadeia temática; Antigo e Novo Testamentos. Trad. João Ferreira de Almeida. São Paulo: Editora Vida, 2010.

RYLE, John C. Adoração: prioridade, princípios e prática. Trad. Francisco Wellington Ferreira. São José dos Campos, SP: Fiel, 2018.

VANHOOZER, Kevin J. Quadros de uma exposição teológica: cenas de adoração, testemunho e sabedoria da igreja. Trad. Fabrício Tavares de Moraes. Brasília, DF: Monergismo, 2018.

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