Mais que 3%

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Escrito por Valéria Caixeta Figueiredo, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

Durante a leitura de um livro do filósofo, professor e político neerlandês Roel Kuiper (1962-), uma obra de ficção me vinha à cabeça, de modo insistente, o seriado de ficção distópica, 3%[1].

No livro, Kuiper propõe a partir de uma perspectiva cristã reformacional, uma abordagem sócio-filosófica da sociedade, problematizando o desenraizamento social e o consequente individualismo, como um dos efeitos do processo de globalização. O seriado, por sua vez, tem como mote principal a crítica social, na medida em que foca em questões relativas às rupturas e desigualdades sociais operadas pelo modelo de sistema político/governamental em vigência na ficção.

As duas obras problematizam, portanto, questões relativas a rupturas, desenraizamento e exclusão, que se produzem como efeitos de processos percebidos como desagregadores.

O seriado aposta em utopias e revoluções, como soluções para um mundo socialmente dividido, onde até mesmo laços familiares são fragmentados para a manutenção de um sistema que precisa, e se sustenta, justamente, pela produção de subjetividades individualizadas. O livro, por sua vez, demonstra que em uma sociedade em que se pretenda o bom funcionamento dos agentes entrelaçados no tecido social, utopias ou revoluções não se apresentam como soluções  profícuas, mas sim a produção de certo tipo de capital que possa produzir conexões ao invés de distanciamentos.

Que tipo de capital seria então, potencial e efetivamente capaz de operar certa mudança de paradigma, da desconexão para a conexão social? Seria, o capital tecnológico, apresentado na ficção como o que propicia a construção de uma sociedade “ideal”?[2]

Ao continuarmos em nosso percurso com Kuiper, compreendemos que não, uma vez que, segundo ele demonstra no livro, o tipo de capital necessário à manutenção da conectividade, com vistas ao desenvolvimento de bem estar social e ao bem comum daqueles que formam os entrelaçamentos do tecido social, é o capital moral, “ a capacidade (individual e coletiva) de estar junto ao próximo e ao mundo de uma forma preocupada.” (KUIPER, 2019. p. 24).

Kuiper, desse modo, não nos apresenta heróis sociais salvadores, ou ideologias capazes de promover essa transformação rumo à conectividade em uma sociedade contemporânea cindida. O que ele demonstra é um paradigma baseado nas relações comunitárias pactualmente entrelaçadas da Trindade, em contrapartida ao modelo do contrato social.[3]

Desse modo a partir de então, nos dedicaremos a pensar sobre esse capital tão profundamente necessário à manutenção da conectividade do tecido social, mas ao mesmo tempo, tão negligenciado pelo modo de produção no contemporâneo globalizado.

3% E O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE SUBJETIVIDADE INDIVIDUALISTA

O seriado se passa em uma região fictícia denominada Amazônia Subequatorial, dividida geográfica e socialmente entre o Continente e o Maralto, uma ilha equipada com tecnologia de ponta, para onde, a cada ano, se dirigem os jovens que completam vinte anos de idade, e que foram aprovados em uma seleção. A partir de então esses jovens passam a desfrutar de diversos benefícios que não estão disponíveis à população do Continente.

A seleção se dá por meio de um “Processo”, no qual somente 3% dos jovens participantes são aprovados. A maioria da população da Amazônia Subequatorial, portanto, vive no Continente, em condições socialmente precárias, o que faz com que a perspectiva de condições melhores de vida se dê exclusivamente por intermédio da ida para o Maralto, acabando por incentivar o individualismo, dado que as pessoas se percebem como competidores no Processo.

Os 3% que chegam ao Maralto, além de passarem por um processo de desenraizamento, ao deixarem suas famílias no Continente, são biologicamente esterilizados, reforçando a ideia de benefício individual como o bem mais importante a que se possa almejar, em detrimento da manutenção de laços sociais coletivos- como os familiares, por exemplo- uma vez que, apesar do Maralto ser uma sociedade, seu funcionamento é baseado nessa percepção de bem estar individual, e todas as práticas ali desenvolvidas são pensadas para a manutenção do sistema.

Em meio a essa realidade dividida emerge um movimento subversivo de oposição a esse estado de coisas: a “Causa”, que tem como objetivo acabar com o Processo, por entender que o sistema que os obriga a se perceberem como competidores, opera pela opressão e não pela justiça. A Causa procura demonstrar que, ainda que seja percebido por muitos como uma oportunidade, o Processo, na verdade, é um instrumento do sistema de governo do Maralto, que mantém a pobreza e a exclusão da população do Continente.

Com uma visão utópica de uma possível sociedade sem classes, supostamente viabilizada por meio da aquisição da tecnologia disponível no Maralto, os membros da Causa, investem no envio de infiltrados para o processo, visando o desmantelamento desse sistema. Ocorre que, uma das pessoas infiltradas, ao obter o acesso à tecnologia do Maralto, ao invés de disponibilizá-la para o Continente, a utiliza na criação de um novo espaço, construído entre o Continente e o Maralto: a Concha. Mesmo funcionando com tecnologia vinda do Maralto, a Concha se mostra insustentável em sua proposta de receber as pessoas do Continente, e diante de tal dificuldade, repete-se, nesse intermédio entre o Continente e o Maralto, o modelo conhecido de seleção, instaurando-se, ali também, um Processo.

A partir de então, o que se percebe é o fim de um projeto utópico em uma sociedade formada a partir de uma cultura que favorece o desenraizamento, as rupturas sociais e os individualismos.

O que pretendemos demonstrar com essa narrativa a respeito da ficção, é o funcionamento de um sistema que opera pela captura dos modos de ser e estar das pessoas, produzindo rupturas no tecido social, operadas por práticas que promovam o desenraizamento dos indivíduos e promovendo um aumento da produção da subjetividade individualista, além de um modo de funcionar que coloca a “esperança” em projetos utópicos de produção de uma realidade futura ideal, em detrimento do fortalecimento de práticas relacionais que levem ao cultivo do capital moral, como condição de possibilidade para o estabelecimento de conexões sociais, no cotidiano do tempo presente, “nos contextos sociais concretos. Ali, onde as pessoas assumem a preocupação umas com as outras.”(KUIPER, 2019, p. 147).

Todavia, para além de produções distópicas de ficção, que abordem contextos de precariedade de capital moral, o processo de globalização, também produz condições favoráveis ao apagamento das condições de possibilidade para o cultivo do capital moral, conforme veremos a seguir.

O MATERIALISMO INDIVIDUALIZADO E O TECIDO SOCIAL RASGADO

Segundo Kuiper, a sociedade atual passa por um processo de globalização, que produz um ambiente de desenraizamento tal, que acarreta em desprendimento e desconexão nos diversos laços sociais comunitários, onde cada um, sendo o centro de “suas próprias configurações sociais que não são mais vinculadas localmente” (…) [desenvolvem] um materialismo focado em si mesmo.” (KUIPER, 2019, p.39). Por conta dessa desconexão, o que se observa é a precariedade de cultivo de capital moral na sociedade contemporânea, e a ruptura do tecido social.[5] 

O tecido social por sua vez, possui agentes (públicos e privados)[4], os quais possuem responsabilidades éticas e morais que apontam para o desenvolvimento de capital humano (conhecimento e habilidades). Esse desenvolvimento depende de uma boa conectividade entre esses agentes, porém, quando esta conectividade é rompida, e – na medida em que se utiliza a imagem de um tecido – é dito que o mesmo foi retalhado, rasgado, cindido. Esse é um dos muitos efeitos da globalização no modo de produção de subjetividade nas sociedades contemporâneas, que colabora para a produção de diversas fragmentações, e diversos tipos de exclusão social.

Por outro lado, quando, em uma sociedade há cultivo[6] de capital moral, por intermédio das mais diversas práticas sociais, essa fragmentação pode ser superada, gerando o contato necessário entre os indivíduos, para a promoção de um estado de bem comum. Segundo Kuiper, “são as práticas que nos chamam à ordem, mais fortemente dentro de relações pactuais, nas quais preocupação com o outro e a preocupação com o mundo acabam nos tocando.” (KUIPER, 2019, p.245).

Sabendo-se que esse “bem comum” não é um lugar onde a sociedade deva “chegar” (como o fictício Maralto), mas o resultado da interação dinâmica entre essas diversas práticas sociais, operadas por diversos agentes, e que estas se desenvolvem no aqui e agora, no cotidiano – que é quando se dá o entrelaçamento dos “fios” para a construção do tecido social[7], compreendemos que um projeto político que funcione para o bem estar coletivo, deve contemplar a pluralidade desses agentes, que vivem suas relações e desenvolvem essas práticas no tempo presente, que é onde elas realmente se dão. Assim, entendemos que o bem comum é “ o resultado dinâmico do trabalho de todo mundo visando promover o bem-estar público. É o próprio tecido ao qual cada um adiciona um tanto de fios.” (Kuiper, 2019. p.245).

FINALIZANDO… CONVOCADOS AO ABRAÇO, UMA SOLUÇÃO POSSÍVEL: ENTRELAÇAMENTO

  “O cotidiano, quem é que olha para ele? Mas a existência de uma sociedade depende do cotidiano, a ‘simbiose’ de cada dia. A capacidade de estabelecer conexões e nelas ter preocupações com o outro (…) se comprova nos comportamentos sociais cotidianos concretos. Alhear-se dessas relações – em nome de utopia ou autonomia – faz a sociedade perder sua coesão, sua estabilidade e resiliência.” ( KUIPER, 2019, p. 14)

Sabendo que o capital moral se relaciona  ao nível de comprometimento dos indivíduos em uma sociedade, à capacidade de cooperação e colaboração que apontem para o bem comum, e a capacidade que cada um desses indivíduos tem de preocupar-se com o outro, na medida em que “O capital moral é um patrimônio de pessoas que primariamente aprendem em relações pactuais o que é adotar uma atitude fundamental preocupada em relação ao que se apresenta na realidade cotidiana” (KUIPER, 2019, p.148), e não em projeções utópicas, ou mesmo projetos sociais alavancados por ideologias salvacionistas (como a Causa), pensamos que é possível que se ofereça “oposição contra a desumanização moderna”, na medida em que se possa “Pedir atenção para o capital moral (…)  [como] um protesto contra a desumanização da cultura.” (KUIPER, 2019, p.290).

Em alinhamento ao que temos observado até aqui, compreendemos que essa “oposição contra a desumanização moderna” não se verifica em modelos contratuais, mas em uma comunidade pactual, que contemple o outro de maneira inclusiva. Aqui, paradigmaticamente nos remetemos à Trindade.

A humanidade possui a imagem e a semelhança dessa comunidade pactual, o que faz com que  toda a ideia de autonomia humana (que consubstancia a individualidade fomentadora de desconexão) caia por terra, uma vez que, o ser humano, criado à imagem e semelhança de uma comunidade relacional, é originalmente relacional e, por isso precisa estabelecer diálogos com o outro, não somente de modo contratual, com base em acordos e cláusulas que podem ser esquecidas, reformuladas, ou mesmo rompidas, mas de modo pactual, a fim de que se estabeleça de fato um tipo de comunhão moralmente entrelaçada. Assim, quando pensamos a esse respeito, “A primeira semelhança (…) é o compromisso amoroso para com o outro. (…) As três pessoas são esse um Deus de amor. (…) Esse amor (…) é a base de uma segunda característica: a fidelidade relacional como expressão da imagem de Deus. Também aqui pode-se novamente mencionar a fidelidade relacional na Trindade.” (KUIPER, 2019, p. 138, 139).

Desse modo, compreendemos que a humanidade traz em si mesma a possibilidade de se preocupar com o mundo e com as pessoas, e quando ela “abraça” essa vocação, colaborando no cultivo de capital moral, segundo o paradigma trinitário de comunidade pactual, reflete a imagem de Deus, enquanto também “abraça” o outro, em um antídoto contra toda forma de desconexão e exclusão. [8]

Assim, por intermédio de uma atividade dialógica, que é insuflada por uma noção de bem estar público, o capital moral circula na sociedade, em relações pactuais, de modo a que as pessoas se dediquem de maneira altruísta pelo bem comum. Somos, de fato, convocados a isso, seja por intermédio das instituições públicas ou privadas, como organizações religiosas. O interessante, porém, é perceber que a fonte primária desta “convocação” não se encontra nesses agentes, mas em Deus, que ao mesmo tempo em que convoca, é também o doador de todo o bem, que possibilita o cultivo do capital moral que circula na sociedade, por meio das diversas práticas sociais.

Que possamos (enquanto vivemos cada um de nossos dias, na realidade do aqui e agora, que é onde/quando se dão os entrelaçamentos do tecido social) responder à essa convocação, lançando mão de práticas afirmativas que se atualizem na envolvente “teologia do abraço”. E que nesse processo, sejamos mais que 3%.


NOTAS

[1] 3% é uma série brasileira de ficção científica, produzida pela Netflix (empresa americana, provedora de filmes e séries de televisão via streaming), criada por Pedro Aguilera e dirigida por César Charlone, Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema. Com a utilização de uma narrativa distópica, a série pretende demonstrar a polarização, operada por intermédio do desenvolvimento tecnológico, que divide a sociedade entre os que têm acesso aos benefícios desse desenvolvimento e àqueles que, sem condições de acessibilidade a  esses mesmos benefícios, permanecem vivendo em um contexto de exclusões tecnológicas, com desdobramentos econômico-sociais. Conforme <https://pt.wikipedia.org/wiki/3%25 e https://www.netflix.com/br/title/80074220>

[2] A tecnologia é apresentada no seriado como condição de possibilidade de criação de um ambiente asséptico (livre das mazelas do Continente), sendo a representação do  “lugar” ideal aonde todos querem “chegar”. A respeito da desconstrução da ideia de “um lugar onde se queira chegar”, abordaremos ainda nesse artigo, a questão relacional entre diversas práticas sociais que se integram para a construção desse conceito, em uma perspectiva dinâmica. 

[3] O termo “contrato social” se aplica a um compromisso assumido entre as pessoas e o Estado, para garantia de sobrevivência. Os filósofos, chamados contratualistas, Thomas Hobbes (inglês, 1588-1679), John Locke (inglês, 1632-1704) e Jean-Jacques Rousseau (suíço, 1712-1778), defendiam a necessidade de um contrato entre homem e Estado como garantidor da sobrevivência. Foi Rousseau  quem escreveu, em 1762,  “Do Contrato Social ou Princípios do Direito Político”. Diante do término do feudalismo, dos movimentos pela extinção da monarquia absoluta e da contestação do poder temporal da Igreja, entendeu-se que seria necessário que houvesse um aparato que garantisse as liberdades civis, de modo que as pessoas firmariam um acordo, denominado “Contrato Social”, com essa instituição garantidora, o Estado. Segundo Kuiper, “Tanto Hobbes quanto, Locke partem de uma sociedade em que as pessoas não confiam mais umas nas outras. (…) Por meio do contrato, tenta-se criar uma nova situação, uma situação de confiança institucional para compensar a perda da confiança social. (…) O contrato social que Jean Jacques Rousseau imaginara foi pensado para dar uma nova existência moral às pessoas depois que elas foram transformadas em cidadãos pelo contrato” (KUIPER, 2019, p.172 e 173). O capítulo sete do livro em questão empreende a diferença das dinâmicas relacionais entre os indivíduos em situações de pacto e contrato.

[4] Aqui gostaríamos e pontuar o pensamento de Johannes Althusius (1557-1638), filósofo e teólogo calvinista, que propõe em seu pensamento que a sociedade funciona de modo simbiótico pactual. Para ele a sociedade formava um conjunto coerente entre associações estatais e sociais, como um conjunto de alianças entrelaçadas, formando assim uma comunidade simbiótica, com funcionamento voltado a serviço do bem comum dos cidadãos. O papel do Estado seria oferecer as condições de possibilidade para o bom funcionamento dessa sociedade. Althusius se opunha ao pensamento utópico, que idealizava soluções para uma realidade futura, em detrimento de condutas assertivas no presente. Apesar de compreender que vivemos em um mundo imperfeito, ele enfatizava a necessidade de que fosse organizado um bom ordenamento social, a serviço do ser humano.

[5] O que chamamos aqui de, “exclusão social”, é uma complexidade contextual/situacional, que leva em conta aspectos sociais (discriminação por cor, gênero e idade), econômicos (dificuldade de acesso ao mercado formal de trabalho ou nível salarial baixo),dificuldades de mobilidade (precariedade dos transportes públicos), ou ainda dificuldade  de acesso à educação e saúde, dentre outros.

[6] Para que haja o “cultivo”, ele precisa ser formado. Kuiper se utiliza do filósofo reformacional holandês, Herman Dooyeweerd (1894-1977), para refletir a esse respeito dessa formação, que se dá a partir de estruturas sociais naturais, como a família, e estruturas sociais organizadas, como agremiações esportivas. Segundo Kuiper “…o capital moral primário da sociedade é formado pela sociedade nas estruturas sociais mais duradouras e inclusivas. Elas são as responsáveis por laços com a coesão mais forte e têm dentro de si capacidade de gerar determinadas atitudes fundamentais morais.” (KUIPER, 2019, p.165).

[7]  “Tecido social” é um termo que alude aos aspectos sociais de uma determinada sociedade, contemplando os indivíduos que formam o coletivo social. A imagem do “tecido” propicia a que sejam percebidas as diferentes maneiras pelas quais esses indivíduos se entrelaçam, simbioticamente, na sociedade, seja por meio de relações interindividuais, associações ou instituições.

[8] A respeito da Teologia do abraço”, de Miroslav Volf, ver KUIPER, 2019, p. 140.


BIBLIOGRAFIA

KUIPER, Roel. Capital Moral: o poder de conexão da sociedade. Tradução de Francis Petra Janssen – Brasília, DF, Monergismo, 2019.

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