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A revelação natural e as provas da existência divina

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Escrito por Lucas Tomazi Durand, estudante do Programa de Tutoria – Turma Essencial 2021

A afirmação inicial do Salmo 19 é de que todo o universo criado está, constantemente, revelando a glória de Deus e rendendo louvores a Ele.

“Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite. Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas a sua voz ressoa por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo.” (Salmos 19:1-4 – NVI)

O padre jesuíta e poeta Gerard Manley Hopkins, em um sermão pregado sobre essa passagem, afirmou que os céus, de fato, estão reiteradamente glorificando a Deus. No entanto, eles não têm consciência disso, sendo necessário um trabalho de interpretação dessa declaração. Tal capacidade interpretativa é inerente ao ser humano, de modo que ele pode compreender da natureza que há um Deus, e a partir disso glorificá-lo [1].

Partindo da observação e interpretação do mundo natural, diversos argumentos foram desenvolvidos para provar a existência divina. O argumento kalam, por exemplo, localiza Deus como causa do universo (já que tudo o que existe precisa de uma causa primeira) [2]. Em sua Suma Teológica, Tomás de Aquino elaborou as Cinco Vias – cinco linhas de argumentação em apoio da existência divina, baseadas em aspectos do mundo natural [3]. Em 1802, William Paley escreveu sua Teologia Natural, em que argumentava que todo design observado no mundo indica a existência de um projetista [4].

No entanto, esses argumentos nunca são suficientes para provar que Deus existe. Muitos descrentes, quando expostos a alguns deles, conseguem encontrar respostas que os desqualificam. Além disso, o desenvolvimento científico, principalmente dos últimos duzentos anos, busca encontrar explicações para o mundo sem que algum deus seja a resposta.

Hopkins atribui esses fatos à inclinação do ser humano. Para o poeta, o homem encontra-se tão preso às suas tarefas cotidianas que sua observação do mundo é deficiente, de modo que ele se encontra cego à dimensão transcendente da natureza [1]. O teólogo Agostinho de Hipona foi mais profundo que Hopkins em sua análise do homem. Para ele, o coração do ser humano precisa ser curado de sua cegueira, a fim de que o homem consiga perceber a Deus a partir da observação do mundo natural [5].

O apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos, declara que, embora os atributos divinos possam ser vistos por meio das coisas criadas, os homens suprimem essa verdade (Romanos 1:18-21). Essa supressão é o que Agostinho chama de cegueira do coração, uma doença que o incapacita a ser levado ao conhecimento de Deus. Como essa doença atua no coração humano, o âmago religioso do homem, que controla todo seu ser por ditar suas crenças e desejos [6], nenhum argumento lógico é eficaz para convencê-lo sozinho.

O apologeta cristão Cornelius Van Til aprofunda a discussão sobre a validade da natureza como prova da existência de Deus. O autor compreende que a revelação natural possui um caráter pactual (semelhante à revelação especial), e seu objetivo é o de diferenciar os homens que são participantes do pacto e os que estão fora dele. Assim, os incrédulos podem perceber da natureza apenas a ira de Deus anunciada contra eles, enquanto os crédulos percebem da natureza bondade, verdade e beleza, reflexos do Criador [7].

Por esse motivo, Van Til entende que a natureza não pode ser utilizada como prova de que Deus existe, pois os descrentes sempre olharão para ela a partir de sua descrença, e a resposta que a natureza lhes dará será de apontar para eles a futura condenação – não a misericórdia divina. Para ele, a natureza somente revela a Deus quando vista a partir da revelação da Bíblia cristã (a revelação especial dada por Deus). Em suas palavras, “as duas formas de revelação devem, portanto, ser vistas como pressupondo e complementando-se uma à outra” [7].

O teólogo e doutor em biofísica molecular Alister McGrath, em sua obra Teologia Natural, analisou o uso do mundo natural feito por Jesus em seu ensino e defendeu a mesma tese de Van Til: a natureza possui um caráter de diferenciação. Segundo o autor, as parábolas que Jesus contava utilizavam elementos da ordem criada (como sementes, pássaros e ovelhas) para apontar a uma verdade transcendente – no caso, revelar verdades sobre Deus, sobre quem Cristo é e sobre seu reino. No entanto, quando Jesus foi questionado sobre o uso de parábolas para ensinar, afirmou que o fazia para que seus discípulos compreendessem os mistérios do reino de Deus, mas os de fora (de fora do pacto) vissem e não percebessem, ouvissem mas não entendessem (Marcos 4: 11, 12) [8].

O que Jesus está afirmando aqui é justamente que o uso da revelação natural é útil para revelar verdades aos que podem interpretá-las corretamente (à luz da revelação especial), mas é insuficiente para convencer os incrédulos, afinal, eles não conseguem perceber a verdade por trás da natureza. A revelação natural “pode de fato nos falar sobre Deus – mas somente se for vista sob determinada perspectiva, que não é autoevidente” [9].

Assim, McGrath conclui que a revelação natural:

“não pode ser considerada um meio de ‘provar’ a existência de Deus. Em vez disso, ela insiste que a existência de um Deus como aquele que é proposto pela tradição cristã dá sentido ao que se pode observar do mundo. Essa abordagem sustenta que existe um acervo de considerações que, embora não constituam prova lógica, ao menos condizem com a existência de um Deus criador.” [10]

Não se pode utilizar a natureza para provar que Deus existe, pois ela não trabalha para essa finalidade. Tudo o que nela é observado ganha sentido a partir da interpretação cristã do mundo, porém, não conduz até uma interpretação cristã. A única coisa que conduz o descrente para essa interpretação é a Bíblia, pelo agir do Espírito Santo. Para o apologeta John Frame, essa é a coisa mais persuasiva a qual o descrente poderá ser exposto [11], enquanto para Van Til é a única forma de convencer o descrente [12].

Esse fato não impossibilita o apologeta de utilizar a natureza em sua discussão com o descrente. Entretanto, mais importante do que memorizar os argumentos teleológico, cosmológico e ontológico, mais relevante do que compreender as Cinco Vias de Aquino ou as discussões da teologia natural de Paley, é o evangelho. O apologeta deve conhecer o evangelho, porque é ele quem fornece luz para a revelação natural. A argumentação somente fará sentido se o Espírito Santo lançar luz sobre o coração pecador, e por meio do Evangelho trazer vida onde há morte.

A revelação natural não é capaz de provar a existência de Deus. Somente Deus pode “provar” sua própria existência, por meio da fé, revelando-se ao homem.


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REFERÊNCIAS

[1] MCGRATH, Alister E. Teologia natural: Uma nova abordagem. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2019, p. 138, 139.

[2] FRAME, John. Apologética para a glória de Deus: Uma Introdução. Tradução de Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 89.

[3] MCGRATH, Alister E. Ciência e religião: Fundamentos para o diálogo. Tradução de Roberto Covolan. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020, p. 160.

[4] MCGRATH, Alister E. Teologia natural: Uma nova abordagem. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2019, p. 26.

[5] MCGRATH, Alister E. Teologia natural: Uma nova abordagem. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2019, p. 194.

[6] GOHEEN, Michael W., BARTHOLOMEW, Craig G. Introdução à cosmovisão cristã: vivendo na intersecção entre a visão bíblica e a contemporânea. Tradução de Marcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 53.

[7] VAN TIL, Cornelius. Apologética Cristã. Tradução de Davi Charles Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 55, 56.

[8] MCGRATH, Alister E. Teologia natural: Uma nova abordagem. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2019, p. 123.

[9] MCGRATH, Alister E. Teologia natural: Uma nova abordagem. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2019, p. 126.

[10] MCGRATH, Alister E. Teologia natural: Uma nova abordagem. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2019, p. 226.

[11] FRAME, John. Apologética para a glória de Deus: Uma Introdução. Tradução de Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 58.

[12] VAN TIL, Cornelius. Apologética Cristã. Tradução de Davi Charles Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 64.