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A verdade e a felicidade em Santo Agostinho

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Escrito por Irving A. Damasceno, estudante do Programa de Tutoria Filosófica – Turma 2021

INTRODUÇÃO

A busca da felicidade é algo universal. Esse é um dos temas da vida inteira de Santo Agostinho. O tópico é recorrente na maioria dos seus escritos – em variados gêneros literários. Em sua obra autobiográfica e pastoral, Confissões, ele diz que “a felicidade em si não é grega nem latina, mas os gregos, os latinos e os homens de todas as línguas querem alcançá-la” (X. 20. 29). Um dos pontos-chave, entretanto, da argumentação agostiniana é que a felicidade é uma recordação. Mergulhado na segunda navegação platônica, ele diz que, se em nossa memória não se conservasse a realidade do que esta palavra significa, não poderíamos querer ser felizes (X. 21. 30). É claro que, por sua bagagem cristã, o filósofo patrístico em questão associa a felicidade com o conhecimento de Deus, contudo, ele vai além e associa também com o conhecer a verdade. Sem a verdade, que é o conhecimento de Deus, é impossível ser feliz. O objetivo desse ensaio é analisar, tanto a “felicidade como recordação”, quanto a associação que Agostinho faz da felicidade-verdade-Deus, e como isso impacta nossa contínua busca pela plena satisfação.

A REMINISCÊNCIA AGOSTINIANA-PLATÔNICA

No já mencionado Confissões, Santo Agostinho revela que, para buscar algo, é necessário conhecê-lo previamente. Não tenho como buscar Cartago se não a conheço. Contudo, a busca da felicidade não é como a busca de uma cidade, é algo mais profundo, pois não quero possuir a cidade, mas a felicidade, sim. Afinal, “a noção de felicidade leva, não só a amá-la, mas a querer possuí-la para ser feliz” (X 21. 31). Agostinho questiona se seria por meio dos sentidos que chegamos à felicidade. De fato, nunca conhecemos a felicidade por nossos sentidos (olfato, paladar, visão, tato, audição), mas reconhecemos na alma quando a sentimos. Para o autor, isso só tem uma resposta: conhecemos a felicidade com precisão, anteriormente, para podermos senti-la e desejá-la tanto agora. Não importa quais decisões você tome na vida, você tomá-las-á com a felicidade em mente.

Essa argumentação agostiniana é muito característica da reminiscência platônica. Platão, no Mênon, procurou mostrar que nosso conhecimento geométrico deve datar de uma vida anterior à concepção. Agostinho, em seus escritos mais maduros, nega que conheçamos a essência das coisas pelo sentido, mas também nega a existência prévia da alma para conhecer as coisas antes – o que ele faz é apontar, em Da Trindade, a existência de “realidades inteligíveis” (algo bem platônico). Essas são imutáveis e superiores à mente humana, mas de algum modo ligadas à nossa mente, afinal, conseguimos empregá-las como padrões para a avaliação das coisas corpóreas. Nesse mesmo livro, Agostinho trata do “lembrar” como o “ver interior” e ele frisa bastante a natureza voluntária dessa atividade: ou seja, à vontade é facultada a escolha de concentrar-se no ver interior ou no ver exterior1. O ponto chave é que, em momentos de tristeza, conseguimos evocar a alegria em nossa mente por meio de nossa visão interior. Por meio daquilo que já sentimos e que já usufruímos conseguimos buscar lembranças e moldar a nossa compreensão.

A FELICIDADE VERDADEIRA

Entretanto, Agostinho não fica a divagar sobre como encontrar a felicidade. Ele é muito claro e direto, no Livro X das Confissões, que:

Longe de mim, Senhor, longe do coração do teu servo, que se confessa diante de ti, longe o pensamento de que uma alegria qualquer possa torná-lo feliz. Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que te servem por puro amor: essa alegria és tu mesmo. E esta é a felicidade: alegrar-nos em ti, de ti e por ti. É esta a felicidade, e não outra. Quem acredita que exista outra felicidade, persegue uma alegria que não é a verdadeira. Contudo, a sua vontade não se afasta de certa imagem de alegria. (Confissões, X, 22. 32)

Para o autor, a felicidade e a verdade são “quase-ideias” que dão coerência a toda a nossa vida de maneiras que não fogem do nosso controle, que não são inteiramente conscientes. Todos os nossos pensamentos, desejos e ações são estruturados por esses dois instintos primais e/ou é expressão deles. Quando juntos, quando encontramos a “alegria da verdade”, a presença de Deus se torna tangível.

A ética, diz Agostinho, é a investigação do bem supremo. É aquilo que proporciona o padrão para todas as nossas ações. É o que é buscado como um fim, e não como um meio. O que ele faz, que o difere de seus predecessores, é justamente afirmar que a felicidade é verdadeiramente possível somente na presença do Deus verdadeiro. Agostinho difere uma alegria da felicidade plena.

E, com base nesse raciocínio, ele traz uma contra argumentação à sua premissa inicial de que “todos querem ser felizes”. Ele diz que não podemos dizer com segurança que todos querem ser felizes, pois aqueles que não querem alegrar-se em Deus, que é a única felicidade, em última instância, não querem ser felizes. Ou então, até querem, mas não conseguem agir em prol da felicidade “porque a carne tem aspirações contrárias ao Espírito e Espírito contrárias à carne” (X. 23. 33). Observamos isso em nosso cotidiano: vivemos num mundo que prega felicidade como o alvo da vida, mas que toma atitudes que fogem do que é, verdadeiramente, ser feliz. Nunca a sociedade enfatizou tanto a felicidade autocentrada, e nunca, ao mesmo tempo, o número de pessoas com depressão aumentou tanto.

EM QUE CONSISTE A VERDADE?

Agostinho avança seu pensamento e reitera que somente na visão de Deus numa vida após a morte, é possível sermos felizes. E, por isso, ele argumenta claramente que qualquer um que deseje ser feliz, deve ser imortal, mas sem o ciclo de reencarnação, que também traz uma miserabilidade à alma humana. Em Da Trindade, Agostinho mostra que só a fé cristã promete uma felicidade perene, pois “o bem supremo da Cidade de Deus é paz eterna e perfeita, não no nosso trânsito mortal do nascimento à morte, mas em nossa liberdade imortal de toda adversidade” (XIX. 20).

Claramente, Agostinho limita as “boas obras” à “boa fé”. Em Confissões, ele reitera que, assim como todos preferem a felicidade à infelicidade, todos preferem a verdade à falsidade. Felicidade é desfrutar da verdade, o que significa desfrutar de Deus, que é a aletheia (Jo 14.6). Ou seja, quem ama a felicidade, ama também a verdade – assim, fora da verdade é impossível existir a felicidade. E nesse ponto Agostinho traz novamente a ideia da memória. Ele diz que nós não amaríamos a verdade, se dela não tivéssemos alguma noção na memória – por uma ação completamente divina. E das vezes que não nos alegramos nela é porque nos empolgamos demais com outras coisas, que “nos tornam infelizes mais facilmente do que a verdade nos faria felizes, a verdade que tão debilmente nós recordamos” (X. 23. 34). Como disse C. S. Lewis, em O peso de glória, “somos criaturas divididas, correndo atrás de álcool, sexo e ambições; desprezando a alegria infinita que se nos oferece, como uma criança ignorante que prefere continuar fazendo seus bolinhos de areia numa favela, porque não consegue imaginar o que significa um convite para passar as férias na praia”. Ou seja, temos em nossa memória a noção da verdade, mas demandamos mais tempo em coisas que são inverdades, que nos tornam infelizes de forma mais rápida, do que o tempo em que dobramos nossos joelhos à verdade, e experimentamos a real felicidade. Só é possível experimentar a felicidade real quando facilmente trazemos, à memória, a verdade (Lm 3.21-24).

O CONFLITO NATURAL

Espera-se, portanto, que aquele que conhece a verdade (i.e., a felicidade), seja impulsionado a mostrá-la àqueles que ama. No entanto, o que Agostinho observou é que a verdade gera ódio: “o homem que anuncia a verdade em teu nome se torna inimigo daqueles que amam a felicidade, a qual consiste exatamente na alegria oriunda da verdade” (X. 23. 34). A isso, o filósofo atribui a culpa de que aqueles que amam algo distinto da verdade, impõem sobre o amado a condição de verdade – que não passa de um autoengano, afinal, pois essa é uma condição inata e não pode ser atribuída.

Assim, quando a Verdade confronta o que os outros creem ser a verdade, eles passam a ver seu engano e, “como não admitem ser enganados, detestam ser convencidos do seu erro. Assim, odeiam a verdade porque amam aquilo que supõem ser a verdade” (X. 23. 34). Os homens odeiam quando são retirados de sua zona de conforto, como foi tão bem alegorizado por Platão em seu mito da caverna. Eles se iram e tendem a matar o mensageiro. E a verdade, então, se distancia ainda mais deles.

CONCLUSÃO

Fica claro que, para Agostinho, verdade e felicidade são praticamente sinônimos e lidam com a mesma realidade: uma vida voltada para o Deus trino. Uma vida fora dessa realidade, é uma vida de autoengano, que não experimenta a alegria verdadeira, e vive na falsidade. O homem só “será feliz quando, sem obstáculos nem perturbações, puder gozar daquela única verdade, fonte de tudo que é verdadeiro” (X. 23. 34). O uso da memória, para Agostinho, é um exercício de elevar-se ao interior do conteúdo de nossa consciência – afinal, quando melhor nos conhecemos, mais conhecemos sobre a transcendência de Deus em relação à sua criatura – mas Deus deixou em nós um sinal distintivo de sua presença, correspondendo à sua transcendência, que foi aquela alegria da verdade que não temos como apagar da mente e da memória humana – isso é uma direta conexão com o divino. Para usufruirmos dessa felicidade-verdade, é necessário que a lembrança da verdade esteja sempre de fácil acesso em nossa memória. Nossa visão interior deve buscar a santidade, as verdades da cosmovisão cristã (criação-queda-redenção) e viver com base nesses preceitos. Uma vida vivida em mentiras nunca poderá garantir a felicidade, e foi isso que o Bispo de Hipona quis trazer a nós.

NOTAS

¹ Claro que Agostinho sabia que existem lembranças que fogem do nosso controle: em sonhos ou delírios, imagens podem ser forçadas a si mesmas por alguma força secreta, como gatilhos, que automaticamente puxam memórias indesejadas. 


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, Santo. Patrística – Confissões – Vol. 10. Tradução: Maria Luiza Jardim Amarante. 1. Ed. São Paulo: Paulus Editora, 1997. 

AUDI, Robert. The Cambridge dictionary of philosophy. 3. Ed. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2015.

CLARK, Gordon Haddon. De Tales a Dewey. Tradução: Wadislau Gomes. 1. Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. 

FRAME, John M. A history of western philosophy and theology. 1. Ed. Nova Jersey: P&R Publishing, 2015. 

KENNY, Anthony. Uma nova história da filosofia ocidental – Volume 2: Filosofia medieval. Tradução: Carlos Alberto Bárbaro. 2. Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

LEWIS, C. S. O Peso da Glória. Tradução: Estevan Kirschner. 1. Ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. 

MCGRADE, A. S. (org). Filosofia Medieval. Tradução: André Oídes. 1. Ed. São Paulo: Ideias & Letras, 2008.

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