A virtude dos bons leitores

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Ao alimentar o verdadeiro ilumina-se a consciência; ao fomentar o bem, guia-se o saber.

A. D. Sertillanges

UMA OPORTUNA CONVERSA

Mortimer Adler (1902-2001) costumava dizer que ler um  livro é como conversar. Mas é possível que essa metáfora soe estranha ao leitor deste texto, pois, afinal de contas, você está “apenas lendo” e não conversando pessoalmente com alguém, como num café ou uma reunião de amigos. Essa noção parece pressupor, segundo Adler, uma visão de certo modo imprecisa sobre a própria natureza da arte de ler.

A leitura é, antes de tudo, uma atividade intelectual que envolve o diálogo, uma interação entre leitor e autor. É preciso haver o mínimo de acordo dos termos entre ambos para que a comunicação seja inteligível. Não se trata, portanto, de um exercício passivo, um mero “passar os olhos” sobre o livro, mas de uma oportuna conversa em que o autor procura se comunicar com o leitor.

“Deixe que as páginas toquem os seus dedos”, disse Nathan Wilson, no seu brilhante Notas da xícara maluca (2017, p. 24), um livro aparentemente despretensioso, mas que surpreende o leitor pela viagem que o convida a fazer nas suas 184 páginas restantes.  Para cada capítulo vale uma xícara de café. Um daqueles livros que, conforme dizem alguns, o leitor não pode passar desta vida para a outra sem ler.

Mas pode ser que o leitor simplesmente discorde disso e para ele o livro não seja tão bom assim. Não há nenhum problema nisso. Este é um ponto importante: embora a leitura possa ser descrita como uma conversa, não quer dizer que o leitor concordará em tudo com o autor. É assim em nossos diálogos cotidianos, presenciais, e não poderia ser diferente na leitura de um livro. Podemos, naturalmente, discordar de coisas que lemos.

AS VEREDAS ANTIGAS DA BOA LEITURA

Entretanto, do mesmo modo que “as conversas entre pessoas que se confrontam são proveitosas apenas se levadas a cabo de maneira civilizada” (2010, p. 149), deve haver o que Adler chama de etiqueta intelectual na leitura dos livros. Talvez o leitor já tenha se deparado com uma pessoa rude e mal educada, com a qual é praticamente impossível dialogar. O mesmo pode acontecer na leitura, quando o leitor não concorda com o autor, mas “perde a linha” a ponto de simplesmente não ter mais interesse naquilo que ele tem a dizer.

A discordância deve pressupor o respeito e entendimento daquilo que o autor tinha a comunicar, ou pelo menos uma interpretação honesta dos seus argumentos. O ponto é que o leitor, “se não pode concordar com o autor, ao menos deve ter as bases claras para discordar ou, se for o caso, suspender o julgamento da questão” (2010,  p. 150). Isto é, na acepção de Adler, é preciso dizer com razoável certeza “eu entendo” antes que se possa dizer “concordo” ou “discordo” ou “suspendo o julgamento”.

Em tempos de “cancelamento”, não há muito espaço para uma crítica respeitosa e ao mesmo tempo comprometida com o correto entendimento daquilo que o autor procurou dizer. Alguns leitores têm sido passionais demais e apressados nas suas conclusões. Há uma ética na arte de ler que se estabelece como condição de possibilidade para o alcance da verdade. São as “veredas antigas” da peregrinação intelectual.


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REFERÊNCIAS

ADLER, Mortimer J. Como ler livros: o guia clássico para leitura inteligente. Trad. Edward H. Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010.

WILSON, Nathan D. Notas da xícara maluca. Trad. Josaías Cardoso Ribeiro Júnior. Brasília, DF: Monergismo, 2017.

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