Perspectivas em Cosmovisão: James K. A. Smith e John Frame

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Escrito por Felipe Barnabé Duarte, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

Conceitos sempre são passíveis de discussão. É comum em livros de teologia ou filosofia, encontrarmos definições dos conceitos tratados naquela obra. Mesmo quando não são definidos explicitamente, os autores, geralmente, os utilizam de formas bem específicas. Seja para apoiá-los ou criticá-los.

Não é diferente com o conceito de cosmovisão. Algumas vezes ele é criticado como racionalista, outras como subjetivo. A verdade é que cada autor o utiliza da forma que melhor se enquadra na defesa de sua tese. Muitas vezes utilizando a pior interpretação possível do conceito de seus oponentes para que a sua formulação pareça mais adequada. E, nem sempre, as distinções dentro dos conceitos são claras o suficiente para permitir um entendimento adequado da crítica ou tese do autor.

Como saber quem tem o conceito mais adequado? Como saber se o conceito criticado é utilizado daquela forma? Ou melhor, devemos escolher apenas um e desconsiderar completamente os outros? Haveria uma forma de conciliar conceitos com ênfases distintas de forma se complementarem?

O propósito desse artigo é tentar apresentar uma visão triperspectiva do conceito de cosmovisão na tentativa de conciliar perspectivas diferentes como ênfases de um mesmo conceito mais abrangente.

COSMOVISÃO REFORMADA

Como citado na introdução, o conceito de cosmovisão é utilizado de formas diferentes. Algumas vezes com diferenças sutis, outras com características mais marcantes. Por exemplo, James W. Sire em seu livro Dando Nome ao Elefante aponta duas dimensões “[…] principais e interdependentes. Uma delas é a matiz psíquico-social. […] A outra dimensão [..] se caracteriza como o centro espiritual e, portanto, fundamentalmente religioso (doxológico) de nosso ser”. (SIRE, 2012, p. 12).

No exemplo de Sire, a matiz psíquico-social poderia se aproximar de autores como Charles Taylor, Thomas Kühn e Karl Jaspers. Enquanto a matiz doxológica se aproximaria de autores como Kierkegaard, Dilthey e Dooyeweerd. Alguns autores enfatizam mais as características sociais, enquanto outros enfatizam as características individuais.

O conceito também tem nuances diferentes dentro de cada matiz. David Naugle em seu livro Cosmovisão, mostra que o conceito, na tradição reformada, foi introduzido na literatura por James Orr passando por outros autores como Kuyper e Dooyeweerd. Dentro dessa tradição, o conceito ganha nuances racionalistas, importadas do idealismo alemão. Essa, na minha percepção, também parece ser a forma mais usual do conceito na igreja contemporânea.

Investigar os motivos desse viés racionalista exigiria um estudo exclusivo, mas creio que podem ser atribuídos à forma como enxergamos a formação de conhecimento na sociedade moderna. Ainda é muito comum entendermos a construção de conhecimento como a absorção de proposições. Isso fica claro na forma como a igreja trata a conversão – as ações, afeições e hábitos do sujeito são desconsiderados se ele afirma (proposicional) crer em Jesus Cristo. É claro que o entendimento de proposições e a racionalização de crenças faz parte da cosmovisão, a razão é uma parte importante do ser humano, mas não devemos desconsiderar a forma como as outras faculdades manifestam o que há dentro do coração do homem: “[…] as pessoas argumentam a partir das e não para as pressuposições” (NAUGLE, 2017, p. 389).

Focaremos na segunda matiz proposta por Sire.

JAMES K. A. SMITH

Dentro da matiz, que chamaremos de subjetivo, também temos ênfases diferentes. Como citado, o conceito de cosmovisão manteve, dentro da igreja reformada, uma ênfase racionalista. James K. A. Smith em sua trilogia Liturgias Culturais apresenta uma crítica a essa ênfase do conceito. Em sua visão, a construção de uma cosmovisão se dá por hábitos, pela educação das afeições, mais do que por entendimento proposicional.  O projeto de Smith está ligado aos dois matizes que Sire apresenta. Por um lado, ele faz uma análise da forma como o sujeito aprende e, por outro, apresenta propostas para a formação do indivíduo pela comunidade. A crítica dele é sobre a formação da cosmovisão.

O “imaginário social” é uma compreensão afetiva, não cognitiva, do mundo. Ele é descrito como imaginário (e não como uma teoria) porque é alimentado pela matéria da imaginação, e não do intelecto; ele é feito de histórias, narrativas, mitos e ícones e está neles entranhado. Essas visões capturam nosso coração e imaginação, “guarnecendo” – por assim dizer – a imaginação, proporcionando estruturas de “significado” pelas quais interpretamos nosso mundo… (Smith, 2018, p. 68)

A tendência de Smith parece ser em uma direção contrária à tradição reformada anterior. Em resumo, a tradição reformada parece dar primazia à razão na construção de cosmovisão, enquanto Smith parece dar primazia aos afetos. Na prática, o ensino cristão tradicional é focado em aprender normas e a proposta de Smith é que o ensino seja por hábitos e treino das afeições [1].

Cosmovisão é um compromisso, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expresso como uma estória ou num conjunto de pressuposições (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas) que sustentamos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade, e que fornece o fundamento no qual vivemos, nos movemos e existimos (SIRE, 2012. p. 179).

Se entendermos a proposta de Smith dentro da definição de Sire, perceberemos que a intenção dele é prover uma orientação para o coração.

Podemos entender o coração como tendo duas partes. Uma delas aponta para uma origem [2] e dessa origem em conjunto com as relações entre o coração, o mundo e os outros surge uma visão de mundo que pode ser expressa de várias formas.

Creio que Smith não entenda que a mudança seja no primeiro ponto, a mudança de orientação fundamental se dá pelo poder do Espírito Santo. Mas no segundo ponto, podemos mudar as expressões de nossa cosmovisão. Para Smith, essa mudança se dá principalmente pelo treino das afeições através dos hábitos.

TRIPERSPECTIVISMO

Devemos construir a cosmovisão pelos hábitos ou pelo entendimento de proposições? Precisamos dar prioridade a uma das duas formas de construção? Creio que não.

John Frame nos ajuda nessa discussão. Em seu livro A Doutrina do Conhecimento de Deus, ele apresenta sua teoria conhecida como Triperspectivismo. No livro, Frame a aplica à epistemologia [3]. Em sua visão não precisamos escolher entre racionalismo, empirismo ou subjetivismo pois todos podem ser entendidas como perspectivas do conhecimento. Ele relaciona essas tendências com suas três perspectivas: Normativa, Situacional e Existencial.

Para Frame, cada uma das perspectivas possui as outras duas como pano de fundo, não sendo redutíveis. Isso se dá porque Deus se revela na Palavra Escrita (Normativa), na Criação (Situacional) e no ser humano, Sua imagem (Existencial). Nenhuma delas deve ser tomada separadamente. Cada uma delas deve ser entendida em sua relação com as outras duas perspectivas.

A perspectiva normativa estuda a Escritura como a lei moral que se aplica a situações e a pessoas; sem essas aplicações a lei não diz nada. A perspectiva situacional estuda o mundo como um campo da ação ética, particularmente aquelas situações que achamos eticamente problemáticas. Mas, ao fazer isso, ela aceita a descrição bíblica do mundo e a realidade das pessoas existentes no mundo. A perspectiva existencial estuda o sujeito ético – seus pesares, sua felicidade, suas capacidades de tomar decisões – mas somente como interpretadas pela Escritura e no contexto do seu meio ambiente situacional (FRAME, 2010, p. 91).

O Triperspectivismo pode ser aplicado a diversas outras áreas. Tentaremos aplicá-lo a cosmovisão.

O que parece ocorrer é que o conceito de cosmovisão mais usual na igreja contemporânea, herdado de James Orr e Kuyper, apresenta uma ênfase no que poderíamos chamar de perspectiva normativa. Entende-se que as proposições ou normas tem a primazia na construção da visão de mundo do sujeito. Isso se reflete em áreas como a educação cristã e o culto público. O ensino se torna essencialmente proposicional, pouco é feito para ensinar afeições ou hábitos, e o culto se centraliza na pregação, o que não seria ruim se as outras áreas da liturgia não fossem sacrificadas [4]. Na prática, o pensamento parece ser: todo o restante pode ser feito de forma medíocre se a pregação for boa.

Smith parece enfatizar as duas outras perspectivas, a situacional e a existencial. Por um lado, ele entende que as afeições do sujeito têm prioridade na construção da cosmovisão (existencial). Por outro, ele propõe mudanças nos hábitos da comunidade para a modificação dessas afeições (situacional).

Se minha análise estiver correta, Frame nos ajudaria a resolver esse problema de forma a não enfatizar nenhuma das perspectivas, mas a tentar abordá-las juntas.

Por conseguinte, as três perspectivas epistemológicas são idênticas às três perspectivas éticas. Quando investigamos a perspectiva normativa do conhecimento, estamos perguntando em que devemos crer à luz das normas de Deus por Ele reveladas. Quando investigamos a perspectiva situacional do conhecimento, estamos praticamente perguntando quais crenças têm mais condições de conduzir-nos às metas do reino de Deus. E quando investigamos a perspectiva existencial do conhecimento, estamos perguntando quais crenças são mais pias, procedentes dos melhores motivos do coração (FRAME, 2010, p. 125).

A citação acima mostra a aplicação da proposta epistemológica de Frame à ética. Poderíamos parafrasear a citação com uma aplicação a cosmovisão: Quando investigamos a perspectiva normativa da cosmovisão, estamos perguntando quais proposições devemos crer à luz das normas de Deus por Ele reveladas. Quando investigamos a perspectiva situacional da cosmovisão, estamos praticamente perguntando como essas proposições se conectam com nosso contexto para nos conduzir às metas do reino de Deus. E quando investigamos a perspectiva existencial da cosmovisão, estamos perguntando como essas proposições se conectam com nossas afeições e imaginação para que possamos viver o Reino de Deus.

CONCLUSÃO

Esse seria um estudo muito amplo e extenso se fôssemos explorar as implicações do Triperspectivismo em cosmovisão. Meu objetivo foi, somente, apresentar, de forma embrionária, uma alternativa que não desconsidera nenhuma das outras.

Se pensarmos triperspectivamente, poderemos propor uma construção de cosmovisão que não precisa priorizar nenhuma das perspectivas. Dessa forma, não precisamos renunciar ao ensino proposicional. Mas, não devemos descartar o situacional, nem o subjetivo. Creio que a grande contribuição do Triperspectivismo para a cosmovisão é que não precisamos parar de ver o homem como ser racional para enxergá-lo como ser afetivo. Podemos vê-lo como os dois simultaneamente.


NOTAS

[1] Smith se defende da crítica de anti-intelectualismo em seus livros, na introdução do segundo livro ele cita Proust para mostrar que precisamos pressupor a razão para poder diminuí-la: “[…] é ao intelecto que devemos recorrer para estabelecer essa inferioridade [do intelecto]”. Mas, fica claro pela citação que sua abordagem tem por objetivo inferiorizar a razão.

[2] Dooyeweerd aponta isso muito bem em: DOOYEWEERD, Herman. No Crepúsculo do Pensamento Ocidental: Estudo sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Tradução: Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim de Souza. Brasília-DF: Editora Monergismo, 2018.

[3] Subárea da filosofia que se dedica ao estudo do conhecimento humano, buscando defini-lo, determinando suas fontes (percepção, memória, razão, introspecção etc.) e implicações.

[4] Não devemos tirar a pregação do centro do culto público, mas isso não é desculpa para desmerecer outros aspectos da liturgia. A Palavra de Deus se manifesta de várias formas.

BIBLIOGRAFIA

FRAME, John. A Doutrina do Conhecimento de Deus. Tradução: Odayr Olivetti. São Paulo-SP: Cultura Cristã, 2010.

NAUGLE, David K. Cosmovisão: a história de um conceito. Tradução: Marcelo Herberts. Brasília-DF: Editora Monergismo, 2017.

SIRE, James W. Dando Nome ao Elefante: cosmovisão como um conceito. Tradução: Paulo Zacharias e Marcelo Herberts. Brasília-DF: Editora Monergismo, 2012.

SMITH, James K. A. Desejando o Reino: culto, cosmovisão e formação cultural. Tradução: A. G. Mendes. São Paulo-SP: Vida Nova, 2018.

___________ Imaginando o Reino: A dinâmica do culto. Tradução: A. G. Mendes. São Paulo-SP: Vida Nova, 2019.

1 comment

  1. Wendell Bernardo

    “…não precisamos parar de ver o homem como ser racional para enxergá-lo como ser afetivo. Podemos vê-lo como os dois simultaneamente.”

    Excelente artigo. Ideias muito bem construídas.
    Que Deus continue te abençoando, Felipe Barnabé!

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