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Agostinho, a leitura espiritual e o Rei eterno constituído sobre Sião

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Escrito por Wisley Santos, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2021

Introdução

Agostinho, o famoso bispo da cidade de Hipona no período patrístico, é um dos maiores pensadores da história do cristianismo. Geralmente, até quem não se importa com a teologia e filosofia cristã sabe disso. O que a maioria dos crentes não sabe, é que seu pensamento ainda ecoa no catolicismo, protestantismo e até mesmo na filosofia contemporânea1.

Dentre as muitas obras de Agostinho publicadas em língua portuguesa, temos os seus volumes dos Salmos2. Portanto, a leitura dos Salmos com Agostinho é mais um meio pelo qual podemos ser instruídos pelo grande bispo de Hipona, mesmo vivendo em época totalmente distinta.

Infelizmente, os Salmos foram confinados atualmente à parte litúrgica do culto. É como se fosse a parte da Escritura responsável por abrir o culto ou uma breve leitura entre os louvores entoados. Como observou o teólogo anglicano N. T. Wright,

O livro de Salmos nos oferece uma forma de nos juntarmos a um coro de louvor e oração que tem acontecido por milênios e em todas as culturas. Ao nos recusarmos a tomar parte na adoração dos salmos bíblicos, tentando inventar, ao mesmo tempo, uma “adoração independente” (baseada em nosso sentimento momentâneo), corremos o risco de nos assemelharmos a uma criança mimada que, levada ao topo da Table Mountain, na Cidade do Cabo, e tendo a vista da cidade e do oceano diante de si, recusa-se a contemplá-los por estar jogando em seu aparelho portátil.3

Neste breve ensaio, veremos como era a leitura de Agostinho dos Salmos, não apenas em seu viés pastoral e cristológico, mas também como os Salmos foram de suma importância na vida cristã de Agostinho.

A influência de Ambrósio e a leitura espiritual das Escrituras

Ambrósio foi uma figura de grande relevância entre os padres latinos do período patrístico. Bispo em Milão durante o período de 374 a 397 d.C., foi um “escritor fecundíssimo em teologia e na exegese bíblica”, além de defender a “leitura alegórica da Bíblia como interpretação espiritual dos textos sagrados”4.

Quando Agostinho chegou a Milão, seu contato com o bispo Ambrósio foi de grande importância em sua trajetória de conversão. Como ele mesmo afirma nas Confissões:

Assim que cheguei a Milão, encontrei o bispo Ambrósio, conhecido no mundo inteiro como um dos melhores, e teu fiel servidor. […] Comecei a estimá-lo, a princípio não como mestre da verdade, pois não tinha esperança de encontrá-la em tua Igreja, mas como homem bondoso para comigo. Acompanhava assiduamente suas conversas com o povo, não com a intenção que deveria ter, mas para averiguar se sua eloqüência merecia a fama de que gozava, se era superior ou inferior à sua reputação. Suas palavras me prendiam a atenção. […] Comecei então a notar que eram defensáveis suas teses, e logo vim a perceber não ser temerário defender a fé que eu supunha impossível opor aos ataques dos maniqueus. E isto sobretudo porque via resolverem-se uma a uma as dificuldades de várias passagens do Antigo Testamento que, tomadas ao pé da letra, me tiravam a vida. Ouvindo agora a explicação espiritual de tais passagens, eu me reprovava a mim mesmo por ter acreditado que a Lei e os Profetas não pudessem resistir aos ataques e insultos de seus inimigos.5

À medida que Agostinho ouvia os ensinamentos de Ambrósio, principalmente nas escrituras do Antigo Testamento, as objeções dos maniqueus em relação às doutrinas bíblicas perdiam força dentro dele.  No fim do livro V das Confissões, logo após o relato do encontro com o Ambrósio, Agostinho relata que decidiu abandonar o maniqueísmo e permanecer como catecúmeno da Igreja Católica.

Consciente dos erros do passado e com o ardente desejo de crescer na fé, Agostinho escreveu para o bispo de Milão, pedindo para que ele sugerisse as obras das sagradas escrituras nas quais ele deveria se dedicar. Ambrósio recomendou então o livro do profeta Isaías, o que Agostinho considerou incompreensível no início, suspendendo a leitura e decidindo retomar apenas quando estivesse mais experiente na fé6.

Foi justamente a leitura dos Salmos que despertou o amor de Agostinho pela Escritura, como ele mesmo relatou:

Quanto te invoquei, ó meu Deus, ao ler os salmos de Davi, cânticos de fé, hinos de piedade contrastantes com qualquer sentimento de orgulho, eu, novato ainda no caminho do teu verdadeiro amor, catecúmeno em férias (…). Quantas exclamações me inspirava a leitura desses salmos, e como eles me inflamavam no teu amor! Desejava ardentemente recitá-los, se possível, para todo o mundo, a fim de rebater o orgulho do gênero humano. E, no entanto, são cantados no mundo inteiro, e nada pode furtar-se ao teu calor.7

A paixão despertada pelo Espírito em Agostinho, logo no início de sua conversão, resultou naquilo que seria a obra de toda a sua vida. Desde quando foi ordenado sacerdote, os Salmos estiveram cada vez mais presentes em seus sermões. Mesmo que nem todos os Salmos tenham sido pregados por Agostinho, ele escreveu comentário sobre todos eles8.

Não é incomum, na história da Igreja como um todo, que grandes teólogos tenham escrito comentários sobre os salmos. Outros nomes importantes da teologia patrística como Orígenes, Atanásio, Ambrósio e Jerônimo também escreveram obras sobre os Salmos.

Diferente das obras dogmáticas e, por isso, de conteúdo mais robusto, Agostinho escreveu os comentários dos salmos de maneira pastoral, “despojado de polêmica” e sempre buscava “uma passagem paralela nos evangelhos ou nas cartas dos apóstolos”9. Sobre sua forma de escrita, é importante destacar que

Embora defensor do sentido literal, sabe que isto diz muito pouco ao espírito dos fiéis. Como as Escrituras, especialmente os salmos, devem produzir um efeito espiritual e como tudo no Antigo Testamento era figura, anúncio do Novo, após aclarar o sentido literal do texto, Agostinho desenvolve o sentido espiritual ou figurado dos salmos. Trata mais de afirmar a fé, nutrir a esperança, do que fazer estudos sobre o estilo, o gênero literário, a estrutura dos salmos.10

Como visto acima, a leitura alegórica, ou espiritual, que Agostinho fazia dos Salmos não pode ser compreendida como uma total alegorização do texto bíblico, como no caso dos alexandrinos. Para ele, a leitura espiritual dos Salmos era importante para o leitor comum de sua época, para alimentar o seu rebanho e ajudar o homem a enxergar a possibilidade de salvação11.

Por fim, o principal objetivo de Agostinho em seus comentários dos Salmos era a presença de Cristo. Mesmo os Salmos que não falavam diretamente de Cristo, eles eram direcionados a Sua Igreja, que era o seu corpo. Para Agostinho, “é sempre a voz de Cristo que se ouve nos salmos, voz que repercute em seu Corpo, a Igreja, na humanidade redimida”12.

O Rei eterno constituído sobre Sião: o comentário de Agostinho sobre o Salmo 2

Vimos acima que, mesmo Agostinho possuindo uma interpretação literal da maioria dos textos bíblicos, isso não ocorria em seus sermões e comentário aos Salmos, optando aqui por interpretação espiritual, como se referiam na época a interpretação alegórica do texto bíblico.

O comentário ao Salmo 2, texto escolhido para a análise, evidencia essa leitura agostiniana. Optei por dividi-lo em três partes. Assim começa o texto bíblico:

1. Por que se enfurecem os gentios 

e os povos imaginam coisas vãs?  

2. Os reis da terra se levantam, 

e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra

o seu Ungido, dizendo:

3. Rompamos os seus laços 

e sacudamos de nós as suas algemas.

4. Ri-se aquele que habita nos céus;

o Senhor zomba deles.

5. Na sua ira, a seu tempo, 

lhes há de falar 

e no seu furor os confundirá.13

Agostinho já tinha por objetivo destacar a figura de Cristo nos Salmos, e no texto em questão, isso fica ainda mais fácil para compreender, já que o salmista faz referência ao Ungido do Senhor no segundo verso. Os opositores relatados nos dois primeiros versos são os opositores que perseguiam a Igreja de Cristo14, após a sua ressurreição.

Estes que imaginam coisas vãs e que eram perseguidores da Igreja de Cristo15, “não conseguiram realizar o intento de pôr termo à vida de Cristo”, por isso, enfureciam-se e tramaram em vão. O verso 3 também aplicava-se às mesmas pessoas destacadas nos versos anteriores.

Para Agostinho, o verso 4 não possui um sentido literal. Não deveríamos entender que Deus estava rindo ou zombando, mas sim, que estava concedendo forças aos santos que estão no céu,

Estes, olhando o futuro, isto é, o nome de Cristo e o seu domínio estendido aos vindouros e alcançando todas as gentes, compreendam que aqueles tramaram em vão. Tal capacidade de previsão constitui a irrisão e zombaria da parte de Deus. “Rir-se-á deles o que habita nos céus”. Se os céus são as almas santas, por meio delas, Deus, que conhece o futuro, rir-se-á e zombará deles.16

Diferentemente do ser humano que se ira e perde o controle sobre suas emoções, a ira e o furor do Senhor, como destacados no verso 5, “não são perturbação da mente e sim força vindicativa, inteiramente justa”17. Agostinho cita o livro apócrifo de Sabedoria18 e atribui mais dois significados a ira divina como descrita no verso 5:

A ira de Deus, portanto, é a comoção da alma, conhecedora da lei de Deus, ao ver o pecador transgredir a mesma lei. Grande é a reivindicação desta comoção das almas justas. Ainda é possível entender a ira de Deus como o próprio obscurecimento da mente dos transgressores da lei de Deus.19

Portanto, a ira divina aqui tinha três interpretações. Primeiramente, em relação ao próprio Deus, mostrando que sua ira era uma vindicação totalmente justa. Segundamente, referia-se a comoção da alma dos santos que se irava ao ver a transgressão da lei de Deus e, por último, a ira divina também aplicava-se ao pecadores que tinham suas mentes obscurecidas, como consequência da transgressão da lei divina20.

O salmo 2 continua da seguinte forma:

6. Eu, porém, constituí o meu Rei

sobre o meu santo monte Sião. 

7. Proclamarei o decreto do SENHOR: 

Ele me disse: Tu és meu Filho, 

eu, hoje, te gerei. 

8. Pede-me, e eu te darei as nações 

por herança 

e as extremidades da terra 

por tua possessão. 

9. Com vara de ferro as regerás

e as despedaçarás 

como um vaso de oleiro.

O verso 6 refere-se a figura de Jesus, mais uma vez, só que agora coroado sobre o monte santo de Sião. Como Sião tem por significado contemplação, Agostinho aplica à Igreja, onde contemplamos a glória de Deus. O significado então é que Jesus foi “constituído rei de sua santa Igreja, denominada monte, devido à elevação e à firmeza”21.

Por mais que o verso 7 pareça uma referência profética ao dia do nascimento de Jesus, Agostinho explica que:

Eu hoje te gerei, pois “hoje” significa o presente e na eternidade não há passado, como se algo ainda não existisse, mas apenas no presente, porque aquilo que é eterno existe sempre. Por isso, a autêntica fé católica prega a geração eterna do poder e da sabedoria de Deus, que é o Filho unigênito.22

Mesmo que os comentários dos Salmos visavam a edificação de suas ovelhas e do leitor comum, Agostinho não deixou de destacar uma importante doutrina cristã, que é a da eterna geração do Filho. Jesus, o Filho unigênito do Pai, não era uma criatura elevada como alguns de sua época afirmavam. O Filho não fora criado, mas gerado do Pai, desde a eternidade. 

Agostinho atribui a palavra “pede-me” no verso 8, a economia temporal feita em prol do gênero humano e explica que isso não tem um sentido futuro, mas que já acontecia no presente. Isso ocorre porque enquanto homem, Cristo se sacrificou por nós e também intercede por nós (Rm 8:34)23

Assim, as nações recebem salvação e colhem frutos espirituais, sendo governadas por Jesus, o rei coroado pelo Pai. Por “vara de ferro”, Agostinho chama atenção para a justiça inflexível do Filho, onde ele despedaçará “as ambições terrenas, as preocupações lamacentas do velho homem, tudo o que do limo do pecado foi contraído e implantado”24.

Os últimos versos do Salmo 2 dizem o seguinte:

10. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; 

deixai-vos advertir, juízes da terra.

11. Servi ao SENHOR com temor 

e alegrai-vos nele com tremor. 

12. Beijai o Filho para que se não irrite, 

e não pereçais no caminho; 

porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. 

Bem-aventurados todos os que nele se refugiam.

Para Agostinho, o verso 10 refere-se a governantes cristãos, que estão debaixo do reinado de Cristo e atribui significado alegórico aos “juízes da terra”, onde se trata das pessoas espirituais da terra. O “agora”, do início do verso, “quer dizer, já renovados, já estraçalhados os revestimentos de barro, isto é, os recipientes carnais do erro, pertencentes à vida passada”25.

Servir ao Senhor com temor, como descrito no verso 11, serve para lembrar aos reis e juízes da terra o perigo da soberba. Agostinho acrescenta que,

Ser-vos-á proveitosa a sujeição àquele que vos dá entendimento e instrução. Não vos convém dominar temerariamente; mas servi ao Senhor de todos com temor, e exultai por causa da bem-aventurança segura e genuína, precavidos e bem avisados, para de lá não cairdes pela soberba26.


Por isso, é motivo de regozijo servir ao Senhor, não apenas para as pessoas simples, mas também para os reis e juízes da terra. Entender e ser instruído pela Palavra de Deus, é abraçar a disciplina. Ir contra a disciplina, é despertar a ira e perecer no caminho, como mostra o v. 12. Quem se desvia do caminho da justiça, “há de vagar na maior miséria pelas sendas da iniquidade”27.

Por fim, todos os que confiam no Senhor são bem-aventurados. Agostinho destaca que os justos não serão atingidos quando o castigo sobrevier sobre os ímpios e os justos ainda serão exaltados no reino de Deus. Para ele, o salmo termina mostrando que o juízo sobre os ímpios virá de maneira repentina, “enquanto os pecadores estiverem pensando que será remoto e em futuro longínquo”28.

Conclusão

Os Salmos inspiraram o povo de Deus no período da antiga aliança e continuam a inspirar até hoje. É nos Salmos que aprendemos tanto as maravilhas e a providência de Deus, como também conhecemos os mais profundos sentimentos humanos.

A leitura de Agostinho nos Salmos, mesmo com ressalvas devido ao método alegórico, mostra como eles foram importantes para Agostinho e como continuam sendo para nós. Assim como no caso das Confissões e demais obras, Agostinho nos Salmos é uma voz antiga, mas extremamente atual, pastoral e profunda, falando aos nossos corações e apontando a direção para o nosso Senhor Jesus Cristo.


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1. Sobre a influência de Agostinho nos filósofos contemporâneos, principalmente entre os existencialistas, veja a introdução da obra: SMITH, James K. A. Na estrada com Agostinho. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2020.

2. A editora Paulus tem três volumes publicados com todos os comentários de Agostinho nos Salmos.

3. WRIGHT, N. T. Salmos. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2020, p. 9-10.

4. ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni. Filosofia: Antiguidade e Idade Média, volume 1. São Paulo: Paulus, 2020, p. 442.

5. AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2016, p. 99-101.

6. Ibidem, p. 176.

7. Ibidem, p. 173.

8. AGOSTINHO, Santo. Comentário aos Salmos (1-50). São Paulo: Paulus, 1997, p. 11.

9. Ibidem, p. 14.

10. Idem.

11. Idem.

12.  Ibidem, p. 15.

13. A versão utilizada é a ARA – Almeida Revista e Atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil.

14. AGOSTINHO, 1997, p. 19. O próprio texto bíblico de Atos 4:26 faz referência ao Salmo 2.

15.  Idem.

16.  Idem.

17.  AGOSTINHO, 1997, p. 20.

18. “Senhor poderoso, julgas com tranquilidade, e tudo dispões com grande indulgência” (Sb 12:18).

19. AGOSTINHO, 1997, p. 20.

20. Quanto à terceira interpretação, é possível que Agostinho tenha o texto de Rm 1:18 em mente.

21. AGOSTINHO, 1997, p. 20.

22. Idem.

23.  Idem.

24.  Idem.

25. AGOSTINHO, 1997, p. 21.

26.  Idem.

28.  Idem.

28. AGOSTINHO, 1997, p. 22.


Referências Bibliográficas

AGOSTINHO, Santo. Comentário aos Salmos (1-50). São Paulo: Paulus, 1997.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2016.

ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni. Filosofia: Antiguidade e Idade Média, volume 1. São Paulo: Paulus, 2020.

SMITH, James K. A. Na estrada com Agostinho. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2020.

WRIGHT, N. T. Salmos. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2020.