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Apostasia e Teo-referência

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Escrito por Adalberto Leandro Pedroni da Conceição, estudante do Programa de Tutoria Avançada 2021

Em sua obra Filosofia e Estética1, Hans Rookmaaker aborda questões sobre cosmovisão, arte e a importância da modalidade estética e suas próprias normas dentro da filosofia da ideia cosmonômica. 

Rookmaaker diz que “A verdadeira estrutura do conhecimento humano exige e busca um princípio original, um ‘ponto de partida’ do qual tudo provém”2.  A procura por esse princípio faz parte de uma tentativa de orientar-se no mundo e dar sentido a ele. Esse movimento para conhecer e interagir com o cosmos organiza-se em uma cosmovisão e tem um elemento pístico central. 

“A Cosmovisão é o resultado de humanos, com suas inclinações, orientando-se na ordem do mundo, a realidade que se lhes apresenta num dado momento. Sua visão será determinada pelos ‘deuses’ que escolheram para si ou por quaisquer princípios que tenham declarado ‘absolutos’, e mais profundamente pelas tendências pecaminosas do coração humano, relutante em reconhecer a Deus como Criador, ou Redentor e, portanto, rejeitando também a palavra de Deus.”3

Para o autor, a filosofia seria a sistematização dessa tentativa de orientar-se na criação4. Contudo, o problema da filosofia é sua apostasia, com caráter humanista, que coloca o ser humano como centro e ponto de partida de todo pensamento e ação5. Sendo assim, a autonomia torna-se o objetivo e o meio para interagir e dominar a realidade. Nas palavras de Rookmaaker: “Se não amam a Deus de coração e não o reconhecem como criador — para não mencionar sua paternidade —, então, em última análise, é o “eu” que estão buscando. Querem manter e realizar sua própria liberdade, servir esse eu e a todas as tendências que vivem em seu coração”6.

O problema se agrava, pois o ser humano não tem papel passivo na relação com a realidade. Mesmo decaído, ainda é profeta, sacerdote e rei na criação. Em sua rebeldia contra Deus, exerce seu mandato cultural em apostasia, promovendo profecias falsas, religião falsa e reinado mau7.

Por essa razão, ao invés de desenvolver as potencialidades da criação para a glória de Deus, em meio à paz e à harmonia, os seres humanos sujeitam a criação ao pecado e ao terror. Como diz o Dr. Fabrício Tavares de Moraes, “o pós-modernismo que tanto nega quanto leva às últimas consequências alguns pontos do pensamento moderno, é a revolta contra a realidade, tal como criada por Deus”8.

Essa rebelião causa danos na relação da pessoa consigo, gerando uma luta entre os desejos de liberdade e a própria identidade e corpo do indivíduo9. Segundo Rookmaaker, a essência da realidade e da individualidade humana será buscada naquilo que é considerado mais importante10. E sendo o eu humano o ponto arquimediano, a cosmovisão apóstata não consegue encontrar harmonia e sentido universal nem para o mundo tampouco para si.

Olhando apenas para dentro de si, a humanidade fica presa entre dois polos que moldam seu sistema de vida, a saber, liberdade e natureza. Quando as pessoas enfatizam a natureza, tendem a absolutizar a vida no sentido físico, biótico, psíquico. Quando a ênfase é na liberdade, a absolutização é da história, da estética etc11. Os dois polos estão sempre em tensão e não se consegue encontrar paz. A interpretação da vida fica presa a um pêndulo entre dois extremos e não satisfaz o coração do indivíduo.

Se a partir do Renascimento o homem “redescobre” a si próprio e vê o cosmos como domínio da humanidade e o ser humano, o centro e criador de sua própria história12, ao mesmo tempo é construída a ilusão que o aprisiona. Como diz John Frame:

A adoção de uma mentira afeta não somente o conteúdo da nossa cabeça, mas também todas as áreas da nossa vida. O homem decaído vive como se este mundo não fosse de Deus; vive como se o mundo fosse sua criação última. E, tendo abandonado os critérios fornecidos pela revelação, os únicos critérios pelos quais ele pode distinguir entre a verdade e a falsidade, não têm meios de corrigir o seu erro. […] Assim, num importante sentido, o pecador é um “criador secundário”, alguém que prefere viver num mundo — um mundo de sonhoque ele inventou13. [grifo nosso]

Rookmaaker chama a atenção para o irracionalismo como a fé dos românticos que eleva a pessoa acima de qualquer lei ou norma, baseando-se em uma ausência de limites, sob o domínio do sentimento. O avanço desse ideal levou ao comportamento pragmático, no qual as pessoas não se perguntam o que é o bom, o belo e o verdadeiro, apenas se preocupam com o que é vantajoso14.

Diante desse problema, qual seria a alternativa de ponto de partida a dar sentido para a realidade e para a identidade da pessoa?

Como alternativa à interpretação apóstata da realidade, faz-se uma interpretação teo-referente. “Teo-referência positiva” é o conceito em que Deus é o ponto central de referência da existência do homem regenerado. A interpretação e interação com a realidade se dá em um contexto biblicamente orientado sob a ação do Espírito Santo15.

A vida no mundo será sempre encarada no interior de um campo de significado de amor ou de rebelião contra Deus16.  A rebelião é marcada pela apostasia, enquanto o amor a Deus é caracterizado pela submissão e reconhecimento que a vida é uma dádiva. Viver teo-referentemente é interpretar o mundo a partir do que Deus revela em sua Palavra. Para isso é necessário reconhecer que todo conhecimento humano é a posteriori, é uma reflexão sobre aquilo que é dado.

Rookmaaker diz: “Cabe a nós descobrir a realidade mais uma vez, aprender a ver e compreender a realidade em seu caráter de criação e consequentemente também em sua abertura para o céu”17. Ter o Deus verdadeiro como referência é viver o hoje tendo como referência aquilo que é eterno. Contudo, é necessário enfatizar que isso deve ser aprendido. É preciso aprender a ver e compreender a realidade como criação.

Quando se aplica a verdade bíblica ao diálogo com o mundo, a cosmovisão cristã não apenas confronta outras visões, mas apresenta soluções e a verdadeira redenção. Contudo, embora tenhamos respostas, o imediatismo raso e afoito atrapalha o aprendizado. Embora o cristão saiba a verdade, ainda tem dificuldades de articulá-la e não tem paciência para ver os resultados a longo prazo. Por isso, não basta dizer que devemos ser teo-referentes. É preciso ensino cristão no dia a dia, através do discipulado, para vermos o mundo através dos olhos da fé. 

Para o ver os frutos da visão cristã na vida é necessário paciência. Como Rookmaaker alerta: “Toda educação consiste em abrir nossos olhos e ensinar-nos a ver. […] Nosso problema é a impaciência; queremos ver rápido demais. Somos descuidados na visão, constantemente deixamos de ver as coisas”18. Poderíamos dizer que somos descuidados no discipulado também, tratando o ensino bíblico como Fast-food.

Para testemunharmos a presença fiel e relevante dos cristãos na sociedade é necessário educar a imaginação para interpretarmos o mundo segundo a Palavra de Deus. Essa interpretação não será de caráter apóstata, mas fiel a Deus que é quem abre os nossos olhos e regenera o coração. O ver criativo, mencionado por Rookmaaker, é a capacidade criativa dada por Deus, com o exercício da imaginação que possibilita a descoberta das estruturas e contextos daquilo que percebemos através dos sentidos. Quando os olhos se voltam para a criação no intuito de descobrir as maravilhas de Deus, o verdadeiro conhecimento floresce.

A realidade é inesgotável e infinita em profundidade, diversidade e riqueza. Ela nunca deixa de fascinar-nos20. A realidade nunca deixa de testemunhar que é obra do Deus Criador, por isso os seres humanos em apostasia são indesculpáveis e vivem na luta para suprimir a verdade pela injustiça21.

É somente pela obra graciosa de Cristo que há salvação para a humanidade. A salvação é mais que mera passagem para o céu. É uma nova vida guiada pelo senhorio de Cristo de modo que todas as nossas habilidades são desenvolvidas para a glória dele, as potencialidades da criação são descobertas e prosperam como o jardim de Deus. A vida floresce em harmonia e beleza na paz do Criador. 


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1. ROOKMAAKER, Hans R. Filosofia e Estética. Trad. William Campos da Cruz. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018.

2. Ibid., p. 37.

3. Ibid., p. 36-37.

4. Ibid., p. 31.

5. Ibid., p. 33.

6. Ibid., p. 32.

7. ROOKMAAKER, p. 31-32.

8. MORAES, Fabrício T. in ROOKMAAKER, p. 17.

9. ROOKMAAKER, p. 33.

10. ROOKMAAKER, p. 37.

11. ROOKMAAKER, p. 37.

12. KUIPER, Roel. Capital Moral: o poder de conexão da sociedade. Trad. Francis Petra Janssen. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2019. p. 55.

13. FRAME, John M. A Doutrina do Conhecimento de Deus. Trad. Odayr Olivetti. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010. p. 44.

14. ROOKMAAKER, p. 124-125.

15. OLIVEIRA, Fabiano de Almeida. Reflexões críticas sobre Weltanschauung: uma análise do processo de formação e compartilhamento de cosmovisões numa perspectiva teo-referente. In: Fides Reformata XI:1 (2008), p. 31, nota 1.

16. OLIVEIRA, p. 31.

17. ROOKMAAKER, p. 209-210.

18. ROOKMAAKER, p. 44.

19. Ibid., p. 205.

20. Ibid., p. 206.

21. Romanos 1.18-20.


Bibliografia:

FRAME, John M. A Doutrina do Conhecimento de Deus. Trad. Odayr Olivetti. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

ROOKMAAKER, Hans R. Filosofia e Estética. Trad. William Campos da Cruz. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018.

KUIPER, Roel. Capital Moral: o poder de conexão da sociedade. Trad. Francis Petra Janssen. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2019.

OLIVEIRA, Fabiano de Almeida. Reflexões críticas sobre Weltanschauung: uma análise do processo de formação e compartilhamento de cosmovisões numa perspectiva teo-referente. In: Fides Reformata XI:1 (2008), p. 31-52.