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Atenção! Estamos em obras: o aconselhamento bíblico como ferramenta santificadora

Escrito por Amanda Diniz Vallada, estudante do Programa de Tutoria Essencial 2023


A Confissão de Fé de Westminster (CFW), documento de orientação reformada produzido no século XVII e adotado por muitas igrejas calvinistas ao redor do mundo, discorre, em seu capítulo 13, a respeito da santificação dos crentes em Cristo Jesus. Ao longo dos três artigos que tratam do tópico chamado na Teologia Sistemática de doutrina da santificação, a CFW apresenta algumas características importantes que configuram esse processo. Para os fins deste artigo, vale a pena destacar o Art. I:

Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo criado em si um novo coração e um novo espírito, são, além disso, santificados real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, pela sua palavra e pelo seu Espírito, que neles habita; o domínio do corpo do pecado é neles todo destruído, as suas várias concupiscências são mais e mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são mais e mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadoras, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá a Deus.

Como vemos neste trecho, a santificação é justamente aquilo de que ela foi chamada no parágrafo anterior – um processo. Em tal processo, nossa carnalidade pecaminosa é mais e mais enfraquecida, e nós, os santos, somos mais e mais fortalecidos para a prática da verdadeira santidade. Diante disso, podemos nos perguntar: que ferramentas podem ser empregadas para o cumprimento do processo de santificação? 

Para responder essa pergunta, o objetivo deste texto é defender a prática do aconselhamento bíblico como uma importante aliada à santificação dos crentes. Com esse propósito, faremos algumas considerações sobre a doutrina da santificação, a partir das lentes da fé reformada, buscando compreender em que consiste de fato a santificação, investigando os mecanismos desse processo e tratando dos meios pelos quais ele ocorre.

Em primeiro lugar, é importante tirarmos a palavra santificação do senso comum e do uso corriqueiro. Vale, antes de tudo, deixar claro que santificação não significa um melhoramento moral do ser humano – ou seja, em seu sentido bíblico, esse termo não diz respeito a alguma qualidade moral adquirida ou desenvolvida pelas pessoas. Esse uso da palavra, ainda que comum, não consegue apreender a ideia de que a santificação é uma relação entre Deus e um objeto santificado. Da forma como essa palavra muitas vezes é empregada, poderíamos até pensar que a santificação é tão somente uma ação do ser humano, um melhoramento que o homem consegue por si, pelo seu próprio esforço e mérito.

Na verdade, o entendimento biblicamente acurado quanto à santificação é exatamente o oposto; oposto no sentido de que ela, a santificação, parte de Deus e não do homem. Nas Escrituras, vemos que a santidade é uma qualidade que se aplica primeiramente a Deus, e, sendo assim, é fundamentalmente inacessível às suas criaturas, com exceção daquelas a quem o Senhor desejar atribuí-la1. Santidade, portanto, aponta para Deus como distinto e elevado em relação à criação, o que vemos ser retratado com especial atenção no Antigo Testamento (AT). Ao passo que o AT é permeado de referências ao Deus Santo, o Novo Testamento (NT) apresenta poucas passagens que conferem essa qualidade diretamente a Deus, além, claro, de citações do AT no NT. Louis Berkhof (2001) explica essa diferença pela projeção enfática da santidade no NT como uma ação do Espírito Santo, ao passo que no AT ela era destacada, de fato, como um atributo de Deus.

De qualquer forma, a essência da santidade permanece: um predicado de Deus concedido a seus filhos e filhas, um processo cujo próprio Deus é o autor. Evidentemente, a santidade implica algum progresso, mas ele não é pessoal, tampouco autônomo. Junto a Berkhof, podemos dizer que “a Bíblia não insiste no progresso moral puro e simples, mas em um progresso moral em relação com Deus, em atenção a Deus e com vistas ao serviço de Deus” (BERKHOF, 2001, p. 912).

Para evitarmos o engano de olhar a santificação via uma ótica antropocêntrica, precisamos de uma definição robusta de santificação, advinda também de Berkhof, o qual diz que a santificação é “a graciosa e contínua operação do Espírito Santo pela qual ele liberta o pecador justificado da corrupção do pecado, renova toda a sua natureza à imagem de Deus, e o capacita a praticar boas obras” (BERKHOF, 2001, p. 913). Com essa definição, vemos que a santificação sucede a justificação – primeiro esta e depois aquela. De forma complementar, Bavinck (2021) fala que a justificação nos liberta da culpa do pecado e a santificação nos liberta da sua corrupção.

A nossa libertação da corrupção do pecado é um desenvolvimento progressivo; não é instantâneo, como acontece com a justificação. E a progressão da santificação acontece em dois movimentos: um movimento de morte do velho homem e um movimento de edificação do novo homem. Por velho homem, nós entendemos a natureza humana dirigida pelo pecado, e que precisa ser continuadamente crucificada, e, por novo homem, nós entendemos a natureza humana que tem uma disposição santa gerada e fortalecida – chamada de ressurreição com Cristo, e cujo propósito é o que as Escrituras chamam de “viver para Deus”2.

Haja vista o desenrolar progressivo da santificação, poderíamos nos perguntar por que ela não acontece de maneira instantânea. Bavinck responde sobre esse questionamento dizendo que

Deus não nega o fato de ele ser o nosso criador, e enquanto criaturas, nossa vida é nascer, crescer e gradualmente alcançar a maturidade. Já que a vida espiritual é uma vida real, ela passa a existir e se desenvolver da mesma forma. Deus não injeta a justiça e santidade de Cristo em nós mecanicamente ou a derrama como se fosse água derramada em um vaso, mas a desenvolve em nós de uma maneira orgânica (BAVINCK, 2021, p. 600).

Como percebido, os dois movimentos da santificação em relação ao ser humano não são imediatos, nem sucessivos, um após o outro; eles são, na verdade, simultâneos. A metáfora de Berkhof, para isso, bastante ilustrativa, diz que é como levantar um novo prédio enquanto o antigo prédio é demolido. Ou seja, o novo edifício não precisa esperar o antigo ser completamente destruído para começar a ser erguido – se isso fosse necessário, a nova natureza humana nunca seria desenvolvida. Afinal, as Escrituras afirmam que travamos uma batalha contínua contra a corrupção do pecado, ainda que a santificação atinja todo o ser humano3.

Embora os movimentos de santificação do homem sejam uma obra iniciada pelo próprio Deus, nós, cristãos, participamos desse processo; não como agentes, evidentemente, mas como ambiente (somos o locus da obra de santificação) e, também, como instrumento. Ou seja, Deus emprega a instrumentalidade do ser humano para efetuar sua obra santificadora. Em qual sentido? No sentido de que nós devemos ser sábios para fazer uso das ferramentas de que dispomos para essa obra.

A partir da doutrina reformada, podemos destacar três meios empregados pelo Espírito Santo para a nossa santificação: a Palavra de Deus, disposta nas Escrituras, a ministração dos sacramentos e a fé de que perseveraremos em santificação (BAVINCK, 2021; BERKHOF, 2001). Para os fins deste texto, vamos caminhar à conclusão refletindo sobre o primeiro meio de santificação, ou, mais precisamente, sobre o papel da conselheira ou conselheiro bíblico no ministério de pregação da Palavra de Deus.

A esse respeito, podemos dizer que o aconselhamento bíblico desempenha um papel fundamental na santificação dos crentes, pois conselheiros e conselheiras buscam orientar, instruir e ajudar as pessoas com os mais diversos problemas e dificuldades (LAMBERT, 2017, n.p.). No caso de conselheiros bíblicos, interesse deste texto, eles devem proceder em aconselhamento equipados da sabedoria suficientemente presente nas Escrituras. 

Uma vez que o novo homem continua em obras e o velho homem, sendo demolido, o pecado e seus efeitos, quer perpetuados por nós mesmos ou por outros, ainda nos afetam sobremaneira. É nesse sentido que o aconselhamento bíblico pode contribuir para a santificação, auxiliando e orientando os crentes na edificação da nova natureza humana, direcionada à santidade. Wadislau Gomes contribui com esse tema ao dizer que “o aconselhamento é um instrumento ordenado por Deus para o aprimoramento dos crentes – para a desincumbência da tarefa da igreja no mundo” (GOMES, 2018, p. 28) .

No processo geral do aconselhamento, conduzido consistente e continuadamente, o conselheiro tem a oportunidade de oferecer ao aconselhado os ensinamentos bíblicos pertinentes para exortar, tratar e curar os aspectos decaídos de nossa natureza. Assim, cada pessoa aconselhada encontra os meios mais adequados para, cada vez mais, ser aperfeiçoada à imagem de Deus. Afinal, “o objetivo do aconselhamento deve ser facilitar a restauração da imagem de Deus para o seu bom funcionamento em todas as formas práticas que essa imagem tem sido quebrada na vida daqueles que procuram um conselheiro” (LAMBERT, 2017, p. 207).

O aconselhamento biblicamente orientado, dessa forma, é um fiel instrumento na santificação orquestrada por Deus, na medida em que é uma ação comprometida com princípios bíblicos – como a suficiência da Palavra, o reconhecimento da natureza humana decaída, a dependência da graça de Deus no andamento da obra e, ainda, a glorificação de Deus na obediência humana e na prática das boas obras. A partir desse entendimento, o aconselhamento consegue alcançar de modo eficaz o aconselhado, reorientando, pela graça de Deus, sua disposição e prática.

Por isso, ao estar sobre as bases das Escrituras para tratar os efeitos do pecado, o aconselhamento bíblico é uma poderosa ferramenta para a transformação santificadora do ser humano, orientando as pessoas no crescimento espiritual e no cultivo de uma vida diante de Deus. Isso envolve um processo de aprendizado, reflexão, arrependimento e busca por mudanças, norteado pelas Sagradas Escrituras e regido pelo Autor da santificação, sempre, lembrando Berkhof, “em relação com Deus, em atenção a Deus e com vistas ao serviço de Deus” (BERKHOF, 2001, p. 921).


1 Derivando da santidade do Senhor, esse atributo é aplicado a elementos e a pessoas que são colocadas numa relação especial com Ele – homens, mulheres, lugares, épocas que são consagrados a Deus. Desse modo, o Tabernáculo e o Templo são chamados santos (Lv 8:10-11), assim como o sábado (Ex. 20:8) e as ofertas (Es. 8:28).

2 Como pode ser verificado em diversas passagens (a exemplo de Rm. 6:4/11 e Gl. 2:19).

3 Verificamos isso, por exemplo, em Hb. 10:12-14 e 1Jo. 1:10.


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Referências

A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2019.

BAVINCK, Herman. As maravilhas de Deus: instrução na religião cristã de acordo com a confissão reformada. Tradução por David Brum Soares. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. Tradução por Odayr Olivetti. E-book. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

GOMES, Wadislau. Prática de aconselhamento redentivo. Brasília: Editora Monergismo, 2018.

LAMBERT, Heath. Teologia do aconselhamento bíblico. Tradução por Airton Barbosa. Eusébio, CE: Editora Beregrino, 2017.