Cantando o sola

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O cristão deve ser um biblívoro. Esse termo curioso foi uma metáfora usada por Eugene Peterson (1932-2018) para defender a importância da apreensão das verdades bíblicas no processo das práticas formativas do discipulado cristão. Lançando mão dela, em Quadros de uma exposição teológica, Kevin Vanhoozer comenta que “praticar a autoridade bíblica envolve mais que valorizá-la da boca para fora. Antes, significa comer, orar e amar as canções, narrativas, leis e outras partes das Escrituras” (VANHOOZER, 2018, p. 104). À luz da metáfora de Peterson, e inspirado também num ensaio do filósofo John Langshaw Austin, Três modos de derramar tinta, Vanhoozer propõe três metáforas sobre a importância da Palavra de Deus na vida cristã. As Escrituras como luz, bússola e script, três maneiras de se “cantar” o sola (VANHOOZER, 2018, p. 101).

As Escrituras como luz. Caso o leitor seja um grande apreciador do livro de Salmos, certamente uma das passagens que irá recordar em relação ao termo luz é o Salmo 119:105: “Lâmpada para os meus pés é a tua Palavra, e luz para o meu caminho”. A ideia de iluminação é bastante intuitiva quando pensamos a caminhada cristã e a nossa condição como pecadores, dependentes da graça de Deus, chamados por Ele “das trevas para sua maravilhosa luz” (1Pe 2:9). Calvino, ao comentar este salmo, afirma que “a metáfora […] implica [que] a menos que a Palavra de Deus ilumine a vereda dos homens, toda a vida deles é envolvida em trevas e obscuridade, de modo que nada podem fazer, senão desviar-se miseravelmente do caminho certo” (CALVINO apud VANHOOZER, 2018, p. 105). Sem a iluminação do Espírito Santo pela Palavra, os homens sempre estarão fadados a viver em trevas, mortos em seus delitos e pecados (Ef 2:1).

As Escrituras como bússola. Talvez uma das passagens mais curiosas e emocionantes dos evangelhos, o trecho de Lucas 24:13-27 é usado por Vanhoozer para a exposição da segunda metáfora. Trata-se do diálogo do Senhor Jesus com dois discípulos caminhando em direção a uma aldeia chamada Emaús, um tempo depois da crucificação. Um deles se chamava Cléopas. Quando o Senhor se aproximou, eles conversavam sobre os últimos acontecimentos e a princípio não o reconheceram, pois “os olhos deles, porém, estavam como que fechados” (Lc 24:16). Somente depois, quando os seus olhos foram abertos, é que se deram contam de que Aquele que caminhava com eles era o Senhor. “E começando por Moisés, e por todos os profetas, explicou-lhes o que Dele se achava em todas as Escrituras” (Lc 24:27). Ao comentar essa passagem, Vanhoozer afirma que as Escrituras são um “tipo de mapa” na vida cristã:

A literatura sapiencial da Bíblia oferece um tipo diferente de mapa que diz respeito aos seres humanos no grande esquema das coisas. A Bíblia é como um atlas. É constituída de vários tipos de mapas literários, e só esses mapas são guias confiáveis para os discípulos que anseiam seguir o caminho de Jesus Cristo, Juntos, os vários mapas que compõem as Escrituras formam um atlas canônico (VANHOOZER, 2018, p. 107)

As Escrituras como script. Aqui Vanhoozer faz ressonância a sua obra O drama da doutrina, uma das grandes contribuições à mentalidade evangélica nos últimos anos. Há um aspecto teodramático na própria tecitura narrativa do evangelho, “como o script de uma peça — uma peça da Paixão — que os discípulos devem conhecer de cor a fim de tomar parte nela” (VANHOOZER, 2018, p. 109). No palco da redenção, os discípulos atuam conforme as diretrizes do Autor da peça, “o padrão cruz-e-ressurreição da vida de Jesus. A Bíblia é como um script na medida em que os discípulos encenam o que está em Cristo” (VANHOOZER, 2018, p. 109). O discipulado cristão pressupõe uma vida coerente com a narrativa bíblica.

Nessas três formas de cantar a Escritura, Vanhoozer convida os cristãos a fazê-lo de modo que o sola Scriptura seja entendido não simplesmente como mais um conceito da enciclopédia teológica, pois poderia resultar numa teologia em terceira pessoa, onde o texto bíblico se torna um mero objeto de estudo. Antes, o sola Scriptura “significa que a Bíblia descreve e é, em si mesma, um ingrediente do ato divino de fazer novas todas as coisas em Cristo pelo Espírito” (VANHOOZER, 2018, 109). Não foi por acaso que o Senhor aconselhou Josué a meditar na Lei do Senhor dia e noite (JS 1:8)


Referências

VANHOOZER, Kevin. Quadros de uma exposição teológica: cenas de adoração, testemunho e sabedoria da igreja. Trad. Fabrício Tavares de Moraes. Brasília, DF: Monergismo, 2018

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