O conceito de ortodoxia cristã na teologia canônico-linguística: uma proposta de superação dos reducionismos interpretativos por Kevin Vanhoozer

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Escrito por Mateus de Matos Nunesestudante do Programa de Tutoria 2020 – Turma Avançada


Introdução

O presente artigo visa a abordar a questão do reducionismo existente na compreensão do conteúdo da ortodoxia cristã, nas várias tradições teológicas decorrentes da Reforma Protestante. Nosso objetivo é discutir a proposta apresentada por Vanhoozer de uma ortodoxia dramática que possibilita a preservação da pluralidade de teologias confessionais encontradas na Igreja.

1. A teologia canônico-linguística em seu contexto

Kevin Vanhoozer, professor de teologia sistemática na Trinity Evangelical Divinity School, em Chicago, Estados Unidos, publicou em 2005 a obra “The drama of doctrine: a canonical-linguistic approach to Christian theology”. O livro veio a lume, em nosso país, somente em 2016, na tradução de Daniel de Oliveira, sob o título “O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã”.

Em o Drama da doutrina, Vanhoozer propõe um debate com a teologia linguístico-cultural e pós-liberal de George Lindbeck, apresentando uma nova abordagem teológica que compartilha a aceitação de muitos dos postulados da virada línguístico-cultural na filosofia, mas que diverge quanto ao lócus de autoridade final na comunidade cristã, que para Vanhoozer encontra-se na ação comunicadora da Trindade no cânon bíblico e não nas práticas habituais da comunidade, como quer Lindbeck (VANHOOZER, 2016, p. 114/115).

Embora o Drama da doutrina seja um texto bastante denso, em amplo diálogo com a filosofia contemporânea, com as teorias da dramaturgia e literária, pode-se afirmar que o leitmotif dessa obra encontra-se no teodrama de Hans Urs von Balthasar, na teologia linguístico-cultural de Lindeck e na teoria dos atos de fala, especialmente nos desenvolvimentos conceituais de J. L. Austin e John Searle.O resultado é um texto profundamente atual que resgata a relevância do sola scriptura para o cristianismo do século XXI, assegurando a cada teólogo que o cânon bíblico é o lugar privilegiado da ação comunicadora divina e o lócus final de autoridade para o povo de Deus, a comunidade da aliança.

2. Ortodoxias reducionistas: a teologia dramática em contraposição às teologias épica, lírica e retórica

Embora todas as igrejas resultantes direta ou indiretamente da Reforma Protestante afirmem ter na Bíblia as bases de sua teologia, de sua liturgia e de suas práticas, ainda existe uma ampla controvérsia sobre a natureza da doutrina cristã e sobre a maneira correta de entender aquilo que as Sagradas Escrituras verdadeiramente propõem.

Nesse contexto, a natureza da teologia pode ser expressa como doutrina épica, lírica ou retórica, que equivalem, no entendimento de Vanhoozer, àquilo que Lindbeck denominou de teologia propositivo-cognitivista, teologia expressivista-experiencial e teologia linguístico-cultural. Cabe aqui um melhor esclarecimento desses conceitos. Quanto à doutrina épica/propositivo-cognitivista, Vanhoozer diz:

Transposta para a teologia, a épica assume a forma de um sistema monológico que descortina sua história de uma perspectiva absoluta. Teologias sistemáticas assemelham-se à épica por parecerem escritas por narradores oniscientes e impessoais que não se situam em lugar específico algum. Muitas teologias, em seu zelo pela verdade universal, passam por cima da particularidade e diversidade das vozes bíblicas (e dos gêneros literários) que tendem a não se encaixar bem em um sistema escolhido. Isso é especialmente tentador para teólogos sistemáticos que, como Hegel, querem reformular representações bíblicas como conceitos teológicos. (VANHOOZER, 2016, p. 100)

Essa concepção da doutrina cristã é aquela que parece ter predominado nas igrejas protestantes históricas, diretamente originadas do movimento da Reforma Protestante, durante o período denominado escolasticismo protestante. Vanhoozer argumenta, ainda, que o problema com o propositivismo é sua tendência de desdramatizar a Bíblia e consequentemente a doutrina, pois retira o texto de seu contexto na ação comunicadora divina (VANHOOZER, 2016, p. 106).

A segunda concepção da natureza da doutrina cristã é denominada por Vanhoozer como doutrina lírica, trata-se da abordagem teológica expressivista-experiencial de Lindbeck. Quanto à ela, o teólogo estadunidense ensina:

As doutrinas na teologia lírica são “símbolos não informativos e não discursivos de sentimentos, posturas ou orientações existenciais”. Descrever a experiência com palavras não é tanto uma alegação de verdade, mas a satisfação da necessidade de autoexpressão. Hegel comenta que a lírica procura a “autoexpressão da vida subjetiva” e que “em vez de avançar para a ação, [a subjetividade] fica sozinha consigo mesma como introspecção (VANHOOZER, 2016, p. 106)

Essa concepção doutrinária é bastante conhecida no Brasil, podendo-se, com segurança, afirmar que se trata da abordagem teológica predominante na igreja evangélica brasileira.

Há também a teologia retórica que Vanhoozer compara à doutrina linguístico-cultural de Lindbeck. Essa teologia transpõe o significado do cânon bíblico para as práticas eclesiais, em cada contexto histórico-cultural, assim, o lócus final de autoridade passa a ser a própria Igreja. Como ele argumenta, é nesta abordagem que se nota com maior clareza os sinais da imersão nos postulados da virada linguística em filosofia, embora os teólogos e líderes cristãos que a praticam não estejam (na maior parte das vezes) conscientes de sua filiação a esta corrente. Nas palavras do próprio autor:

Sem que tenham se dado conta disso, muitos Evangélicos já fizeram a virada linguístico-cultural, embora as culturas das quais se apropriaram não fossem inteiramente santas. Práticas inspiradas mais em culturas de gestão, de terapia, de consumo e entretenimento caracterizam cada vez mais as Igrejas Evangélicas, tanto que elas correm o perigo de tornar-se a autoridade de facto, se não de jure, para o estilo de vida Evangélico. O próprio Jesus continua popular, com certeza; seu estilo cruciforme, nem tanto. (VANHOOZER, 2016, p. 43)

A acusação que Vanhoozer faz a esse tipo de teologia retórica é bastante séria, mas o diagnóstico não poderia ser mais preciso. A prática dessa abordagem teológica pode facilmente ser atestada em um mero passeio pelas principais ruas das cidades brasileiras ou pela frequência aos cultos públicos de muitas das igrejas da moda, encontradas no Brasil.

Portanto, cada uma dessas abordagens implica em um tipo de reducionismo, pois o conteúdo do cânon não pode ser resumido a um conjunto de proposições, a um repertório de experiências subjetivas ou a uma gramática das práticas cristãs. 

Em contraposição a todos esses reducionismos, Vanhoozer apresenta sua teologia canônico-linguística como uma teologia dramática, uma abordagem que valoriza a diversidade de gêneros textuais encontrados no cânon, com a compreensão de que a Bíblia é o lócus final de autoridade divina e testemunha da ação dramática de Deus ao longo da história e, principalmente, na Igreja.

A proposta da abordagem canônico-linguística, como uma teologia dramática, almeja englobar tanto o saber corretamente quanto o agir corretamente seguindo-se o conteúdo canônico, nesse sentido, o autor esclarece: “O resultado esperado da teologia canônico-linguística é nada menos do que o elo que faltava entre a crença correta (ortodoxia) e a prática sábia (ortopraxia): juízo correto (orthokrisis)” (VANHOOZER, 2016, p. 47).

3. A importância das tradições teológicas da Igreja para a ortodoxia cristã

Vanhoozer esforçou-se para demonstrar, em O drama da doutrina, que o foco da compreensão sobre a natureza da doutrina cristã (ortodoxia) deve estar no modo como Deus fala e age no cânon bíblico e como a Igreja deve entender corretamente o significado dessa ação e dela participar.

A proposta de Vanhoozer longe de implicar em uma desvalorização das tradições interpretativas cristãs, na verdade, termina reafirmando o valor das diversas ênfases encontradas na teologia dos credos históricos e nas teologias confessionais. O autor esclarece como as decisões tomadas nos Concílios de Niceia e Calcedônia foram importantes para a identificação das personagens do teodrama, e assim a Igreja pôde repelir as heresias que ameaçavam sua participação no drama em cena.

Essa valorização das formulações históricas da teologia cristã é explicada pela necessidade de continuidade na encenação do drama canônico e pela crise de certeza da correção das práticas eclesiais, que ocorreria em consequência de seu abandono:

Nenhuma igreja local é o primeiro grupo a procurar fazer encenações criativas e fiéis de seu roteiro sagrado. Participar do drama da doutrina é envolver-se em um debate de séculos sobre o sentido das Escrituras e sobre a melhor forma de corporificá-lo. A teologia dos credos proporciona uma “direção católica”: direção para compreender o teodrama e dele participar, mas uma direção aceita por “toda” a Igreja. (VANHOOZER, 2016, p. 464)

Mas, além da necessidade de concordância universal (católica) sobre a identidade das dramatis personae que compõem o teodrama do qual toda a comunidade cristã participa, Vanhoozer também sustenta a importância das teologias confessionais, abordagens essas com ênfases diversas, relacionadas aos muitos contextos históricos e culturais que a Igreja encontra pelo mundo.

Nota-se, então, que a abordagem canônico-linguística não identifica as teologias confessionais, desenvolvidas especialmente nos séculos XVI e XVII, com as abordagens de tipo propositivista-cognitivista. Pelo contrário, observa-se o grande apreço que o autor tem pelos teólogos da Reforma, especialmente por Calvino, dado o número expressivo de citações do reformador genebrino, encontradas ao longo da obra aqui analisada.

Nesse sentido, Vanhoozer esclarece que, embora a subscrição de uma teologia confessional seja importante, cumpre-nos diferenciar uma confissão de fé específica da posse efetiva da verdade:

É possível alguém endossar com entusiasmo a teologia reformada, por exemplo, porque está convencido de que a voz dessa tradição precisa ser ouvida e tem algo de importante e diferenciado para dizer à igreja católica, mas, ao mesmo tempo, reconhecer que a teologia reformada é uma confissão, não uma posse, da verdade de Jesus Cristo. (VANHOOZER, 2016, p. 467)


Conclusão

Como vimos, a proposta apresentada pela teologia canônica-linguística abre espaço para a preservação da pluralidade ortodoxa da Igreja e para a manutenção de sua unidade na diversidade, desde que afastados os reducionismos propositivista, experiencialista e retórico, na compreensão da natureza da doutrina cristã.

Referência bibliográfica

VANHOOZER, Kevin J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Tradução de Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016.

1 comment

  1. Cinthia Luiza de Moraes Nunes Eustáquio

    Que matéria interessante de uma valia inestimável
    Parabéns pela matéria que venham mais assim.

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