Doutrina para a vida

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 A doutrina cristã nos orienta no caminho da verdade e da vida e, portanto, é nada menos do que uma receita para a realidade.

Kevin Vanhoozer

Podemos compreender melhor o presente se conhecermos as suas raízes no passado.

Earle Cairns

Certa vez um teólogo comparou os cristãos contemporâneos a civis que não conhecem muito bem a história da própria nação. O que Roger Olson estava apontando, em História da teologia cristã, era que se séculos atrás o interesse pela doutrina era levado em alta conta, hoje o cenário parece ser um tanto diferente, para não dizer o oposto. Muitos cristãos simplesmente desconhecem ou pouco sabem a respeito da história do povo de Deus, povo do qual faz parte, e o que Ele fez ao longo de dois mil anos para preservá-lo na verdade. Afinal, por que cremos naquilo que cremos? Essa é uma pergunta de suma importância.

Mas é uma questão que não envolve uma preocupação meramente intelectual para com a doutrina cristã, “o que a igreja de Jesus Cristo acredita, ensina e confessa com base na palavra de Deus” (PELIKAN, 2014, p. 25). A doutrina não se reduz a um conjunto de proposições, e a vida cristã não exige uma erudição em teologia histórica. O ponto que Olson está levantando é o de que, hoje, de forma preocupante, boa parte das pessoas que se professam cristãs demonstram pouca familiaridade com as raízes históricas de suas crenças mais fundamentais. Por que cremos naquilo que cremos?

Às vezes, o acerto doutrinário e teológico tem importado demais. Nos nossos dias, porém, parece que o pêndulo já chegou à extremidade oposta, já que muitos cristãos sabem pouco ou nada a respeito das doutrinas cristãs ou de como e por que se desenvolveram. O cristianismo está correndo o risco de se tornar uma religião folclórica de culto terapêutico e sentimentos pessoais. (OLSON, 2001, p. 18)

A mesma preocupação é expressa pelo teólogo Kevin Vanhoozer em O drama da doutrina, ao iniciar o livro destacando o apontamento do sociólogo Alan Wolfe de que “a doutrina já não desempenha nenhum papel expressivo na vida e no pensamento dos cristãos comuns” (VANHOOZER, 2016, p. 11). Por que a doutrina cristã muitas vezes parece algo tão abstrato, maçante e aparentemente sem conexão com a realidade? Essa é a pergunta que Vanhoozer levanta e, a despeito da precisão da análise de Wolfe, um ponto que merece atenção e explica, segundo Vanhoozer, este cenário, é o de que “para muitos em nossa era pós-moderna, “sentir é crer”, e enunciar crenças sob a forma de doutrina é considerado desnecessário, impossível ou causa de discórdia” (VANHOOZER, 2016, p. 11).

É evidente que a doutrina não nega os sentimentos como parte importante da vida cristã, e jamais deveria haver uma dicotomia nesse sentido, como bem nos mostra Jonathan Edwards em Afeições religiosas. O que está em questão é o problema do reducionismo. É necessário trazer à memória o significado e a importância da doutrina como elemento fundamental na cosmovisão cristã:

A doutrina cristã é necessária para o ser humano florescer. Só ela nos mostra quem somos, por que estamos aqui e o que devemos fazer. O estereótipo da doutrina como elemento seco e empoeirado representa uma decrépita distorção da realidade, esta, sim, valente e estimulante. A doutrina lida com energias e eventos tão reais e poderosos quanto qualquer coisa conhecida em química ou física, energias e eventos que podem virar o mundo que conhecemos de cabeça para baixo, energias e eventos em que estamos enxertados como participantes com papéis que envolvem ação e discurso. (VANHOOZER, 2016, p. 13)

Talvez o leitor pouco tenha ouvido falar de nomes como Justino Mártir, Tertuliano, Orígenes, Clemente de Alexandria e Atanásio, embora figuras muito importantes na história da formulação das principais doutrinas cristãs. A metáfora de que hoje caminhamos sobre ombros de gigantes se aplica perfeitamente ao nos referirmos a eles. São nossos antepassados na galeria da história do povo de Deus. Conhecer suas histórias e o que fizeram em defesa do evangelho é um exercício de compreensão do porque as crenças têm importância, é um meio de conhecer melhor a nós mesmos.

Como disse um outro teólogo, nosso entendimento do presente se torna mais refinado à medida que conhecemos melhor as suas raízes no passado.


Referências

OLSON, Roger. História da teologia cristã: 2000 anos de tradição e reformas. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Editora Vida, 2001.

PELIKAN, Jaroslav. A tradição cristã: uma história do desenvolvimento da doutrina – o surgimento da tradição católica 100-600, volume 1. Trad. Lena Aranha e Regina Aranha. São Paulo: Shedd Publicações, 2014.

VANHOOZER, Kevin. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Trad. Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016.

1 comment

  1. Sidney

    Infelizmente vivemos um tempo onde o imediatismo tem prevalecido. O hoje, agora e prá já fazem parte da nossa sociedade atual e a igreja não tem ficado de fora disso. Refletir, pesquisar e saber os porquês disso ou daquilo leva tempo e quem deseja perder tempo em um mundo que super valoriza a rapidez? Talvez, seja por isso que temos uma geração de cristãos tão frouxos e água com açúcar (me incluo) que vive de sentimentos e não de certezas.

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