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Fé que pensa, razão que sente: o anti-dualismo agostiniano como princípio doxológico para a vida

Escrito por Daniel Simões, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2022


Introdução

A análise de uma realidade é estabelecida a partir do problema que a configura no momento. Esse movimento pode, muitas vezes, desconsiderar seu status inicial, quando ainda não havia algo a ser problematizado. A compreensão dessa formulação é importante, pois observar o ponto de onde um analista observa uma realidade determinará se ele a conceitua a partir da sua gênese ou da sua problematização posterior.

Não é novidade o movimento dualista que tenta empurrar para polos opostos a fé e a razão, bem como o pensamento e o sentimento. Contudo, é necessário questionar a legitimidade de tal ação, verificar sua plausibilidade e discernir seus motivos. O presente ensaio se propõe justamente a demonstrar a mentalidade agostiniana de reconectar tais aspectos na tentativa de afirmar ser esse o meio de construir uma vida doxológica àquele que estabeleceu tais termos e maneiras.

Nada novo

É eufêmica a declaração de que a sociedade tem postura pouco otimista em relação à fé. Geralmente, ela é associada a disposições desprovidas de racionalidade. É coerente reconhecer que “para a mente secular, razão e fé são antitéticas, sendo a primeira boa e, a segunda, intelectualmente desonesta”1. Não bastasse a percepção externa, há de se considerar que tal postura se espraia para dentro do ambiente religioso, que, ao ecoar a mentalidade da sociedade, parece justificar todo tipo de bizarrice pelo fato de a fé se expressar de maneiras afastadas da razão. Embora vejamos tal tendência operando em nossos tempos, há pouca novidade nela.

É raro ver mente e coração caminhando juntos. Por isso, ficamos maravilhados diante da personalidade imponente de Santo Agostinho, que passou toda sua vida lutando entre a influência do intelecto e a influência do coração, mas que representa melhor do que ninguém a integração dos dois2.

O avançar dos dias só torna ainda mais premente a necessidade de reconciliar o que o passado tratou de divorciar. Ao concordar com Agostinho em relação à íntima conexão entre fé e razão, é possível concluir que a filosofia se torna a exploração racional do conteúdo da fé3.

Retornar, não reformar

É interessante perceber o contrassenso de Agostinho, pois num momento da história em que padres fazem tratados de razão e tratados de fé como obras distintas, ele concebe a conexão entre ambas.

Sire contribui ao afirmar que “coração e mente já estão juntos no modo que Deus nos formou. Independente do que formos, somos efetivamente um em nosso ser”4. A anomalia, nesse sentido, consiste em separar aquilo que fora concebido em unidade, de modo que há sabedoria em retornar aos trilhos iniciais.

Ainda nessa direção, faz sentido concordar que “quando o tempo deixar de existir, nosso ser, aperfeiçoado e glorificado, reunirá em perfeita harmonia um coração, uma mente e um corpo aperfeiçoados — bem como qualquer outro aspecto de nossa natureza humana”5.

Confusão aparente, coerência afirmada

Não é sem razão, então, a aparente confusão de termos nos escritos de Agostinho. De maneira muito intencional, o filósofo relaciona posturas conceituadas como discrepantes. Ao tratar do sentido de sua confissão, ele afirma ser feita “não com palavras e com a voz do corpo, mas com o grito interior da alma e com o clamor do pensamento, que teus [de Deus] ouvidos já conhecem”6.

A ação, mesmo que comum à alma e ao pensamento, é registrada de maneira distinta, mas não com o propósito de separar, e sim de espelhar, mostrando a similaridade da atividade. Agostinho parece conceber uma realidade interior no homem ainda que composta por múltiplas facetas, sendo elas consonantes. Ao andar nessa direção, ele ainda reforça essa característica una da interioridade. Ele diz: “somente em ti posso reunir todos os pensamentos dispersos, e nada de mim se afasta de ti. E tu às vezes me introduzes num sentimento interior totalmente desconhecido, inexplicavelmente doce”7.

Embora sejam as confusões dos pensamentos de Agostinho o apresentado para Deus, o que lhe é retornado não são pensamentos, mas sim sentimentos. Ao conectar tais elementos, o que se vê é toda a realidade interior como alvo do movimento de devoção, como a expressão da fé e, mais ainda, como alvo da atuação daquele a quem a vida está devota e em quem a fé é posta.

Um passo anterior

Os passos que compõem essa argumentação ainda precisam ser mais elucidados, pois partem da premissa da fé para a sua compreensão, de modo que a dificuldade em entender pode ser justificada pela resistência em crer. Não sem razão, a fé em Agostinho torna-se a porta de acesso para o conhecimento:

A fé não apenas é geralmente chamada de conhecimento, mas não pode haver conhecimento, no sentido estrito, sem a fé. Todo conhecimento começa com a nossa fé. Nossos pais e mestres nos contam coisas nas quais nós cremos. Mais tarde na vida, poderemos ponderar sobre tais informações. Mas não poderemos obter o entendimento posterior sem a precedência da fé.8

A ordem dos fatos aqui é importante. Agostinho propõe uma formulação que, posteriormente, foi utilizada por Anselmo: credo ut intelligam — creio com o propósito de entender. Pode-se, assim, conceber que a compreensão como objetivo está acima da fé como ponto de partida, mas a partida precisará ocorrer. 

Por isso, ao lidar com a possível incompatibilidade entre fé e razão, Clark contribui dizendo que só vê as duas realidades em oposição, “os autores que definem de maneira diferente, e assim não estarão falando sobre a mesma coisa, ou aqueles que não se preocupam com tal definição e, portanto, sequer sabem sobre o que estão falando”9.

Um terceiro elemento

Nesta altura, um terceiro elemento é necessário para fechar a equação. Uma interferência é fundamental, a saber, a revelação, motivo pelo qual “Agostinho acreditava plenamente que a fé na revelação de Deus é prévia à razão humana. Mas Agostinho também sustentava que ninguém em tempo algum acredita em alguma coisa antes de ter alguma compreensão daquilo em que deve crer”10.

Foi nessa trilha que Agostinho sustentou o fato de que a fé é o caminho para o entendimento, mas também que o entendimento é a recompensa da fé. Geisler elucida: O galardão da aceitação da revelação de Deus pela fé é que a pessoa tem um entendimento mais pleno e completo da verdade do que poderia ter de outra forma”11.

Assim, temos uma relação entre razão e revelação que outorga um adequado papel para cada expressão e as inter-relaciona. O raciocínio precisa se dar a respeito da revelação e em sua direção, do contrário será vista uma fé sem fundamento. De igual modo, a razão fica desprovida de norte sem uma revelação e acaba por colidir com o erro12.

Conclusão

A mentalidade agostiniana é fruto de sua perspectiva sobre a vida de Jesus. Dulci contribui ao elucidar o parecer de Smith, que aponta a necessidade de se conhecer a partir do coração. Segundo ele, Jesus não se limita à introdução de novas ideias na mente de seus seguidores, “mas foca em nossos amores, anseios e vontades. Seu ensino não se limitaria a tocar o espaço de reflexão e contemplação de forma calma, fria e autocontrolada”13.

Para pisar nas pegadas de Agostinho e, assim, desenvolver uma devoção holística de si para Deus, faz sentido reproduzir sua oração em que, seguida da afirmação do seu amor por Deus, implora por cura, capacidade de compreensão e proximidade com o Mestre:

“Amo somente a ti, sigo somente a ti, busco somente a ti, estou disposto a servir somente a ti e desejo estar sob tua jurisdição, porque somente tu governas com justiça. Manda e ordena o que quiseres, mas sana e abre meus ouvidos para ouvir tuas palavras; sana e abre meus olhos para enxergar os teus acenos. Afasta de mim a ignorância para que te reconheça. Dize-me para onde devo voltar-me para ver-te e espero fazer tudo o que mandares. Suplico-te, recebe teu fugitivo, Senhor e Pai clementíssimo; já sofri muito; já servi demais aos teus inimigos, os quais sujeitas sob teus pés; por muito tempo fui ludibriado por falácias. Recebe-me, que sou teu escravo fugindo deles, que me receberam, estranho a eles, quando eu fugia de ti. Sinto em mim que devo voltar a ti. Abra-se tua porta para mim, que estou batendo. Ensina-me como chegar a ti. Nada mais tenho que a vontade. Nada mais sei senão que se deve desprezar as coisas passageiras e transitórias e procurar o que é certo e eterno. Faço-o, Pai, porque é a única coisa que sei; porém, ignoro como chegar a ti. Ensina-me, mostra-me, oferece-me as provisões para a viagem. Se é com fé que te encontram os que se refugiam em ti, dá-me fé; se é com a força, dá-me força; se é com ciência, dá-me ciência. Aumenta em mim a fé, aumenta a esperança, aumenta o amor. Ó admirável e singular bondade tua!”14.


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1 CLARK, G. H. De Tales a Dewey. Tradução de Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. p. 193.

2 SIRE, J. W. Hábitos da mente: a vida intelectual como um chamado cristão. Tradução de James Reis. São Paulo: Vida Nova, 2021. p. 190.

3 CLARK. op. cit., p. 193.

4 SIRE. op. cit., p. 191.

5 Ibid.

6 AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona. Confissões. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1997. p.270. Grifo nosso com o objetivo de destacar a unidade de conceitos aparentemente dissociados.

7 Idem. p. 322. Grifo nosso com o mesmo objetivo supracitado.

8 CLARK. op. cit., p.193.

9 Ibid.

10 GEISLER, N. L. Introdução à Filosofia: uma perspectiva cristã. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2016. p. 273.

11 Ibid.

12 Ibid., p. 278.

13 DULCI, P. L. Inteligência pra quê? Como usar seu cérebro para a glória de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2019. p. 67.

14 AGOSTINHO. Solilóquios: a vida feliz. Tradução de Adaury Fiorotti. São Paulo: Paulus, 2016. pp. 19-20.


Referências bibliográficas

AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona. Confissões. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1997. 401 p.

______________________. Solilóquios: a vida feliz. Tradução de Adaury Fiorotti. São Paulo: Paulus, 2016. 168 p.

CLARK, G. H. De Tales a Dewey. Tradução de Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. 480 p.

DULCI, P. L. Inteligência pra quê? Como usar seu cérebro para a glória de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2019. 176p.

GEISLER, N. L. Introdução à Filosofia: uma perspectiva cristã. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2016. 464p.

SIRE, J. W. Hábitos da mente: a vida intelectual como um chamado cristão. Tradução de James Reis. São Paulo: Vida Nova, 2021. 272 p.