Filosofia e Teologia: uma proposta pastoral de unidade

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Escrito por João L. Uliana Filho, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

“A opinião de que se pode passar da exegese diretamente para a pregação, sem a intermediação da reflexão teológico-sistemática, é enganosa” (PANNENBERG, 2008: 10). Segundo o teólogo sistemático Wolfhart Pannenberg, a necessidade de um juízo teológico-sistemático (ou, teológico-filosófico) é fundamental para a proclamação cristã. Tal juízo deve, segundo ele, conectar a exegese, a filosofia, a história do dogma e a própria teologia, no mesmo empenho de anunciar a mensagem do evangelho.

Fazendo uso deste conceito de Pannenberg, bastante explorado na obra “Filosofia e Teologia – tensões e convergências de uma busca comum”, vamos refletir sobre como o Dr. Guilherme Braun, em, “Um Método Trinitário Neocalvinista de Apologética”, encontra uma base comum para a teologia e para a filosofia enquanto ferramentas sólidas e indispensáveis da proclamação da graça do Evangelho de Jesus Cristo, de maneira abrangente à toda a realidade da experiência humana.

1. LADOS OPOSTOS?

Teologia e Filosofia no Ocidente, não só no entendimento comum, mas também entre muitos teóricos que atuam de ambos os lados, representam disposições opostas em uma disputa por um espaço proeminente de conhecimento e veracidade. Não há espaço aqui para traçar um desenvolvimento histórico desta oposição, dificílima de se fazer, mas, tão logo o jovem estudante se aventura por um desses caminhos, cedo se depara com entraves que parecem sem solução, restando apenas a opção de escolher um dos lados e seguir fiel em sua escolha.

Em geral, entende-se que filosofia e teologia atuam a partir de pressupostos distintos e mutuamente excludentes. Enquanto a teologia pressupõe a existência de Deus e sobre esta assertiva ressoa e constrói seu pensamento baseado no que pode-se denominar Palavra-Revelação (inspirada, encarnada e criativa), a filosofia, especialmente após o iluminismo, atua a partir de uma pretensa autonomia do pensamento. Esta é a grande conquista da era das luzes que permitiu à humanidade desenvolver-se a si própria a partir de si mesma, com total liberdade de pensamento, como ciência pura; não manchada pela dogmática religiosa.

Entretanto, ao nos voltarmos para as origens tanto da reflexão religiosa quanto da filosofia, veremos que seus caminhos se cruzam mais do que gostariam os modernos. A teologia e a filosofia tratam, por si mesmas, da mesma questão. E isso estava claro na antiguidade, visto que, “falar de Deus significa falar da origem criacional de tudo o que é real” (PANNENBERG, 2008: 10).

Ao tratar da questão, Guilherme Braun diz que “A fim de combinar teologia e filosofia de maneira não reducionista, a apologética deve considerar a interação dinâmica dos momentos de significado finais (teológicos), bem como momentos de significado específicos (filosóficos)” (BRAUN, 2019: 65). Isso porquê o distanciamento entre filosofia e teologia reduz ambas as áreas aos seus aspectos individuais, o que causa uma compreensão no mínimo insuficiente de ambas. Foi o que a modernidade fez quando elegeu a razão autônoma como paradigma da existência humana – cogito ergo sum! Na dinâmica apresentada por Braun, filosofia e teologia tratam de significados distintos, mas unidos em uma base comum.

2. A DISTINÇÃO CRIADOR-CRIATURA E A OBRA DA TRINDADE

A filosofia reformacional, especialmente na figura de Herman Dooyeweerd, demonstrou sabiamente que a razão não possui a autonomia que a modernidade após Kant tanto celebrou. Sua crítica ao transcendental ao pensamento teórico mostrou a insuficiência deste, e apontou para o ego transcendental religioso como centro da atividade humana. A verdade é que a razão está entre as possibilidades de experiência da realidade, e não acima dela. Conforme nos ensina David Naugle, “A primeira tarefa da filosofia cristã, de acordo com Dooyeweerd, é expor a condição religiosa que é determinante de toda atividade teórica e todo empreendimento cultural” (NAUGLE, 2017: 54). Para Dooyeweerd, o ego transcendente – coração, em linguagem bíblica – é o centro religioso estrutural do ser humano, que dirige o conhecimento em qualquer outro nível.

Ao notar que “o ego está sujeito à lei central da comunhão religiosa” (BRAUN, 2019: 109), podemos avançar a questão para a distinção entre Criador e Criatura, ou seja, que o compromisso religioso do coração humano é a estrutura que fundamenta a direção que este mesmo ego apontará em todos os aspectos da experiência temporal. Esta é a condição da criatura distinta de seu Criador, e que está sempre inclinada à sua Origem, (i) o Deus que se revela, ou, (ii) de maneira apóstata, na absolutização de algum aspecto da realidade, o que constitui a idolatria – exatamente o que a filosofia moderna fez com a razão. Tanto a filosofia, quanto a teologia, podem ser matéria de absolutização. É preciso que o filósofo/teólogo seja transformado desde o coração pela ação do Espírito Santo, para que atuem debaixo da plena Revelação de Deus. 

A Revelação, ação de Deus no cosmo, conforme entendeu a teologia do pacto e para a qual aponta a filosofia reformacional, se dá através dos termos da Trindade. Somente isso pode sustentar o conceito cristão mais abrangente da realidade, também da fé e do conhecimento. A ação de Deus para a criação e redenção do cosmo é a base teológico-sistemática (retomando a inquirição de Pannenberg) sobre a qual se reúnem teologia e filosofia. Onde todas as coisas são redimidas e convergem para um único plano, o do Deus Criador manifesto através das obras da Trindade.

3. POR UMA PASTORAL APOLOGÉTICO-FILOSÓFICA

Até aqui traçamos um caminho não de mera reconciliação entre teologia reformada e filosofia reformacional (que muitas vezes na história aconteceu como alguma espécie de adequação), mas seguindo Guilherme Braun em sua importantíssima obra, encontramos uma base sólida para fundamentar tanto uma quanto a outra; temos aqui um reflexo desta obra. A base comum de ambas está na ação do Deus Triúno, supremo Criador, sobre todo o cosmo – incluindo os seres humanos.

A “distinção Criador-criatura, como unidade entre filosofia e teologia […] dependentes da Palavra-Revelação divina […] é, em última instância, dependente da obra do Deus triúno” (BRAUN, 2019: 239). Esta perspectiva amplia o horizonte das disciplinas, não esmorecendo sobre nenhuma espécie de reducionismo, nem sobreposição de uma ou outra, mas ambas sadias e atuantes para a glória de Deus.

Com isso posto, a demanda colocada por Pannenberg aponta para o que podemos chamar de uso pastoral da filosofia e da teologia, na qualidade de instrumentos do expositor bíblico. Conforme apontado na introdução, não desejamos passar da exegese bíblica para sua exposição pastoral sem passar pela reflexão crítica teológico-sistemática, o que certamente dará ao expositor, subsídios autênticos da Palavra-revelação divina.

Primeiramente, como apontamos, é necessário falar em uma filosofia reformacional, ancorada na Trindade. Sem isso, o risco para o expositor é de aderir a qualquer escola filosófica que lhe pareça agradável e revesti-la de argumentos cristãos. Em seu interior, contudo, o pacote filosófico apóstata permanece, o que redunda em desvios liberais de todos os tipos.

Em segundo lugar, é importante salientar que o teólogo – talvez por receio de cair nas mãos do exemplo anterior – não deve excluir da tarefa teológica a reflexão filosófico-sistemática, uma vez que isso acarretaria em dogmatismo, fideísmo e fundamentalismo, além de uma provável superficialidade e pobreza exegética.

A primeira questão foi apontada por Van Til em relação a filosofia reformacional de Herman Dooyeweerd, enquanto que a segunda questão foi levantada por Dooyeweerd em relação a apologética reformada de Van Til. Quanto a isso, a obra de Braun trouxe uma aproximação formidável, levando em conta a genialidade de ambos, chamando outros personagens de destaque para a reflexão como os teólogos Hendrik G. Stoker e James H. Olthuis, e apontando uma direção de possibilidade apologética trinitária abrangente o suficiente para vislumbrarmos seu alcance prático na proclamação do Evangelho de Jesus Cristo.

O coração regenerado aponta para o motivo básico bíblico (linguagem de H. Dooyeweerd), criação, queda e redenção, o que constitui a ampla atividade da Trindade. Esta perspectiva dá coesão ao trabalho teológico: os significados finais do cosmo criado; e a atividade filosófica: significados específicos do mesmo cosmo. As ferramentas, desde o coração humano regenerado, apontam para a direção do Criador, e podem participar da vida não mais de maneira analítica ou utilitarista, mas ontológica, naquele que constitui-se para nós como o Deus Pai Criador, onde atua também o Deus Filho Redentor, e do mesmo modo age o Deus Espírito Santo Regenerador.

Em última instância o Homem depende de Deus, e isso contraria qualquer espécie de autonomia do pensamento, ou, uso utilitário das fontes da Revelação. O convite cristão à fé não é um chamado à intelecção, contemplação ou abstração filosóficas, mas um aceno à participação naquilo que o Deus Triúno está realizando na criação. Vejamos o que Braun diz sobre isso: 

“o motivo religioso (inclinação do coração) determina a resposta humana à revelação da Palavra de Deus: a revelação radicalmente diversa e coerente da criação (e qualquer coisa relacionada à experiência cósmica do homem), a encarnação do Filho de Deus como ponto de convergência da diversidade do cosmo e redentora da intersubjetividade do homem na relação com Deus, consigo mesmo e com o outro – reflexo da imago Dei – e reconcilia o homem com a Origem absoluta, seu Criador e Redentor.” (BRAUN, 2019: 213)

CONCLUSÃO

A prática pastoral, que inclui a exposição bíblica em todas as instâncias – apologética, ensino, aconselhamento, entre outras – precisa fundamentar todo o juízo teológico-sistemático na Trindade, não apenas como método analítico, mas como chamado à fé, que redime todo o pensamento teórico, a partir da redenção do coração humano, e deste para todo o cosmo. 

O trabalho é de dentro pra fora. E a prática pastoral serve, atua e participa da glória do Deus Triúno, não de ídolos projetados, mas naquele que não está longe, “no qual vivemos, nos movemos e existimos” (cf. At 17: 27 – 30).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAUN Jr., Guilherme. “Um Método Trinitário Neocalvinista de Apologética: Reconciliando a apologética de Van Til com a filosofia reformacional”. Tradução Marcelo Lemos. Brasília/DF: Academia Monergista, 2019.

NAUGLE, David K. “Cosmovisão: a história de um conceito”. Tradução Marcelo Herberts. Brasília/DF: Editora Monergismo, 2017.

PANNENBERG, Wolfhart. “Filosofia e Teologia: tensões e convergências de uma busca comum”. Tradução Nélio Schneider. São Paulo/SP: Paulinas, 2008.



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