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Guardando e Cultivando: uma relação entre isolamento e comunhão no engajamento cultural

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Escrito por Marlon Girardello, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2021

“Começa pelo estar a sós com Deus…”

Henry J. M. Nouwen

INTRODUÇÃO

Há uma tensão que percorre toda a história da Igreja de Cristo quanto ao engajamento cultural. A discussão entre perspectivas se torna mais presente com o avanço da perspectiva que o mandato cultural dado por Deus para Adão (Gn 2:15) ainda é válido para os cristãos no século XXI. Entretanto, ao mesmo tempo que abordagens que dialogam com a cultura avançam, se faz necessário colocarmos um alicerce quanto às posições da Igreja em relação à cultura. A espiritualidade daqueles que estão expostos precisa ser alicerçada, construída e vivenciada nas Escrituras, diante de Deus.

Partimos de que as questões culturais são complexas porque as pessoas envolvidas são holísticas e vivem em comunidades multifacetadas, com problemas interligados[1]. É necessário primeiramente entender o contexto para podermos definir a maneira que responderemos as demandas. A melhor forma de combater esse espírito mundano não é se afastar do mundo, mas ser cheio do Espírito Santo[2]. Não se trata de termos respostas prontas, mas de sabermos encenar o drama atual olhando para as Escrituras. 

Com vista nisso, voltamos no tempo e lembramos de um período marcante para a história: a Idade Média. Mais especificamente para o movimento que ficou conhecido como monasticismo. Olhando o passado com vistas para presente e futuro, quais contribuições podemos retirar desse tão relevante movimento?

PROTEGENDO OS ALICERCES

A filosofia sofreu duros golpes a partir do século V, conforme afirma Gordon Clark: “Em tempos de guerra, pobreza, fome e anarquia, a filosofia não floresce”[3]. Um ambiente hostil tornou a produção filosófica escassa e mudou os rumos desse desenvolvimento. As escolas pagãs em Atenas foram fechadas e os filósofos desalojados partiram para a Pérsia. Foram muito bem acolhidos pelo rei, porém adentraram em uma cultura que era incestuosa e poligâmica. Isso os fez voltar para casa e cair no esquecimento. Alguns por lá ficaram conjuntamente com aqueles que haviam sido combatidos pelos concílios devido aos seus ensinos heréticos (arianos e nestorianos). A filosofia na Pérsia desapareceu no final do século X. O eixo filosófico foi mudado por vários séculos, algo que pouco se fala, mas que possui grande impacto na Idade Média, no Escolasticismo e até os dias atuais.

Em meio às guerras que continuavam no século VI e depois, a Igreja foi quem preservou o que sobrevivera à cultura da Roma antiga. As instituições eclesiásticas criaram uma estrutura sólida que possibilitaria, em tempos futuros, o resgate do saber e das artes civilizadas[4]. Neste período houve uma atividade que foi determinante para a preservação da espiritualidade, dos escritos e traduções: o monasticismo. O movimento em si iniciou no século IV, ganhou ainda mais importância no século V e se consolidou no século VI. Em meio a uma sociedade corrupta e depravada não era mais possível guardar a Palavra e se manter no meio da “cidade dos homens”.

O monasticismo no início foi um movimento espontâneo, extrínseco à organização da igreja[5]. Porém, a espontaneidade gerou vários problemas, desvios e desordem. Algo que foi mitigado quando os monges foram introduzidos na organização eclesiástica. Haviam problemas iniciais e práticas estranhas como a de considerar piolhos como sendo “pérolas de Deus” e sinal de santidade. Assim como se gabavam de que seus pés jamais haviam tocado água, exceto quanto tinham que atravessar rios. Entretanto, em séculos posteriores, os monges serviram a muitos objetivos úteis; eram agricultores hábeis, e alguns conservaram vivo, ou reviveram o saber[6].

O início não reflete a importância do movimento monástico para o cristianismo. Depois da Grande Comissão dos apóstolos, o monasticismo pode ser considerado o grande acontecimento institucional e perdurou por mais de um milênio. A grande preservação dos ideais elevados, nobres e verdadeiros do Evangelho foi feita por aqueles que escolheram a vida monástica. Neste contexto de organização e proeminência é importante pontuar o nome de Bento de Núrsia (480 – 547). Ele quem deu a forma decisiva e mais benéfica para o monasticismo. Estabeleceu pilares importantes em busca de preservar a centralidade das Escrituras, evitando assim práticas e ideias estranhas às Escrituras. Colocando a oração como o centro da vida cristã. Devido à grande influência neoplatônica, advinda de Clemente e Orígenes, houve essa dificuldade na retomada de uma visão genuinamente bíblica. Do ser humano como um ser holístico, tendo o corpo e a alma como uma unidade.

Apesar dos problemas do monasticismo, é inegável a sua importância quanto à tradução da Bíblia, preservação dos ensinos e o avanço da educação. Tendo como ponto nevrálgico a espiritualidade e as disciplinas espirituais. Eram comprometidos com a piedade, leitura da Palavra, confissão de pecados e comunhão entre si. Exerceram com profundidade a importante tarefa de “guardar” explícita no mandato cultural. Mas, e o cultivar, como foi executado?

A RACHADURA NA ESPIRITUALIDADE MONÁSTICA

A ideia da filosofia como algo ligado estritamente à razão é posterior ao movimento monástico.  Assim como para os gregos, o monasticismo tinha a filosofia como uma espiritualidade. A fé, a teologia e a filosofia fluíam do mesmo canal, não havia essa distinção mais demarcada que hoje enxergamos com maior facilidade quanto aos campos em que cada uma toca.

O isolamento para os monges foi de extrema importância para que o cristianismo fosse preservado como um todo. Porém, o movimento monástico abriu mão da comunhão do Corpo, do “ser luz do mundo e sal da terra” (Mt 5:13-14). A ideia de um separatismo é estranha aos preceitos bíblicos. Apesar de alguns serem relatados, como é o caso de João, o batista, que vivia no deserto. Uma das marcas da igreja do século I era justamente a comunhão, se reuniam todos os dias, partiam o pão, louvavam a Deus e tinham tudo em comum (At 2:43-47).

O ser cheio do Espírito é algo coletivo e não individual ou para algum tipo especial de pessoa. Os dons são expressos no coletivo para edificação da Igreja, o corpo do qual Cristo é o cabeça. O esvaziamento de si para que o Espírito encha se torna incompleto num contexto de isolamento, pois o objetivo do enchimento é que ele seja transbordado em comunhão.

Infelizmente, o ideal do isolamento como sendo uma prática mais espiritual ainda se faz presente nas igrejas atuais. Há uma hierarquia falaciosa que atribui maior valor ao silêncio (ou ao isolamento) do que a fala ou a escrita. Algo também estranho às Escrituras, pois os preceitos bíblicos denotam que essas práticas são complementares para a vida cristã.

DO ISOLAMENTO PARA A COMUNHÃO

Existe uma diversidade na história cristã, quanto a estratégia de engajamento no mundo. Possivelmente não existe um modelo único para todas as épocas e todos os lugares. Boa parte do engajamento cultural está baseada na sabedoria e na virtude, em vez de uma lista de regras ou num plano universal que podemos extrair da Bíblia[7]. Entretanto, há uma unidade nas Escrituras. Essa unidade proporciona uma base para que pensemos e vivamos o engajamento. Miroslav Volf concorda ao afirmar que não existe uma única maneira pela qual a fé cristã se relaciona e deve se relacionar com a cultura como um todo. A fé se opõe a alguns elementos da cultura e se mantém afastada de outros[8].

Antes de discutirmos a questão do engajamento cultural, precisamos dar um passo atrás e olhar as estruturas na qual esse engajamento está sendo alicerçado. O movimento monástico nos ajuda nesse sentido. Ele estabelece primeiramente uma espiritualidade viva e verdadeira antes de pensarmos que a cultura precisa ser redimida. A radicalidade monástica nos leva a pensar se não estamos domesticando o Evangelho de Cristo. Se não estamos mais preocupados com informações do que em uma vida cristã genuína digna de ser imitada, tanto na questão experiencial, como na questão intelectual. Será que estamos conseguindo discernir o que devemos guardar e o que devemos cultivar?

É necessário romper o isolamento e ir em direção às pessoas, ao mundo. Jesus antes de escolher seus discípulos, subiu ao monte e orou. Se isolou para ficar com o Pai. Após isso desceu ao monte e os escolheu. Moisés subiu ao monte com as tábuas da Lei, lá ficou por 40 dias isolado, depois desceu e falou o que o Senhor ordenara. Há um padrão que precisamos ter em vista, todo o isolamento tem que ser precedido de comunhão, de derramamento daquilo que o Senhor orientou no isolamento.

Há um medo em boa parte dos cristãos. Eles evitam escutar e interagir com as pessoas porque sabem que o risco de serem influenciados pela cultura em vez de influenciá-la é real. Esse medo é, em partes, gerado pela negligência do tempo de solitude que Deus nos chama a ter e que é tão presente nos monges. As virtudes (amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, gentileza e domínio próprio) são gestadas no isolamento e florescem na comunhão. No ser experimentado e moldado na relação com os outros.

O isolamento aliado à comunhão capacita os cristãos não a batalhar uma guerra cultural onde se busca o domínio, mas a serem presença fiel. Como parte do corpo, buscam ser relevantes em suas atuações para que o bem comum seja estabelecido. James Smith afirma que “não crê que a função da igreja seja transformar o mundo; antes, a comunidade eclesial, como testemunha e mártir, é chamada a mostrar ao mundo que ele é o mundo, ao vivenciar a personificação da comunidade humana em expressões concretas de uma economia do reino”[9]. O objetivo de uma espiritualidade que conecta o fator isolamento com o da comunhão é buscar uma obra cultural que não seja somente criacional, mas também cruciforme e encarnacional.

CONCLUSÃO

Contudo, com os seus erros e acertos, o monasticismo ainda é relevante aos nossos dias atuais e nos serve como inspiração. Uma análise crítica nos mostra que retendo o que é bom, podemos nos utilizar de uma estrutura monástica quanto aos princípios do isolamento e da radicalidade. Acrescendo a eles uma perspectiva mais abrangente que não apenas guarda, mas que cultiva culturalmente as dádivas divinas na “cidade dos homens” por meio da comunhão.


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[1] CHATRAW, 2021, p. 54.

[2] CHATRAW, 2021, p. 65.

[3] CLARK, 2012, p. 211.

[4] RUSSELL, 2015, p. 95.

[5] RUSSELL, 2015, p. 96.

[6] RUSSELL , 2015, p. 97.

[7] CHATRAW, 2021, p. 39.

[8] VOLF, 2018, p. 15.

[9] SMITH, 2018, p. 213.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHATRAW, Joshua D. Engajamento cultural: um curso intensivo sobre questões contemporâneas e as diferentes perspectivas cristãs; tradução Maurício Bezerra – 1.ed. – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.

CLARK, Gordon H. De Tales a Dewey. Tradução de Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

RUSSELL, Bertrand. História da filosofia ocidental – Livro 2: A filosofia antiga. Tradução de Hugo Langone – 2. ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

SMITH, James K. A. Desejando o Reino: culto, cosmovisão e formação cultura. Tradução de A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2018.

VOLF, Miroslav. Uma fé pública: como o cristão pode contribuir para o bem comum. Tradução de Almiro Pisseta – 1. ed. – São Paulo: Mundo Cristão, 2018.

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