Uma fé para a vida: sobre intencionalidade no ministério infantil

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Escrito por Ana Ester Correia Madeira Souza, estudante do Programa de Tutoria Invisible College – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

A fé cristã não pode ser reduzida à esfera pessoal ou religiosa, pois ela envolve a nossa existência como um todo. Ela faz parte da nossa vida em família, no trabalho, na igreja, enfim, de todas as esferas do nosso cotidiano. De acordo com Dooyeweerd (2018), o ser humano não pode ser estudado de maneira fragmentada, consequentemente, a fé não vale apenas para um aspecto de sua experiência, mas considera o homem (raça humana) como um todo.

Pensando dessa forma, conhecer a Deus na infância considera o ser humano como um todo e, principalmente, o quanto é fundamental para a vida de uma criança ser apresentada à fé cristã desde o início da sua existência. Ela desenvolverá virtudes que irão influenciar seus passos, suas decisões serão pautadas em princípios que honram a Deus e, consequentemente, abençoam ao próximo. Aqui, entra a importância da evangelização e do discipulado para qualquer idade, como meio para conduzir o coração do homem a Deus na sua caminhada.

Em certa medida, é maravilhoso constatar o crescimento das igrejas no Brasil. Os dados oficiais do IBGE, no último censo realizado em 2010, destacaram que o número de evangélicos no país seria em torno de 22%, número que está em constante crescimento e que poderá, nos próximos anos, chegar a quase 40% da população brasileira (BALLOUSSIER, 2020). No entanto, diante desses dados, surge uma problemática: tal crescimento parece não interferir no número de crimes cometidos pelos cidadãos brasileiros, sejam os de violência ou mesmo os de corrupção. O que, de fato, acontece?

Existe uma lacuna que não está sendo preenchida: é a lacuna do discipulado, é a transmissão e a semeadura de uma cosmovisão cristã que não fala só de aspectos religiosos, mas de uma forma de viver que glorifica a Deus. Dulci (2020, s/p) afirma que “a falta de correspondência entre o crescimento da igreja e o seu amadurecimento pode ser explicada pela ausência de uma cosmovisão bíblica genuína — que nos ajuda não só a conhecer a doutrina cristã, mas saber como praticá-la”.

Dessa forma, o que falta para que o número crescente de evangélicos influencie, efetivamente, toda uma cultura de violência, corrupção e outros males? Aonde a igreja tem deixado essas lacunas? O objetivo desse artigo é desenvolver uma argumentação a partir dessa problemática a partir do ministério infantil.

Partindo do princípio que as Escrituras fazem um chamado ao ensino da fé cristã às crianças (Provérbios 22.6), é necessário entender o sujeito para quem se está ensinando (sua linguagem, principalmente), conhecer a realidade do ministério infantil e trazer mais intencionalidade ao ensino da fé cristã aos pequeninos, refletindo por fim sobre a estruturação de uma cosmovisão cristã na linguagem infantil, de maneira prática e relevante.

1. QUEM É A CRIANÇA?

Entender quem é a criança no contexto bíblico da criação e da existência humana é fundamental na estruturação de uma cosmovisão na linguagem dela. As Escrituras nos trazem esse panorama, conforme apresentam Brustolin e Fontana (2018). Os autores apresentam a ideia antropológica de ser humano a partir do Antigo e do Novo Testamento.

De acordo com Brustolin e Fontana (2018), a compreensão judaica, enfatizada no Antigo Testamento, entende o ser humano por inteiro. As Escrituras mencionam que o homem (raça humana) é formado de corpo, alma e espírito, mas ele não pode ser pensado separadamente, numa visão dualista da existência humana, mas sim unitária, pois seu relacionamento com Deus o alcança por inteiro.

Essa integralidade é revelada no livro de Provérbios 4.23, quando as Escrituras destacam o coração como o centro de toda a existência humana. É ali que está a sede das emoções humanas, onde habita a cognição, a linguagem, enfim, todas as esferas. Dooyeweerd (1953 apud DULCI, 2020, s/p) argumenta que essa ideia trouxe a necessidade da revolução radical do pensamento filosófico, “em confronto com a raiz religiosa da criação, nada menos está em questão do que como relacionar todo o cosmo temporal, tanto nos seus assim chamados aspectos “naturais” como nos “espirituais”, a esse ponto de referência”.

Associada a essa visão, temos a ideia cristã antropológica do homem a partir do Novo Testamento. Conforme Brustolin e Fontana (2018), como a intenção da nova aliança é mostrar quem é o Salvador, automaticamente o ser humano será pensado a partir do ato de sacrifício de Jesus Cristo desde o seu nascimento até sua morte e ressurreição. Os autores afirmam que “em regra, os conceitos hebraicos e gregos sobre o ser humano, que influenciaram na redação dos textos bíblicos para judeus e cristãos, não carregam uma percepção fragmentada e dualista do ser humano” (BRUSTOLIN; FONTANA, 2018, p. 141), corroborando o coração (a mente) como centro da nossa existência.

2. MINISTÉRIO INFANTIL: PERCEPÇÕES

Considerando, então, a criança em sua integralidade tendo o coração como centro da sua consciência, podemos discorrer sobre o que significa estruturar um Ministério Infantil com mais intencionalidade nas atividades que propõe. O desafio é que, ao longo dos anos, ideias reducionistas sobre o que significa ensinar a fé cristã às crianças foram sendo desenvolvidas, colocando essa missão numa caixinha por não se dar tanta importância (ou relevância) ao ensino de crianças na igreja.

Com a necessidade de apresentar recursos audiovisuais mais atraentes aos olhos da criança, respondendo aos avanços tecnológicos da atualidade, deu-se mais importância no desenvolvimento desses aspectos. Isso não é ruim per se, o problema começa quando um culto com linguagem infantil se reduz a grandes bonecos e verdadeiras apoteoses musicais que terminam por deixar um conhecimento raso sobre o Evangelho.

É um entendimento comum associar a linguagem infantil ao conhecimento superficial de Deus. Infelizmente é ainda mais verdade quando a necessidade de voluntários para servir à igreja atuando com essa faixa etária é atendida por alguém que “não sabe fazer nada” e, então, é direcionada ao ensino dos pequeninos.

Por que um ministério de relevância para o presente (e futuro) de uma igreja é conduzido desta maneira? Uma criança pode (e deve) conhecer a Deus em sua linguagem o quão profundamente puder ir de forma que o seu coração nunca saia do caminho, mas seja continuamente pastoreado.

3. INTENCIONALIDADE E COSMOVISÃO CRISTÃ NO MINISTÉRIO INFANTIL

Com essa breve percepção sobre a realidade do Ministério Infantil, surge novamente a pergunta, agora com um foco: o que falta para o número crescente de evangélicos influencie, efetivamente, toda uma cultura? Falta intencionalidade, uma cosmovisão cristã acessível à linguagem dos pequeninos que, ao mesmo tempo, os permitam ir ainda mais fundo no conhecimento sobre Deus. Um ensino que não se reduza a balões coloridos e momentos de brincadeira, mas que tenha como prioridade o discipulado em sua essência, o pastoreio.

O cristianismo, por si só, é uma visão de mundo que se opõe à cultura de um mundo afetado pela queda. De acordo com Orr (1891 apud NAUGLE, 2002), ele é a “forma total de se conceber o mundo, do lugar do homem nele, da maneira de conceber o sistema total das coisas, naturais e morais, das quais nós somos uma parte. Não temos mais uma oposição de detalhes, mas de princípios”. Ensinar a criança esses princípios desde o começo é o que lhe conduzirá ao desenvolvimento de bons hábitos de forma a viver uma vida que glorifique a Deus em todos os aspectos.

Abraham Kuyper dedicou sua vida para a redenção da cultura do seu país, com o desejo de que ele chegasse, por completo, a testemunhar sobre Deus! Em seu sonho ele incluía as crianças, seu desejo era que os ensinamentos divinos fossem novamente firmados “nos lares, nas escolas e no Estado para benefício do povo; para, por assim dizer, gravar na consciência da nação as ordenanças do Senhor, das quais testemunham a Bíblia e a criação, até que a nação volte a render homenagem a Deus” (KUYPER, 1898 apud NAUGLE, 2002).

O que vai diferenciar um homem do outro não é a sua condição social ou a igreja a qual pertence, mas sim para qual direção o coração aponta – se para o Deus verdadeiro ou qualquer outro (falso) deus. Um coração regenerado pela obra redentora de Cristo não se limita mais a aspectos reducionistas da sua realidade, mas submete toda a sua existência ao senhorio de Cristo.

Aplicando esse princípio à existência de uma criança, podemos afirmar que ela tem, plantada em seu coração, uma cosmovisão cristã e que tornará isso o seu compromisso de vida. Conforme afirma Sire (2004, p. 29), essa forma de vida passa a ser “uma orientação fundamental do coração, que pode ser expresso como uma narrativa ou um conjunto de pressuposições […] que sustentamos […] e que fornece o fundamento no qual vivemos, nos movimentos e existimos”.

Voltando às questões do Ministério Infantil, a intencionalidade aparece quando um “cultinho infantil” não é um “espaço kids” para que os pais possam usufruir dos sermões transmitidos pelo pastor, mas a Casa do Pai aonde a criança teu seu coração conduzido ao verdadeiro Deus e pode ter a experiência da salvação nos seus primeiros anos de vida. Não é mais o espaço para “dar um jeito na criança”, mas um lugar onde ela tem prazer em estar não somente porque os cultos são para a sua linguagem, mas para prestar culto ao Senhor e conhecê-lo melhor.

Um culto infantil pode, sim, contar a história de José do Egito com o máximo de recursos que puder dispor. No entanto, não pode deixar de ensinar a virtude da paciência, da perseverança e da fidelidade na vida de um homem que foi injustiçado. Somente a Palavra de Deus, em toda a sua essência, pode fazer a obra completa (cf. Hebreus 4.12). Não há nada mais precioso que encontrar nas Escrituras narrativas que respondem aos nossos anseios cotidianos: “a observação da maneira cotidiana com que articulamos nossa própria trajetória pessoal nos mostrará que as narrativas e enredos dramáticos são úteis para reconhecermos e comunicarmos nossa cosmovisão” (DULCI, 2020, s/p).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Existe uma realidade que precisa ser repensada. Se quisermos mudar toda uma cultura de violência, corrupção e todos os tipos de males, não há nada mais belo que começar pelos pequeninos, esse é o campo mais fértil que se poderá encontrar. Seu coração ainda começando a caminhar procura ao Criador desde cedo (cf. Romanos 1.20). e quando o encontra ainda criança, entrega sua vida em missão para redimir o mundo através da sua forma de viver para a glória de Cristo.

Esta é a minha história: eu nasci na igreja, não só numa família cristã, eu “nasci de novo” em Cristo com apenas sete anos de idade. Minha caminhada é cheia de intencionalidade, não há nada na minha história que não tenha sido colocado pelo próprio Deus conduzindo seus servos: meus pais, meus “professores de EBD”, meus pastores. Comecei cantando aos cinco anos, estudei música na universidade por seis anos, e continuo minha missão ensinando música aos pequeninos: estou dando continuidade ao que foi plantado no meu coração.

Cada nota musical é uma semente plantada: a semente da redenção que um dia florescerá no coração dos meus pequenos. Nas palavras de Naugle (2002, p. 333) transmitir essa cosmovisão é vivenciar a redenção graciosa de Deus que liberta o coração de homens e mulheres da idolatria e de falsas visões da vida engendradas pelo engano satânico e pela cegueira do pecado e os capacita, por meio da fé em Jesus Cristo, a chegar a um conhecimento de Deus e à verdade sobre sua criação e todos os aspectos da realidade.


Referências Bibliográficas

BALLOUSSIER, Anna Virginia. Evangélicos podem desbancar católicos no Brasil em pouco mais de uma década: Pesquisador do IBGE projeta que já em 2022 seguidores do papa devem ser menos de 50% da população. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/evangelicos-podem-desbancar-catolicos-no-brasil-em-pouco-mais-de-uma-decada.shtml. Acesso em: 25 fev. 2020.

BRUSTOLIN, Leomar Antônio; FONTANA, Leandro Luis Bedin. A existência humana como resposta: a antropologia cristã à luz da compreensão bíblica do ser humano. Estudos Teológicos, v. 58, n. 1, p.134-147, 2018.

DOOYEWEERD, Herman. A new critique of theoretical thought. Grand Rapids, Mi: Paideia Press (reformational Publishing Project), 1953.

DULCI, Pedro Lucas. Vídeo-aulas do Módulo 02 da Tutoria Avançada do Invisible College, 2020.

NAUGLE, David K. Cosmovisão: a história de um conceito. Trad. Marcelo Herberts. Brasília: Editora Monergismo, 2002.

SIRE, James. Dando nome ao elefante: cosmovisão como um conceito. Trad. Paulo Zacharias e Marcelo Herberts. Brasília: Editora Monergismo, 2004.

2 comments

  1. Darli

    Ana Ester, obrigado pelo texto motivador. Você deixou muita semente por aqui. Gratidão pela intencionalidade 🥰

    1. Ana Ester

      Então meu objetivo foi alcançado! Que o Senhor te fortaleça na sua missão! 🙏🤗

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