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O lugar da cultura no plano de Deus

Artigo escrito por Fabiana Eickhoff, estudante do Programa de Tutoria Avançada 2023


Desfrutamos do mundo a partir da criação, mas e quanto ao desfrute das coisas que nós mesmos produzimos? Podemos aplicar esse modelo a tudo aquilo que desfrutamos, proveniente da cultura e da criação humana, como as artes, os filmes, as músicas, a moda, a ciência, a arquitetura e a tecnologia? Quando refletimos sobre o ato de usufruir e deleitar-nos nas coisas criadas, estamos, de fato, glorificando a Deus por aquilo que Ele fez. Tomemos a alimentação como exemplo. Observamos que os alimentos, quando não em seu estado primário retirado da natureza, “in natura“, constituem uma fusão da obra de Deus – determinando o sabor que a comida terá, seja salgado, doce, crocante ou macio – e também da ação do homem, que cozinha e modifica sua estrutura por meio de misturas e temperos. Poderíamos afirmar que a alimentação é uma combinação do labor de Deus com o trabalho humano. Tanto o produto da comida quanto seu processo são fruto do dom criativo de Deus graciosamente dispensado ao homem.

Assim, podemos conceber que Deus nos presenteou com alimentos, cultura, amizades e tudo o que possuímos como manifestações do Seu amor. Não somos criadores, à semelhança Dele, mas, sim, co-criadores, na medida em que nomeamos, criamos e modificamos coisas para que a graça comum do Senhor alcance o mundo criado. Contamos com o respaldo do Criador para o desenvolvimento de recursos naturais, tecnologias e ciências. Entretanto, Sua vontade é que não erremos o alvo, depositando fé nessas coisas em lugar do Autor de tudo.

A cultura é a expressão do esforço humano em adornar complementarmente o já belo mundo de Deus por meio do florescimento humano. Todos estamos envolvidos nessa transformação, quer seja de maneira trivial ou erudita, tecnológica ou analógica; somos convidados a exercer o mandato cultural enquanto estivermos na velha terra. Entretanto, é imperativo considerar que toda cultura ocorre nas normas já estabelecidas por Deus para o mundo. Quando negamos a existência de Deus ou pensamos que podemos relegá-Lo ao segundo plano, esquecemos que não há assimetria entre os seres e os objetos que estudamos ou desenvolvemos, pois ambos são criaturas. Ainda que de naturezas diferentes, ambos estão submetidos à soberania do Criador. O que conecta a criatura ao Criador é a lei preestabelecida pelo Criador. Em outras palavras, não se trata de descobrir novas leis, mas de descrever as leis já concedidas pelo Criador à realidade. Isso nos indica o que promove o florescimento dos indivíduos na realidade e o que não o faz.

Nesse sentido, Egbert Schuurman lança luz ao raciocínio:

A lei cósmica é a fronteira entre o Deus criador e sua criação. As pessoas nunca podem estar acima dessa lei. O que elas podem fazer – por meio de abstrações científicas – é obter uma visão melhor dessa lei. Nos resultados das ciências especializadas, isso é expresso ao dizer que a física descobre as leis que governam a “natureza”, a biologia as leis que governam a vida, a economia as leis que governam a vida econômica e assim por diante (SCHUURMAN, 2016, p. 34-35).

Deus nos concede leis para proporcionar estrutura e orientação adequada. Sem essas leis, nos perderíamos. Contudo, Deus também nos dá criatividade para que possamos contribuir para a transformação do mundo. A realidade e suas leis oferecem pontos de partida, enquanto a criatividade nos impulsiona em direção ao destino estabelecido por Deus, através do florescimento cultural.

Por fim, Joe Rigney arremata:

Por que nos casamos, fazemos amigos, dedicamo-nos à música, à pintura, à química ou à culinária? Por simples prazer na bondade que reside na criação, é claro; mas também por mais que isso. Metade do esplendor da terra encontra-se oculto no vislumbre da cidade que anelamos que venha a ser. Por causa de toda a amabilidade enraizada, o mundo não tem uma cidade permanente aqui; é um lugar estranho, uma casa de peregrinação, uma sessão a caminho de uma melhor versão de si mesma — e é nossa glória vê-la assim e ansiar até que Jerusalém, enfim, chegue à casa. Temos apetites, não para consumir o mundo e esquecê-lo, mas para saborear sua bondade e desejar torná-lo extraordinário (RIGNEY, 2018, p. 177-178).

Deus criou um mundo muito bom, mas que requer o trabalho do homem. Um trabalho santificado e que glorifique a Deus (1 Timóteo 4.1-5), conduzido, governado e organizado por Sua Palavra. Um trabalho que dependa de Deus com intencionalidade e oração e seja grato à bondade de Deus, que criou todas as coisas e nos concede capacidade e criatividade como dons. Gratidão e oração ao Senhor devem ser o cerne do mandato cultural aqui na terra.

No princípio, Deus chamou Adão para dar nome a tudo o que Ele criou. Se Deus falou para criar o mundo, então o mundo é estruturado pela fala divina. Esta fala é, portanto, a chave de significado do mundo. Deus ainda governa o mundo através da Sua Palavra. Logo, a linguagem de Deus é a chave do desenvolvimento de tudo o que acontece e de toda a história. Tudo, absolutamente, é significado e está permeado pela Palavra de Deus. Vanhoozer, em seu livro Há um significado nesse texto?, complementa esse raciocínio, dizendo que: “[A hermenêutica] é relevante não só para a interpretação da Bíblia, mas para tudo o que há na vida, na medida em que tudo, de uma sinfonia de Brahms ao choro de um bebê, é um ‘texto’, ou seja, uma expressão da vida humana que pede interpretação” (VANHOOZER, 2022, p. 23).

Portanto, seguindo o raciocínio de Vanhoozer, a realidade é um texto que deve ser interpretado e que está imerso na história, na cultura, na tradição, por intermédio da linguagem. A linguagem da criação pode ser vista, nesse sentido, como a produção cultural. Com a imago Dei em nós, podemos ouvir o discurso de Deus e obedecer, através da sua Palavra; edificar acerca do que ouvimos e discernir sobre as pretensões de Deus para nós, criaturas; e, então, com isso, falar do Senhor e da Sua glória a todos, cultivando, sujeitando e nomeando o mundo de Deus, como fez Adão e cumprindo o mandamento cultural, cooperando com a missão divina de encher tudo com a glória do Senhor.

Esse processo, no entanto, não é algo natural e espontâneo. Não podemos deixar de falar da Queda, e de tudo o que ela trouxe de prejuízo para nós. Embora toda criação seja boa, o pecado e o mal trouxeram insurreição contra Deus. Com a Queda, nossa visão de mundo se tornou apóstata, até que não alcançada por Deus e colocada numa direção correta, temos mais facilidade em adorar a criatura no lugar do Criador. Facilmente, damos glórias ao glorificamos nossos próprios feitos e nos esquecemos que são dádivas concedidas pelo Senhor. A criação é ao mesmo tempo boa e amaldiçoada (Gênesis 3.17-19) e geme por causa da vaidade do homem (Romanos 8. 19-22).

Diante disso, cosmovisão, ou visão de mundo, é um termo que tem a ver com a forma como as pessoas se movimentam no mundo. Ela é inerente a todas as pessoas e tem uma inclinação religiosa, pois se trata de um compromisso íntimo do coração. Corresponde às raízes mais profundas do nosso ser. Por vezes, nem sabemos por que as temos, mas, ainda assim, o que fazemos é um impulso religioso, que faz com que acreditemos em determinadas soluções de mundo melhor, nos comuniquemos de determinada maneira e sejamos impelidos em certas direções. De alguma forma, cremos que este é o caminho que devemos ir, e ele nos parece correto. Em outras palavras, nossas crenças permanecem por trás de tudo o que fazemos. O crer direciona e regulamenta todas as nossas ações humanas.

Atualmente, vivemos em uma sociedade que manifesta uma fé no progresso, no capitalismo e na tecnologia. Uma sociedade que pensa no sustento como uma força do próprio braço, através de desempenho e de capacidade, bem como de avanços científicos e tecnológicos. Não é errado querer comodidades, nem ter previsibilidade sobre o que pode ser previsível, pois isso traz conforto. É algo bom, inclusive, quando cumprimos nosso papel de cooperar com o mundo através de inovações que trazem avanços para humanidade fazendo-a florescer; estamos louvando a Deus com isso, afinal, tudo vem do Pai das Luzes (Tiago 1.17), como vimos acima. O que é questionável é a fé nesse processo, como se a vida e a morte estivessem atreladas às coisas co-criadas por nós. Esta é uma direção equivocada, pois é vazia em si mesma.

Ao nos referirmos ao mal, na produção cultural, e à fé nas coisas criadas, não nos referimos aos artefatos em si, mas à disposição do coração dos seres humanos envolvidos ou que usufruem dos mesmos. Vemos, mais precisamente, como as vacinas afetaram a mentalidade de todos na época da pandemia. Observamos a narrativa pró e contra vacina e como isso deixou as pessoas frágeis diante de todos os ocorridos do momento. Porém, isso não tem a ver com as vacinas em si, mas com os corações por trás das vacinas e das narrativas. O mal sempre diz respeito às intenções e ações, da forma como utilizamos a cultura, seja através de filmes, músicas, leituras, das ciências, ou da tecnologia, fatos que nos colocam diante de Deus numa disposição correta ou incorreta referente a esses artefatos.

Devemos desfrutar da cultura como sabedoria e satisfação, pois ela tem a finalidade de trazer louvor a Deus e, através dela, o Senhor demonstra a sua graça sobre nós. Porém, somos completamente responsáveis por fazer boas escolhas, onde o mal seja minimizado ao invés de normalizado, onde escolhemos a justiça no lugar da injustiça e abolimos intencionalmente aquelas coisas que pervertem o que Deus planejou para que cresçamos em amor e floresçamos como espécie que carrega Sua Imagem. Devemos nos atentar em toda cultura, tanto ao produzi-la quanto ao consumi-la, destacando o que for “verdadeiro, respeitável, justo, puro e de boa fama”, conforme nos ensina o apóstolo Paulo em Filipenses 4.8.

Para esse propósito, confiamos na oração para abrir nosso coração e entendimento, nos guiando para aquilo que traz glória e louvor a Deus, capacitando-nos a crescer em amor. Dessa forma, podemos desfrutar da boa criação sem culpa, de maneira incorruptível diante de Deus, até que Cristo, finalmente, retorne para redimir definitivamente todas as coisas, e nos encontremos plenos do fruto da justiça que vem por meio Dele (Filipenses 1.9-11).


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Referências bibliográficas

BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Transformadora. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. 1072 p.

FERNANDEZ, Kaiky. Click sem Bait: Marketing e Comunicação a partir da ética cristã. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2023. E-book.

LEITHART, Peter J. Vestígios da Trindade: Sinais de Deus na Criação e na Experiência Humana. Trad. Leandro G. F. C. Dutra. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018. 196 p.

RIGNEY, Joe. As coisas da terra: estimar a Deus ao desfrutar de suas obras. Trad. William Campos da Cruz. Brasília, DF: Monergismo, 2018. E-book.

SCHUURMANN, Egbert. Fé, esperança e tecnologia: ciência e fé cristã numa cultura tecnológica. Trad. Thaís Semionato. Viçosa, MG: Ultimato, 2016. 272 p.

VANHOOZER, Kevin. Há um significado neste texto? Interpretação bíblica: Os enfoques contemporâneos. Trad. Álvaro Hattnher. São Paulo: Editora Vida, 2022. E-book.