O mito da neutralidade ideológica: Roy Clouser, David Koyzis e o fenômeno da ideolatria

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Em O mito da neutralidade religiosa, o filósofo americano Roy Clouser argumenta que nossas formulações teóricas são precedidas por compromissos religiosos que as orientam e lhe conferem sentido: “Segundo Clouser, todo pensamento teórico depende de pressuposições a respeito da ordem cósmica cuja natureza é indistinguível de certos tipos de crença religiosa – aquelas crenças a respeito do que constituiria o fundamento divino do mundo”¹.

Clouser segue os passos do filósofo e jurista holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977) na sua crítica ao dogma da autonomia do pensamento teórico: “Toda filosofia que reivindica um ponto de partida cristão confronta-se com o tradicional dogma da autonomia do pensamento teórico, implicando sua independência de quaisquer pressupostos religiosos”, diz o filósofo em No crepúsculo do pensamento ocidental (DOOYEWEERD, 2018, p. 41). Mas se trata de uma pretensa (e ilusória) independência. Na origem de todas as formulações do pensamento teórico se encontram compromissos pré-teóricos de natureza religiosa, de modo que se torna imprescindível uma crítica radical do dogma da autonomia:

Tal crítica não é apenas necessária de um ponto de vista cristão; antes, deveria ser considerada a condição primária de uma atitude de pensamento verdadeiramente crítica em todos os tipos de reflexão filosófica, independente da diferença de pontos de partida. Pois a aceitação da autonomia do pensamento teórico foi elevada à condição intrínseca da verdadeira filosofia, sem que esta seja justificada por um exame crítico da estrutura interna da própria atitude teórica do pensamento. (DOOYEWEERD, 2018, p. 42)

A crítica radical do pensamento teórico proposta por Dooyeweerd, mais do que uma abordagem filosófica, oferece condições de possibilidade para o debate na esfera pública, na medida que “a comunicação verdadeiramente proveitosa só é possível quando ambos os pontos de vista se desenvolvem conjuntamente e quando ambos os lados penetram na raiz das suas diferenças” (DOOYEWEERD, 2015, p. 17). É necessário, portanto, assumirmos nossas pressuposições mais básicas.

Quem muito tem contribuído neste campo nos últimos anos, assim como Clouser, seguindo os passos do filósofo holandês, é o cientista político americano David Koyzis, professor de Ciência Política na Redeemer University College, no Canadá. Em Visões e Ilusões Políticas, o autor clarifica as percepções dooyeweerdianas, aplicando-as a uma análise distintamente cristã das ideologias políticas, uma análise de grande importância para os nossos dias:

São muitos os debates acirrados no âmbito político que não acontecem porque um ou outro lado se recusa a “aceitar os fatos” ou  a “ser razoável” (como tantas vezes ouvimos), mas, sim, porque ambos os lados se pautam por visões diferentes da realidade alicerçadas em paradigmas mutuamente excludentes. Na verdade, muitas dessas concepções políticas distintas, seja qual for o seu título ideológico, têm origem numa única cosmovisão religiosa que vê o cosmos como um sistema essencialmente fechado, sem referência a um criador ou redentor. Em resumo, apesar do aparente conflito entre as difusas ideologias, no fundo todas são subespécies de uma categoria mais ampla: a idolatria. (KOYZIS, 2014, p. 10)

Foi dessa análise sobre a natureza das ideologias políticas que surgiu o termo ideolatria: cada ideologia, embora consiga apreender algum aspecto da Criação, o faz à luz de um compromisso religioso-idólatra que se constitui como a chave hermenêutica para a interpretação da realidade, num reducionismo que perde de vista a beleza da Criação em seus diversos aspectos. É por isso que “como cristãos, nossa convicção mais básica é que nosso mundo pertence a Deus e não a nós. Somos meros mordomos do cosmos, responsáveis perante Deus que nos criou e nos redimiu. Isso inclui a vida política. Devemos reconhecer a complexidade irredutível que Deus construiu em sua criação, incluindo a sociedade humana”². E devemos fazê-lo sem nos comprometermos com qualquer “bezerro de ouro” que se coloque diante de nós.

¹CARVALHO, Guilherme. Teísmo cristão e ciência: o pensamento de Roy Clouser. Associação Brasileira Cristãos na Ciência, 2016. Disponível em: <https://www.cristaosnaciencia.org.br/teismo-cristao-e-ciencia-o-pensamento-de-roy-clouser/>. Acesso em 11 de Agosto de 2020.

²PITON, Guilherme. Fé cristã e política: uma pequena entrevista com David Koyzis. Trad. Douglas Araújo. Revista e-atualizada, 2018. Disponível em: <https://link.medium.com/mJRL5AH8R8>. Acesso em 11 de Agosto de 2020.


Referências

DOOYEWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental: estudo sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Trad. Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim de Souza. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018.

____________________ Raízes da cultura ocidental: as opções pagã, secular e cristã. Trad. Afonso Teixeira Filho. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.

KOYZIS, David T. Visões e ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. Trad. Lucas G. Freire. São Paulo: Vida Nova, 2014.

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