O Senhor de tudo

Share on telegram
Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email

Resenha escrita por Vanessa Belmonte, estudante do Programa de Tutoria – Turma Essencial 2020

A mensagem bíblica de salvação e redenção do ser humano tem, em seu centro, a restauração de um relacionamento com Deus que fora perdido por causa do pecado. E, em especial, um relacionamento com Jesus Cristo devido à sua obra de redenção por nós. Ser cristão é viver de forma que, agora, em tudo que faço, no modo como vivo, manifesto que tenho um Senhor a quem me submeto em obediência, um Deus que me chama a viver uma nova vida em relacionamento com Ele.

Poythress em seu livro O Senhorio de Cristo, traz a mensagem extremamente necessária de que mais do que acreditar que Jesus tem um papel de Senhor, cristãos são chamados a viver na prática diária o senhorio de Cristo, servindo o Senhor o tempo todo, em toda a vida e de todo o coração, como diz o subtítulo do livro.

Afinal, afirmar que Jesus é Senhor sobre tudo tem implicações profundas (p. 13) e podemos nos perder em armadilhas e distorções que farão com que vivamos em um mundo dividido, onde Jesus não reine sobre tudo, onde não precisemos de sua ajuda ou não rendamos obediência a Ele. Porém, se Jesus é de fato o Senhor de todas as coisas, ele é o Senhor de todas as áreas da vida, que inclusive foram criadas por seu poder. Ele já está presente em sua autoridade, presença e poder divinos e não podemos ‘mantê-lo de fora’ sem violar seu senhorio (p. 14).

Neste livro, Poythress constrói sessões breves trazendo luz sobre essa mensagem do senhorio de Cristo. O conteúdo está dividido em quatro partes. Começa com o chamado para servir a Cristo, na parte 1, esclarecendo o que significa ser radicalmente cristão, a história da redenção, as razões para a obediência a Cristo, como servir a Cristo em nosso conhecimento e o contraste com o mundo.

A mensagem da Bíblia tem implicações para todas as pessoas, cristãos e não cristãos, pois Cristo é Senhor sobre cada uma das vidas e faz reivindicação sobre cada vida humana (p. 14).

Portanto, levar a sério o senhorio de Cristo envolve uma mudança radical que pode parecer difícil ou até impossível para nós (p. 16). As mudanças incluem não apenas novas crenças, mas também novos padrões de julgamento, novas atitudes e motivações transformadas (p. 17). Também incluem mudanças em nosso pensamento e nossa mente, a própria forma como pensamos sobre o desafio da mudança radical em si (p. 21).

Para isso, é necessário compreender que Cristo governa sobre todas as coisas porque é Deus (p. 28). A pessoa de Cristo governa sobre tudo (p. 29) e somos chamados a obedecer-lhe, reconhecendo a autoridade da Escritura e o poder do Espírito Santo operando em nós (p. 33). A Escritura mostra que Deus chama um povo a confiar em sua palavra e lhe obedecer como uma fonte central de orientação para sua vida (p. 51).

A questão do relacionamento com Cristo fica cada vez mais clara, pois o desafio não é apenas saber e colocar em prática o que Jesus disse, mas ter comunhão com Jesus ao edificar nossa vida nele e nas suas palavras (p. 53). Precisamos aprender a caminhar dia a dia, tendo Cristo como nosso mestre, um amigo, que dá a sua vida por nós e nos ensina como viver ao caminhar conosco ao nosso lado. Uma vida diária de discipulado com Cristo.

Na parte 2, ele apresenta os recursos para servir a Cristo, trazendo os recursos espirituais básicos, os recursos da teologia, especialmente a Reforma, um retrospecto de Abraham Kuyper e seus sucessores, e os recursos mais recentes.

A Bíblia aponta que Deus fornece recursos que nos instruem e capacitam para servir a Cristo, sendo o primeiro deles o poder da ressurreição de Cristo (p. 73). O Espírito Santo, então, torna esse poder real em nós, operando em nós e nos capacitando a viver uma vida renovada (p. 74). Mas precisamos também utilizar os meios de graça e escolher intencionalmente dedicar tempo para a leitura e o estudo da Bíblia, ouvir a pregação, orar e cantar louvores a Deus, participar dos sacramentos, e ter comunhão com o povo de Deus (p. 75).

Os recursos da teologia reformada, especialmente a tradição de Abraham Kuyper, nos ajudam a compreender como aplicar o senhorio de Cristo em todas as esferas da vida (p. 86). As ideias de Kuyper ainda estão motivando as pessoas a servir a Cristo de todo o coração e a reconhecer Jesus como Senhor de toda a vida (p. 91).

  Contudo, ao longo do tempo de certa forma elas esmaeceram. Segundo Poythress, se olharmos apenas para o passado ou para o presente, podemos ficar desencorajados com todo o esforço que Kuyper teve e cujo resultado parece ter desaparecido. Porém, em resposta, precisamos nos lembrar que Cristo continua reinando e seu reino está de certo modo ainda escondido. Devemos servir a Cristo a cada hora de cada dia em todas as esferas da vida, mas apenas Jesus vê o que de fato alcançamos e tem sido gerado com toda obediência de seus filhos (p. 92).

A mensagem deste livro é que precisamos aprender a honrar a Cristo como Senhor e aprender a encorajar os outros também a fazê-lo, pois temos o mesmo Espírito Santo que Cristo derramou no dia de Pentecostes, temos as Escrituras que provêm instrução e alimento, e temos o exemplo de homens e mulheres que viveram assim ao longo do tempo (p. 92).

Na parte 3, ele apresenta um panorama de algumas Áreas de Serviço onde o senhorio geralmente é considerado desnecessário ou ignorado, como a política, ciência, artes, o futuro, educação e trabalho. O argumento central é que o compromisso com Cristo afeta toda a vida e, por isso, leva a desenvolvimentos vigorosos na vida e na cultura (p. 110). À medida que pessoas são transformadas, suas culturas também sofrem mudanças (p. 110).

Por fim, na parte 4, o autor apresenta as armadilhas que precisamos evitar em nosso serviço, tais como, armadilhas na motivação, nas normas, nas situações e esperanças futuras. Essa classificação corresponde às três perspectivas de Frame sobre ética: a perspectiva existencial (com foco na motivação), a perspectiva normativa (com foco nas normas) e a perspectiva situacional (com foco na situação) (p. 158). Podemos cair em armadilhas, mesmo quando estamos tentando honrar o senhorio de Cristo (p. 157).

Chama a atenção a capacidade de síntese e clareza de Poythress ao falar de um assunto complexo com muitas implicações. Sua conclusão é encorajadora: Cristo é o nosso glorioso Salvador e Senhor que é digno de toda a nossa lealdade. Ele é digno de todo o compromisso e todo o esforço que podemos fazer (p. 199). Não devemos desanimar diante das dificuldades e armadilhas para viver esse senhorio, pois nada disso depende de nossa perfeição ou próprio poder (p. 200).

O profundo conhecimento da grandeza de Cristo, de sua presença, poder e autoridade, energiza nossas afeições, nossos pensamentos e nossas ações, influenciando tudo. Deus continua agindo em nós e através de nós, levando tudo à completude de acordo com sua vontade perfeita. Compreender essa realidade faz com que possamos viver o ritmo correto do Reino de Deus já presente agora. Somos cada dia alcançados e transformados, crescemos à semelhança de Cristo, pela ação do Espírito Santo em nós, à medida que vivemos essa realidade do Senhorio de Cristo. 

Poythress acrescenta um apêndice sobre a Teologia dos Dois Reinos, trazendo importantes esclarecimentos sobre essa teologia considerada conflitante com a visão de que Cristo é o Senhor de toda vida. Assim, o autor examina vários tipos de distinções que algumas formas de teologia dos dois reinos discutem e que são importantes na reflexão da tarefa de servir a Cristo (p.202). A conclusão dessa parte é belíssima, nos convidando a não viver em dualidade, entregando nossa lealdade apenas ao próprio Cristo que nos ensina a como andarmos pacientemente com outras pessoas, reconhecendo nosso pecado e falibilidade e amando ao Senhor (p. 240).

Somos pessoas que vivem em obediência e fidelidade a um Senhor que ainda não está manifesto e visível para todos, mas que exerce presença, controle e autoridade reais, sobre tudo e sobre todos. Manifestamos vislumbres dessa realidade e poder quando vivemos o senhorio de Cristo em todas as áreas de nossas vidas, proclamamos que seu Reino já começou e aguardamos em expectativa que ele se complete em perfeição. Então, todos verão o que agora contemplamos pela fé, e se prostrarão em adoração diante do único Senhor, digno de adoração, honra e glória.


Referência

POYTHRESS, Vern S. O Senhorio de Cristo: servindo o nosso Senhor o tempo todo, em toda a vida e de todo o coração. Traduzido por Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo, 2019. 250 p.

1 comment

  1. Flávia

    Lindo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *