Imitai a fé que tiveram: os puritanos e a vida cristã

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Embora mortos, eles ainda falam por meio de seus escritos; uma unção peculiar lhes atende nessa mesma hora…

George Withefield

No clássico O Peregrino, de John Bunyan (1626-1688), temos um dos melhores quadros já pintados sobre o significado da vida cristã. Sob a pena deste prodigioso “artista” inglês, assistimos a jornada de Cristão em direção a Cidade Celestial. Mas não o fazemos apenas como espectadores da peça, como leitores. Ao mesmo tempo que assistimos as diferentes sortes que acometem Cristão, nos identificamos com ele. Sua história diz respeito a todos nós. Não foi sem motivo que Charles Spurgeon (1834-1892) chegou a lê-lo cem vezes (SPURGEON, 2019, p. 13), com direito a uma série de comentários que foram compilados em Caminhando com O Peregrino.

Embora separados pelo tempo, Spurgeon se via como um devedor de Bunyan e os puritanos. A humildade é uma virtude dos aprendizes, junto à consciência de que só podem enxergar mais longe sobre os ombros de gigantes. John Bunyan e Charles Spurgeon entenderam essas verdades, e foi por isso que se tornaram grandes. Mas é possível que ao ler o termo “puritanos”, alguns leitores tenham franzido a testa e se perguntado por que deveriam ler um texto sobre os puritanos em pleno século XXI. O que poderíamos aprender com a sua fama de legalistas, apáticos e metódicos? Por que eles foram “gigantes”?

REMOVENDO O VERNIZ ESCURO

Alguém que prestou uma grande contribuição à igreja para a compreensão do tema foi o teólogo anglicano James I. Packer (1926-2020). Sua obra Entre os gigantes de Deus foi resultado de quatro décadas de pesquisa na procura de remover, nas suas palavras, a “lama” que tem feito perder de vista a importância destes ministros ingleses e escoceses dos séculos XVI e XVII. Essa “lama” se deve em parte ao próprio termo “puritano” que, desde o início, carregou um tom pejorativo:

“Puritano”, como um nome, era, de fato, lama desde o começo. Cunhada nos anos 1560, sempre foi uma palavra satírica e ofensiva, subentendendo mau humor, censura, presunção e, em certa medida, hipocrisia, acima e além de sua implicação básica de descontentamento, motivado pela religião, em relação àquilo que era visto como a laodicense e comprometedora Igreja da Inglaterra de Elisabeth (também conhecida como Isabel). Mais tarde, a palavra ganhou a conotação política adicional de quem era contrário à monarquia Stuart e favorável a algum tipo de republicanismo; sua primeira referência, contudo, ainda era àquilo que se via como uma forma estranha, furiosa e feia de religião protestante. (PACKER, 2016, p. 25)

Quando alguém diz “isso é coisa de puritano”, por exemplo, o que geralmente está pressuposto é esta noção “estranha, furiosa e feia de religião protestante”. Mas a boa notícia é que essa imagem tem sido reparada e a “lama”, removida:

No último século, porém, alguns estudiosos têm removido, meticulosamente, essa lama. E, da mesma forma que os afrescos de Michelângelo na Capela Sistina têm cores pouco familiares depois que os restauradores removeram o verniz escuro, assim também a imagem convencional dos puritanos foi radicalmente recuperada, ao menos para os informados. Ensinados por Perry Miller, William Haller, Marshall Knappen, Percy Scholes, Edmund Morgan e uma série de pesquisadores mais recentes, pessoas bem informadas agora reconhecem que os puritanos típicos não eram homens selvagens ou ferozes, monstruosos fanáticos religiosos ou extremistas sociais, mas pessoas sóbrias e conscienciosas, além de cidadãos cultos, pessoas de princípio, decididas e disciplinadas, excepcionais nas virtudes domésticas e desprovidas de grandes defeitos, exceto a tendência de usar muitas palavras ao dizer qualquer coisa importante, a Deus ou ao homem. Enfim, está sendo consertado o engano. (PACKER, 2016, p. 26)

Entre os gigantes de Deus foi uma importante contribuição a esse conserto, e parte preciosa do próprio legado de Packer. Ele também se via como um devedor dos puritanos, pessoas como Richard Baxter, John Owen, William Perkins e John Bradford. Mas ainda que consideremos este processo de restauração da imagem dos puritanos, isto nos forneceria razão suficiente para lê-los hoje? O que nós poderíamos aprender com eles? Essa é uma pergunta que merece uma boa resposta.

GRANDES ALMAS SERVINDO A UM GRANDE DEUS

No prefácio de Teologia Puritana, de Joel Beeke e Mark Jones, obra sem precedentes na sistematização do pensamento puritano, Sinclair B. Ferguson afirma que se pudéssemos voltar no tempo, no século XVII, visitando as cidades de Londres, Cambridge e Oxford para conhecer estes importantes ministros, “quando voltamos ao mundo da igreja do século 21, é impossível deixar de sentir que naqueles dias havia gigantes na terra” (FERGUSON apud BEEKE; JONES, 2016, p. 15). Esta é a mesma compreensão que James I. Packer compartilha em Entre os gigantes de Deus. O que nós, hoje, poderíamos aprender com estes “gigantes”?

A resposta é, em uma palavra, maturidade. A maturidade é uma composição de sabedoria, boa vontade, maleabilidade e criatividade. Os puritanos exemplificavam a maturidade; nós, não. Um líder bem viajado, um americano nativo, declarou que o protestantismo norte-americano, centrado no homem, manipulador, orientado pelo sucesso, autoindulgente e sentimental como é, patentemente, mede cinco mil quilômetros de largura e um centímetro de profundidade. Somos anões espirituais. Os puritanos, em contraste, como um corpo, eram gigantes. Eram grandes almas servindo a um grande Deus. Neles, a paixão sóbria e a terna compaixão se combinavam. Visionários e práticos, idealistas e também realistas, dirigidos por objetivos e metódicos, eram grandes crentes, grandes esperançosos, grandes realizadores e grandes sofredores. (PACKER, 2016, p. 27)

Embora estivesse se referindo ao contexto norte-americano, não é preciso muito esforço para percebermos que este quadro também se aplica a nós. Somos anões espirituais, mas podemos crescer sobre os ombros de gigantes. Em primeiro lugar, podemos aprender com eles no que diz respeito à integração de sua vida diária (PACKER, 2016, p. 29). Diferente daquilo que se costuma postular, os puritanos não viviam presos na dicotomia sagrado/secular. Entendiam que o cristianismo jamais deveria ser reduzido a um mero conjunto de doutrinas, sem nenhuma conexão com a vida. Sob o lema coram Deo, compreendiam que

Toda a criação, até onde conheciam, era sagrada, e todas as atividades, de qualquer tipo, deveriam ser santificadas, ou seja, feitas para a glória de Deus. Assim, em seu ardor elevado aos céus, os puritanos tornaram-se homens e mulheres de ordem, sóbrios e simples, de oração, decididos e práticos. Viam a vida como um todo, integravam a contemplação com a ação, o culto com o trabalho, o labor com o descanso, o amor a Deus com o amor ao próximo e a si mesmo, a identidade pessoal com a social e um amplo espectro de responsabilidades relacionadas umas com as outras, de forma totalmente consciente e pensada. (PACKER, 2016, p. 29)

Foi por pensarem tanto no outro mundo que se doaram tanto neste. Eram considerados metódicos no sentido de se preocuparem em gerir bem o tempo. Em dias onde vivemos de forma tão desregrada e distraídos num mar de informações, esses irmãos podem nos ajudar a glorificar mais Aquele a quem pertence todos os nossos dias neste mundo. O Senhor de toda a Criação é também o Senhor do tempo. Em segundo lugar, podemos aprender com os puritanos na qualidade de sua experiência espiritual (PACKER, 2016, p. 30). Eles eram homens e mulheres que nutriam um profundo amor pelas Escrituras, que resultava na preocupação pelo testemunho para com as boas obras. Sobre a sua relação com a Palavra de Deus, Ferguson chega a comentar que

Com frequência, fica a sensação de passagens e textos estarem sendo expostos contra a luz tal como um diamante recém cortado que é virado lentamente a fim de que cada faceta reflita a luz. Eram teólogos bíblicos nos dois sentidos do termo: tanto no sentido de que extraíam sua teologia da Bíblia quanto no sentido mais moderno de compreender e estar interessados em expor o fluxo unificado da história da salvação, vendo cada um de seus elementos em seu devido lugar na história” (FERGUSON apud BEEKE; JONES, 2016, p. 16).

Poderíamos dizer que ele foram os “bereIanos” (At 17:11) do seu tempo. As Escrituras eram fundamentais para a sua conduta. Hoje, em dias com tantas “mentes não esclarecidas, afeições incontroladas e vontades instáveis no que se refere a servir a Deus” (PACKER, 2016, p. 31), certamente essa é outra lição que podemos aprender com os puritanos.

MENTES SÃS, CORAÇÕES AQUECIDOS

Os puritanos mostraram como é equivocada a separação entre teologia e devoção. A boa teologia é necessariamente devocional. Suas vidas foram o testemunho daquilo que Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) chamou de “teologia em chamas”. Mentes sãs, cativas ao senhorio de Cristo (2Co 10:5) e corações aquecidos por um profundo amor à Deus, à Sua Palavra e às suas obras. Eles se encontram lugar precioso nas páginas da história do cristianismo, páginas estas que faríamos bem sempre consultá-las. As palavras de George Whitefield (1714-1770), ao escrever sobre eles (PACKER, 2016, p. 28), são memoráveis, e nos convidam a imitar a fé que tiveram:

Ministros nunca escrevem ou pregam tão bem como quando estão debaixo da cruz; o Espírito de Cristo e de glória paira então sobre eles. Foi isso, sem dúvida, que fez dos puritanos as lâmpadas ardentes e brilhantes. Quando expulsos pelo Ato Bartolomeu (o Ato de Uniformidade de 1662) e removidos de seus respectivos cargos para irem pregar em celeiros e nos campos, nas rodovias e nas sebes, eles escreveram e pregaram como homens de autoridade. Embora mortos, eles ainda falam por meio de seus escritos; uma unção peculiar lhes atende nessa mesma hora…

REFERÊNCIAS

BEEKE, Joel R; JONES, Mark. Teologia Puritana: doutrina para a vida. Trad. Marcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2016.

PACKER, James I. Entre os gigantes de Deus: uma visão puritana da vida cristã. Trad. Editora Fiel. São José dos Campos, SP: Fiel, 2016.

SPURGEON, Charles H. Caminhando com O Peregrino. Trad. Lorena Almeida. Goiânia, GO: Alabaster, 2019.

1 comment

  1. Bruno Rosa

    Que texto incrível! Precisamos realmente conhecer os nossos antepassados puritanos.

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