Inspiração divina: o conhecimento de Deus na experiência de uma criança

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Escrito por Ana Ester Correia Madeira de Souza, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

R. J. Rushdoony, na primeira Conferência Anual da Reconstrução Cristã do Meio-Oeste em Illinois (USA) em 1986, falou: “[…] o homem não pode ser um observador imparcial, ele não pode ser neutro com respeito a si mesmo ou a qualquer coisa em toda a criação”. Uma expressão de tamanha sabedoria despertou-me a escrever a experiência de uma criança com relação à Bíblia. Será que uma criança pode conhecer a Deus lendo as Escrituras?

O teólogo norte-americano John Frame, conhecido nos Estados Unidos pelas suas contribuições para a epistemologia teológica, apresenta uma doutrina sobre o conhecimento de Deus chamada de tri-perspectivismo, uma ideia que é igualmente partilhada no livro “Conhecimento de Deus”, onde Alvin Plantinga e Michael Tooley debatem sobre o tema. Para Frame (2010), a teologia não trata somente sobre o conhecimento de Deus como condição de possibilidade para o conhecimento do homem, mas também do conhecimento do homem como condição para o conhecimento de Deus. No mesmo caminho, Madureira (2017) escreve sobre essa relação, falando sobre a importância de se autoconhecer para se autoafirmar diante da sociedade – uma necessidade de identidade que o mundo vive de maneira geral. Uma lacuna que só será resolvida com o conhecimento de Deus sobre nós mesmos.

O tri-perspectivismo de Frame desperta várias reflexões no que diz respeito ao processo de conversão e crescimento espiritual de uma criança. São três perspectivas que se entrelaçam, sendo complementares, respondendo não somente aos aspectos normativos da fé, como também à realidade e à experiência de um pequenino. Associado a isso, este artigo traz a experiência de uma menina de 9 anos apresentada às Escrituras desde cedo, o que refletiu em sua vida adulta ampliando o seu entendimento a partir da revelação de Deus.

TRI O QUÊ? AS TRÊS FORMAS DE ENTENDER O CONHECIMENTO DE DEUS

Frame (2010) apresenta em seu livro “A Doutrina do Conhecimento de Deus” um projeto ousado que, mesmo não sendo um tema tão evidente na teologia, identifica o conhecimento de Deus como chave para a compreensão das Escrituras. Mesmo que o sensus divinitatis tenha sido corrompido pelo pecado, a imagem de Deus ainda permanece e coloca o ser humano em confronto com o conhecimento divino o tempo todo. De acordo com Frame (2010) existem três perspectivas a partir das quais é possível conhecer a Deus:

A perspectiva normativa estuda a Escritura como a lei moral que se aplica a situações e a pessoas; sem essas aplicações a lei não diz nada. A perspectiva situacional estuda o mundo como um campo da ação ética, particularmente aquelas situações que achamos eticamente problemáticas. Mas, ao fazer isso, ela aceita a descrição bíblica do mundo e a realidade das pessoas existentes no mundo. A perspectiva existencial estuda o sujeito ético – seus pesares, sua felicidade, suas capacidades de tomar decisões – mas somente como interpretadas pela Escritura e no contexto do seu meio ambiente situacional (FRAME, 2010, p. 91).

Mas a partir do momento que conhecemos a Deus, ainda que não exaustivamente, podemos enxergar o conhecimento a partir de Deus, do mundo e de nós mesmos. De acordo com Frame (2010), o primeiro tipo de conhecimento conecta o Criador com a criatura, trazendo em si um caráter normativo essencial, que nos protege de abstrações e irracionalismos sobre as Escrituras. O segundo fala de conhecer a realidade, ou seja, a própria criação e então, conhecer a Deus. Como por exemplo o trabalho de um cientista, que analisa diversas situações na Criação e formula teorias, faz ciência e produz conhecimento. E, por fim, o terceiro que trata da perspectiva existencial, permitindo ao indivíduo entender e distinguir entre seres humanos e coisas, podendo ter uma experiência sincera e única com Deus, podendo identificar desumanizações a partir das convicções que são geradas em seu coração.

UMA MENINA, UMA MÚSICA, UMA VIDA

As três perspectivas apresentadas por Frame têm como fio condutor o senhorio de Cristo, seu domínio e cuidado para se revelar ao homem e trazer redenção à sua natureza caída. E aqui entra a história de uma menina com apenas 9 anos que gravou uma canção sobre a Bíblia, música escrita por um caminhoneiro que hoje já descansa no Senhor.

 Inspiração Divina (Cantora Aninha, 1999)
Compositor: Antônio Costa (in memorian)

Bíblia uma obra divina inspirada por Deus,
Bíblia que fala do amor e dos planos de Deus,
Bíblia uma obra tão santa que os salvos entendem,
uma obra divina deixada aos crentes,
Um selo de honra de Deus para o homem.

As tuas páginas lindas me fazem chorar,
Sinto uma grande honra em te estudar,
Vejo em ti o começo e o fim de tudo,
A revelação que é loucura ao mundo,
Sei que és a boca de Deus para o homem.

Bíblia faz o analfabeto ensinar o doutor,
Faz o homem mais bravo falar de amor,
Faz o orgulho do homem cair sobre o chão,
Faz o pecador implorar por perdão,
Dá ao desanimado paz no coração.

Bíblia a grande bandeira do povo cristão,
Erguida como um estandarte levada nas mãos,
Bíblia influência divina que invade o homem,
O mais puro amor tão contagiante,
Palavras que levam o homem ao céu.



Cada trecho dessa canção tem o seu toque. Essa menina de 9 anos, até então, não mantinha o costume de ler a Bíblia e passou a se sentir envolvida pelas Escrituras vivendo cada detalhe enquanto cantava. Uma criança que foi alcançada pela Lei de Deus, na sua linguagem foi gradativamente conhecendo ao Senhor e Ele se revelando, e passou a entender não somente o mundo como também a si mesma. A essência da sua experiência está em crescer com um amor contínuo pela Palavra, dedicando sua vida em devoção à verdade do Evangelho, porque a redenção resgatou seu coração ainda pequena.

CONCLUSÕES FINAIS

O breve texto apresentado aqui é um relato de experiência, é a descrição de uma história de fé que está só no começo. Essa garotinha tem 28 anos hoje, é aluna da Tutoria Avançada do Invisible College e concluiu os seis meses mais recompensadores de toda a sua caminhada cristã. Essas poucas palavras, embora simples, trazem uma urgência e uma certeza: “ensina a criança no caminho […] não se desviará dele” (cf. Provérbios 22.6).

John Frame não só resumiu a experiência cristã de maneira excelente, como deixou um legado: a defesa de que todos podem, sim, conhecer a Deus. Seja pelas Escrituras, pela realidade ou a partir da nossa própria experiência, e não importando o momento ou mesmo a idade, o Eterno sempre estará ali, encontrando meios de se revelar não somente ao adulto, como também a uma criança, não somente por meio da linguagem escrita, mas também por meio de melodias que resgatem o coração do homem para o caminho novamente.


REFERÊNCIAS

DULCI, Pedro Lucas. Videoaulas do Módulo 06 da Tutoria Avançada do Invisible College, 2020.

FRAME, John. A doutrina do conhecimento de Deus. Trad. Odayr Olivetti. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

MADUREIRA, Jonas. Inteligência humilhada. São Paulo: Editora Vida Nova, 2017.

RUSHDOONY, R. J. Palestra na primeira conferência anual da reconstrução cristã do meio-oeste, Illinois (USA), 1986.



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