O sacerdócio acadêmico de John Polkinghorne

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O Deus da teologia cristã é o mesmo que criou o mundo investigado pelas ciências naturais.

Alister McGrath

Ele nasceu e foi criado em um lar cristão, frequentando a igreja com a família desde criança. Hoje físico e teólogo anglicano inglês, John Polkinghorne cresceu no seio de uma comunidade cristã: “Claro, à medida que crescemos, começamos a levantar questões que não nos ocorriam na infância; mas nunca me senti, ao longo desse processo, em uma situação de crise – ‘isso ou aquilo’, ‘siga a ciência ou siga a religião’. Eu sempre quis manter as duas juntas” (2013, p. 118).

Quando estava no ensino médio, Polkinghorne se apaixonou por Matemática. Tinha enorme facilidade com a disciplina, a ponto de auxiliar os seus colegas. Não por acaso, ao ingressar no Trinity College, na Universidade de Cambridge, ele optou por Matemática (2013, p. 118). No tradicional “sermão dos calouros”, ao ouvir a pregação do pastor visitante sobre a história de Zaqueu (Lc 19:1-10), Polkinghorne entendeu que aquele era um momento importante na sua caminhada com Cristo, embora posteriormente tenha compreendido que sua conversão “não foi algo repentino, mas um processo contínuo” (2013, p. 119).

Polkinghorne obteve seu PhD em Física de Partículas com Abdus Salam (1926-1996), ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1979 por suas contribuições à teoria unificada das interações fracas e eletromagnéticas entre partículas elementares. Depois de trabalhar como pesquisador na Caltech, California Institute Technology,  Polkinghorne lecionou na Universidade de Edimburgo (2013, p. 119). Foi, como ele mesmo descreveu, um início bastante convencional de sua brilhante carreira, e que ele entendia ter tudo a ver com a sua vocação cristã:

Ao longo de meus estudos, me interessei pelo modo como podemos usar a matemática para compreender o mundo físico (…) Vi isso como vocação cristã, sem ansiedade alguma. Sentia que tinha certo talento para a coisa e me era possível usar esse talento (2013, p. 119).

Tempos depois ele retornou a Cambridge, mas agora como professor, lecionando por 11 anos. Quando completou 45 anos de idade, passou a considerar que aquele era o momento em que estava chegando ao fim o ciclo de suas contribuições à Física e, nas palavras do apóstolo Paulo, teria completado a sua carreira (2Tm 4:7): “Comecei a pensar no que poderia fazer. É claro que conversei com a minha esposa a respeito, pois seria uma decisão conjunta. Rapidamente e sem drama algum, ocorreu-me a ideia de que buscar a ordenação para me tornar um ministro da Palavra e dos sacramentos era um propósito digno de investimento” (2013, p. 119).

Polkinghorne então iniciou o seu processo de preparação para o sacerdócio em Westcott House, em Cambridge. A notícia de que estava deixando a sua grande carreira e decidindo abraçar o sacerdócio causou certo espanto aos seus colegas: “Acho que muitas pessoas sabiam que eu era religioso, mas não esperavam que eu levasse isso tão a sério (…) A preocupação maior não era que eu estivesse me tornando um sacerdote, mas que eu fosse cristão” (2013, p. 120). Para eles era um tanto incompreensível que uma mente tão brilhante pudesse ser tão “desperdiçada”.

Foi na época de sua ordenação que Polkinghorne publicou The Way The World Is [Como o mundo é], seu primeiro livro sobre o diálogo entre ciência e religião. E o que a providência divina lhe mostrou, com o passar do tempo, foi uma grata surpresa quanto a este tema: “Eu não havia pensado, antes de completar uns cinco anos de ministério, que escrever, pensar e falar sobre ciência e religião se tornaria uma parte importante da minha vocação” (2013, p. 123). Tempos depois ele recebeu um honroso convite para retornar à Universidade de Cambridge como Reitor de Capela, “um trabalho que mesclava aspectos pastorais com serviços acadêmicos” (2013, p. 123). Sua carreira não havia terminado:

Penso ser extremamente importante que a comunidade cristã leve em conta o fato de que o Deus que é o Criador da natureza age tanto por processos naturais, quanto por meio de qualquer coisa. Se alguém pudesse demonstrar para mim que todo o desenvolvimento de vida na Terra é, desde a primeira bactéria até hoje, um processo inteiramente explicável em termos científicos, nem por um momento eu concluiria que isso não foi o resultado dos propósitos criativos de Deus em ação (2013, p. 124).

John Polkinghorne é hoje uma das maiores referências do mundo no debate sobre o diálogo entre ciência e religião, com dezenas de obras publicadas, tendo sido laureado em 2002 com o Prêmio Templeton por suas contribuições. Sua trajetória oferece importantes lições numa época marcada por polarizações onde ciência e religião são tantas vezes colocadas em perene conflito.


Referência:

BANCEWICZ, Ruth [org.]. O teste da fé: os cientistas também creem. Trad. Guilherme Carvalho. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2013.

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