Princípios de uma epistemologia cristã a partir da filosofia reformacional de Herman Dooyeweerd

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Escrito por Leonardo Ribeiro de Aragão, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

Introdução

Teologia e filosofia tem estado em conflito desde os primórdios da igreja, mas é no pensamento de Herman Dooyeweerd que encontramos uma das melhores harmonias entre essas duas ciências. Faremos aqui um breve panorama da história da relação filosofia-teologia e uma breve análise da influência do pensamento do holandês para uma epistemologia cristã.

1. O que tem a ver Atenas com Jerusalém?

O homem sempre esteve preocupado com as questões últimas da vida. Mesmo antes do nascimento de um pensamento “filosófico-científico” os mitos já existiam e tentavam explicar a realidade. Os próprios escritos hebreus da criação do mundo pelo Deus supremo datam de antes do surgimento desse pensamento propriamente dito.1

O pensamento filosófico-científico surge, então, na tentativa de romper com o mito, numa tentativa de explicação imanente e não transcendente. Ou pelo menos assim sugere Danilo Marcondes2.

Nessa perspectiva do surgimento da filosofia como ciência, esta já nasce em conflito com a teologia lato sensu. Com o passar dos séculos, e especialmente com o desenvolvimento do cristianismo, a discussão de qual o papel e o lugar que a filosofia tomava e deveria tomar foi como a maré: se movimentando entre dois pólos: de rejeição ou aceitação total, com algumas posições intermediárias.

Os primeiros pais da igreja já tiveram de lidar com esse dilema. Diante do surgimento das heresias Tertuliano bradou: “O que Atenas e Jerusalém têm em comum?”, num movimento de rejeição completa da filosofia grega.3 Mas, por outro lado, foram Clemente e Orígenes que apresentaram grande apreço e bom uso desta mesma, utilizando-a como porta para desconstrução do pensamento e salvação das almas.4

Embora existam ainda mais uma série de cristãos influentes sobre os quais poderíamos falar, cabe aqui destaque especial para Agostinho com a cristianização do platonismo, ou a platonização do cristianismo, em busca de uma síntese entre filosofia e teologia. Destaque também para Tomás de Aquino e seu posicionamento da teologia como a rainha das ciências; e para as reconhecidas contribuições de Calvino, especialmente a epistemologia.

Entretanto, é nos pensadores mais recentes do neocalvinismo holandês que encontramos algumas das melhores ideias sobre a harmonização e o posicionamento da filosofia dentro do cristianismo. Tanto Abraham Kuyper quanto Herman Dooyeweerd aparecem como pensadores influenciados diretamente por Agostinho e Calvino, seguindo uma tradição de valorização da filosofia.

Dooyeweerd com sua filosofia da ideia cosmonômica, desenvolvimento filosófico da ideia de esferas de soberania de Kuyper, contraria a ideia de Aquino que influenciou o pensamento católico romano e o escolasticismo protestante: o holandês tira a primazia da teologia sobre as outras ciências e define a primazia daquilo que chama de religião.5

A ideia de Dooyeweerd é de que o pensamento de Aquino foi diretamente influenciado por um fundamento estranho ao cristianismo e filosoficamente insustentável, a saber, a ideia de que a razão humana possa ser, em algum grau, autônoma.6 O que  propõe então, em linhas gerais, é que os compromissos religiosos do coração definem as pressuposições do pensamento, e que se dessa maneira a religião assume a primazia do coração humano, a filosofia assume a primazia dentre as ciências. A sua ontologia modal, com os diferentes aspectos da existência, tem a filosofia como pedra angular do pensamento teórico, entendendo-a como inevitável e permeando todos os aspectos modais.7

2. A necessidade de se pensar epistemologia

Com a filosofia devidamente posicionada, e entendendo que esta permeia todos os aspectos da existência, se faz necessário o pensar epistemologia. É indispensável pensar uma teoria do conhecimento que transcenda o aspecto pístico e seja aplicável para todos os aspectos da realidade, a fim de que seja possível ao cristão executar toda e qualquer atividade do pensamento teórico realmente coram Deo. Se faz ainda mais urgente fazê-lo em tempos de pós-modernidade e pós estruturalismo, especialmente porque como Johannes Hessen a definiu, a epistemologia “é com todo o direito […] chamada de philosophia fundamentalis, ciência filosófica fundamental.”8.

A epistemologia como essa preocupação com a relação entre sujeito e objeto teria – a partir do pensamento de Dooyeweerd – de se apresentar no cristianismo de maneira diferente. Especialmente porque o caminho para o conhecimento, como este mesmo aponta, em concordância com Kant, é por meio do ego pensante, assumindo assim um caráter concêntrico.9

A grande diferença do pensamento do holandês para o prussiano, porém, é que aquele defende que o conhecimento verdadeiro do eu só é atingido por meio do conhecimento e do encontro do ser com a sua Origem.10 

Dooyeweerd então, parece estabelecer um caminho diferente para o conhecimento verdadeiro, a saber: Deus > Eu > Conhecimento. Assim sendo, a filosofia da ideia cosmonômica redireciona a epistemologia cristã com alguns novos princípios.


3. Princípios de uma epistemologia cristã

Em primeiro lugar, uma epistemologia cristã precisa ser não reducionista, ou seja, precisa compreender a complexidade da realidade em que estamos envolvidos. Partindo da filosofia da ideia cosmonômica, ela necessita da compreensão de que a realidade é multifacetada, composta por diferentes aspectos da existência e ligada pelo tempo.

Por isso a epistemologia cristã se preocupa não só com o choque entre os aspectos lógicos e não lógicos (i.e., o pensamento teórico) mas também com a experiência ordinária e comum. A epistemologia cristã, e, de maneira mais geral, a filosofia cristã, deve compreender que a experiência comum é não teórica, é um lugar onde “as coisas sempre são concebidas na coerência integral de todos os seus aspectos modais”.11

Como Dooyeweerd articula:

A experiência ordinária não é uma teoria que possa ser refutada por argumentos científicos e epistemológicos […] A experiência ordinária é, contrariamente a esta concepção, um dado pré-teórico, correspondendo à estrutura integral de nosso horizonte de experiência na ordem temporal. Qualquer teoria filosófica da experiência humana que não dê conta deste dado de forma satisfatória estará errada em seus fundamentos.12

Portanto, ser não reducionista, para a epistemologia cristã, implica em romper com um movimento que trata a experiência ordinária como algo a ser refutado, como uma teoria acrítica. Entendendo que a vida e a experiência humana não podem ser reduzidas a conceitos do pensamento abstrato e excluindo a ideia de que o pensamento teórico é capaz de desvendar a realidade como esta realmente é.13

Implica também em um afastamento de qualquer “ismo” da filosofia. Como os sujeitos se relacionam com os objetos experimentando, ao mesmo tempo, todos os diferentes aspectos da realidade, a tentativa de absolutizar qualquer modo da existência – característica comum a todos os “ismos” (historicismo, biologismo, matematismo, entre outros)14 – e entender o pensamento teórico a partir desse modo é inevitavelmente reducionista e incompleta.  

Em segundo lugar, em aproximação com os filósofos pós modernos, a epistemologia cristã se preocupa com as pressuposições.

Como Dooyeweerd afirma a natureza supra-teórica dos motivos bases religiosos, afirma também que esse motivo básico “governa um pensador mesmo quando este […] não está consciente de sua verdadeira natureza.”15 Uma teoria do conhecimento genuinamente cristã compreende que o motivo básico religioso, seja ele apóstata ou verdadeiro, molda as pressuposições e assim permite ou impede que certas convicções sejam transformadas. Sendo necessário para isso uma mudança do motivo básico, uma mudança genuinamente espiritual. O “pensar” de uma perspectiva cristã se torna diferente porque as pressuposições e os compromissos do coração são diferentes.

E em último lugar, uma epistemologia verdadeiramente cristã entende que as consequências da queda são também noéticas – bebendo da herança calviniana e agostiniana. Por isso, compreende as limitações do pensamento teórico, que pode se achegar a verdade através do conhecimento da sua verdadeira Origem mas permanece limitado,  nunca chegando ao pleno domínio da verdade enquanto não estiver completamente redimida, no momento da consumação. Uma teoria do conhecimento cristão pressupõe a condição de inteligência humilhada.

Conclusão

Conclui-se, assim, que a filosofia fundamenta não só a teologia mas todas as ciências dentro do pensamento de Dooyeweerd, com a religião sendo o compromisso do coração ainda anterior ao labor filosófico. Da filosofia cristã do holandês podemos extrair alguns princípios para a nossa epistemologia cristã, dentre eles: o não reducionismo advindo da sua ontologia modal; a preocupação com as pressuposições, fruto da ideia do motivo base religioso e finalmente a condição de humilhação do pensamento teórico, como herança do pensamento agostiniano.



Referências:

DOOYEWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental: estudo sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Trad. Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim de Souza – Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018.

HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. Trad. João Vergílio Gallerani Cuter –  São Paulo: Martins Fontes, 1999.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. – 13.ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.

Notas:

  1. Marcondes, p. 19.
  2. Marcondes, p. 21.
  3. Shelley, p. 99.
  4. Shelley, p. 101.
  5. Dooyeweerd, cf.  p. 161, 194, 195.
  6. Dooyeweerd, p. 87.
  7. Dooyeweerd, p. 200, 201.
  8. Hessen, p. 14.
  9. Dooyeweerd, p. 64.
  10. Dooyeweerd, p. 73.
  11. Dooyeweerd, p. 57.
  12. Dooyeweerd, p. 60.
  13. Dooyeweerd, p. 54, 55.
  14. Dooyeweerd, p. 62.
  15. Dooyeweerd, p. 76.


1 comment

  1. Lucas Ferreira Rodrigues

    Excelente. Que a compreensão de uma epistemologia genuinamente cristã nos leve a orar mais por todos os aspectos da vida.
    “Senhor, me ensine a filosofar para sua glória. Conduza meus pensamento para que eles revelem o Senhor.”

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