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Tomás de Aquino e a inaudita harmonia entre fé e razão

Resenha escrita por Eliceli Kátia Bonan, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2023


TOMÁS DE AQUINO, Santo. Verdade e conhecimento. Tradução, estudos introdutórios e notas de Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. 2ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins fontes, 2011. 416 p.


Tomás de Aquino é a mente escolástica mais influente de todo o período medieval. Como teólogo e filósofo, seus esforços moldaram o pensamento ocidental nos últimos 800 anos. Isso faz dele um dos mais importantes intelectuais de todos os tempos, cujas ideias seguem sendo atemporais e cujos desdobramentos ecoam através dos séculos. 

Para conhecer seu pensamento e influência na formação do mundo como o conhecemos hoje, a obra Verdade e Conhecimento é excelente opção de entrada a esse referencial clássico. Publicado em 2011 pela editora Martins Fontes, o livro compila três breves, mas importantes, textos do autor sobre a verdade, o verbo e a palavra divina e humana. A edição é ainda engrandecida com uma breve cronologia da vida do autor, notas ao texto e um glossário de termos filosóficos e teológicos e, principalmente, por se tratar de edição bilíngue, contém o texto original em latim. 

Não obstante, o que alicerça Verdade e Conhecimento como porta de entrada ao pensamento tomista são certamente os textos introdutórios dos medievalistas Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. Abrindo o livro, Lauand apresenta um estudo introdutório geral ao autor, sendo seguido por Sproviero, que se debruça sobre os conceitos de verdade e evidência. Em conjunto, os dois artigos ocupam quase metade das 416 páginas do livro e dão destaque ao amplo panorama de questões teológico-filosóficas discutidas por Aquino, tornando sua linguagem acessível ao leitor contemporâneo.

Iniciando o texto tomista propriamente dito, na segunda parte da obra, somos apresentados à sua Questão disputada sobre a verdade. Aqui, o autor discorre em 12 capítulos sobre a verdade, sua origem divina no intelecto humano e como todas as verdades são dependentes da verdade primeira. Contra muitos mestres de sua época, ele afirma a possibilidade da verdade absoluta. Desse primeiro texto, já se depreendem importantes argumentos. Para ele, a verdade está na essência das coisas, ou seja, naquilo que o ente divino colocou nelas. Essa verdade pode ser conhecida por meio do intelecto humano, que é dádiva de Deus e, ao mesmo tempo, autônomo em relação a Ele. Se Deus dá ao ser humano o intelecto, então a verdade só pode ser alcançada com instrumentos da pura razão. Ou seja, a interpretação do mundo — o encontro com a verdade — se dá pela razão, a qual só existe porque foi dada por Deus.

Em seguida, temos o breve artigo Sobre a diferença entre a palavra divina e a humana. Nele, Aquino discorre sobre as semelhanças e coincidências da palavra de Deus com o falar humano, aborda o conceito de razão como a compreensão das coisas a partir de sua essência divina, e, por fim, defende o intelecto como grande potência da alma. Para ele, o mundo ser criado por Deus não é um dado apenas da fé, mas também é uma ideia filosófica. Pela razão e pelo exercício filosófico, pode-se provar que o mundo teve uma origem divina e a revelação é apenas complementar, tendo potencial de tornar a filosofia melhor. Ou seja, não há antagonismo entre fé e razão, mas uma relação de complementariedade em que a fé aperfeiçoa a razão e a orienta, jamais a elimina. Por fim, o terceiro texto de Tomás de Aquino apresentado em Verdade e Conhecimento trata da Questão disputada sobre o verbo. Aqui, o autor se debruça sobre o conceito de verbo — a Palavra divina — e busca compará-lo ao falar humano. Esta porção divide-se em 8 capítulos e sua inferência principal é a de que Deus se manifesta no homem por meio do intelecto.

Ao olhar para suas ideias sobre revelação e racionalidade, o pensamento tomista, num primeiro momento, pode não nos parecer de todo inovador. No entanto, para seu tempo, foi totalmente revolucionário. A questão mais crítica de sua época, o século XIII, era a relação entre fé e razão. A efervescência da filosofia, que se dava principalmente no mundo árabe, originou conflitos entre o pensamento filosófico e a teologia. Qual é o lugar de Deus, quando se pode conhecer puramente por meio da razão? Enquanto no mundo árabe Avicena inaugura uma produção que mistura Platão e Aristóteles com o conteúdo do Corão, movimento análogo inicia no mundo latino. Por um lado, cada vez mais ganha espaço um tipo de filosofia que rejeita a revelação divina e a considera antagônica à busca por conhecimento. Por outro, como resposta a isso, desponta Tomás de Aquino, defendendo a reconciliação entre o pensamento cristão e a filosofia grega, tornando-se o principal interlocutor do movimento escolástico.

O que Aquino faz de revolucionário é recolher as grandes contribuições desde Aristóteles aos árabes, harmonizando-as numa síntese profunda com a revelação cristã. Ou seja, diante do problema entre razão e fé, Aquino responde que não existe de fato um problema e ambas podem coexistir, desde que cada uma esteja em seu devido lugar. Ele argumenta que tanto a luz da razão quanto a luz da fé provêm de Deus e, portanto, não podem se contradizer. Assim, a fé não teme a razão, mas a reclama e confia nela. A graça (teologia) não suplanta, mas aperfeiçoa a natureza (filosofia). 

A obra de Aquino teve impacto profundo em todo o pensamento ocidental nos séculos subsequentes. Para a filosofia e para a teologia, dá-se um primeiro passo à autonomia do conhecimento. A filosofia passa a ser uma ciência com métodos e instrumentos próprios, que não depende da teologia ou da revelação para se constituir. Por sua vez, a teologia perde cada vez mais a centralidade nos desenvolvimentos do pensamento humano e Deus, fé e revelação deixam de ser necessários à busca do saber. 

Embora Tomás de Aquino não dê o passo de separação e seu esforço, na verdade, seja num caminho oposto, o resultado de sua filosofia da complementariedade abre os caminhos para a racionalidade do modernismo. A partir daí, o pensamento divide-se em dois partidos: daqueles que se aferram à tradição teológica e desprezam a investigação racional do mundo, e daqueles fascinados com as possibilidades da razão, considerando a teologia pouco interessante e não necessária. É, na verdade, uma interpretação reducionista até mesmo de Aquino, que não opta por nenhuma das visões, mas aceita ambas e as ultrapassa ao encontrar verdade em cada uma delas.

Por isso mesmo, Verdade e Conhecimento é um texto na exata medida para os dilemas do ceticismo pós-moderno. Sua síntese adquire atemporalidade, especialmente ao tratar da abertura do conhecimento e do universalismo, não limitando o saber. Ainda, sua afirmação da verdade e da possibilidade de conhecimento humano traz boas novas às mentes relativistas de nossos dias. Isso posto, embora seja densa, a obra é bastante clara e abre diálogo com os temas mais agudos da filosofia atual. 

Para o leitor cristão, a obra possui tanto benesses quanto armadilhas. Pode-se recorrer a ela como forte argumento à rejeição absoluta de diálogo entre fé e razão. Ainda, Tomás de Aquino é ferramenta imprescindível nos exercícios de se chegar a uma conclusão racional da existência de Deus. No entanto, essa apropriação deve ser feita com reservas. Afinal, como pensadores cristãos reformados mais tarde demonstraram, não é necessário abrir mão da revelação divina para o exercício filosófico. Em realidade, só é possível produzir conhecimento verdadeiro a partir dessa revelação.