Um tópico maior que a vida

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Os cristãos aprendem doutrina a fim de participar profunda, apaixonada e verdadeiramente no drama da redenção. A apreensão meramente intelectual, sem a apropriação do coração e das mãos, conduz somente à hipocrisia.

Kevin J. Vanhoozer

No ano de 1959, Helmut Thielicke (1908-1986), escreveu um opúsculo que se tornou um clássico da teologia: Kleines Exerzitium für Theologen, publicado no Brasil pela editora Vida Nova, em 2014, com o título Recomendações aos jovens teólogos e pastores. Neste mesmo ano, inspirando-se nele, e na humilde tentativa de oferecer uma contribuição mais recente ao tema, Kelly Kapic escreveu Alittle book for new theologians, também providencialmente traduzido para o português como Pequeno livro para novos teólogos. Seu propósito foi mostrar como a teologia, longe de ser uma disciplina meramente abstrata, trabalha com a razão, uma vida de oração, a humildade e o arrependimento.

Não é muito difícil ouvir alguém dizer, por exemplo, que a teologia é nociva à fé, pois “a letra mata”. O pressuposto é de que se trata de uma disciplina fria. distante da vida, cujo resultado é uma fé árida, apática, quando não legalista. Embora isso possa acontecer, Kapic está disposto a mostrar que este é um conceito distorcido de teologia: “A teologia não está reservada à academia: é um aspecto do pensamento e da conversa de todos quantos vivem e respiram, lutam e temem, esperam e oram” (KAPIC, 2014, p. 16). A teologia, nesse sentido, diz respeito a todos nós. Ao pensarmos sobre Deus e Sua presença, estamos refletindo teologicamente. Foi pensando nisso que Lutero disse que somos todos teólogos.

Kapic lembra muito bem a tese do filósofo Ludwig Feuerbach (1804-1872), de que a religião, na verdade, não passaria de antropologia, isto é, tudo que pensamos sobre Deus não seria mais do que uma projeção do que pensamos sobre nós mesmos. O cristão compartilha de um ponto do pensamento de Feuerbach. Ele reconhece que o coração do homem é uma fábrica de ídolos, como dizia João Calvino. O homem é tentado a criar seus próprios deuses. A boa reflexão teológica, assim, “é uma forma de examinar nosso louvor, palavras e adoração com o alvo de ter certeza que eles se conformam somente a Deus. Toda época possui seus próprios ídolos, suas próprias distorções que alteram e pervertem a maneira como vemos a Deus, a nós mesmos e a nosso mundo” (KAPIC, 2014, p. 19).

Em outro clássico, A vida religiosa dos estudantes de teologia, Benjamin B. Warfield (1851-1921), lembra que “o ministro precisa ser um estudioso, sob pena de ser absolutamente incompetente para este trabalho. Mas antes e acima de ser erudito, um ministro tem que ser dedicado a Deus” (WARFIELD, 1999, p. 10). E veja: Warfield não está dizendo que a erudição não seja uma expressão de vida consagrada a Deus. O seu ponto é que a teologia envolve ambas, a erudição e a devoção. Elas jamais deveriam andar separadas:

Às vezes ouvimos dizer que dez minutos sobre seus joelhos lhe darão mais conhecimento verdadeiro, profundo e operante de Deus do que dez horas sobre seus livros. ‘O quê?’, é a reação apropriada, ‘dez minutos sobre seus joelhos podem produzir mais do que dez horas sobre seus livros’? Por que deveria você deixar a Deus quando se volta para seus livros, ou sente que tem que deixar seus livros a fim de voltar-se para Deus? Se estudo e devoção são tão antagônicos assim, então a vida intelectual é, em si mesma, condenável, e de forma alguma pode haver vida religiosa para um estudante, mesmo de teologia. O mero fato de ser um estudante o impediria de ter religião (WARFIELD, 1999, p. 10).

Um tópico maior que a vida, um caminhar progressivo em conhecer e glorificar a Deus (Os 6:3). Tanto Thielicke, no seu tempo, como Kapic, agora, mostram que, longe de ser algo obscuro e enfadonho, a teologia, nas palavras de William Ames, é “a ciência de viver na presença de Deus”, de modo que “a tentativa de separar a vida da teologia faz perder a beleza e a verdade de ambas” (KAPIC, 2014, p.46). A teologia diz respeito a todos nós.


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Referências Bibliográficas:

KAPIC, Kelly. Pequeno livro para novos teólogos. Trad. Elizabeth Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2014.

WARFIELD, Benjamin B. A vida religiosa dos estudantes de teologia. Trad. Alaíde Bemerguy. Recife, PE: Clire, 1999.

1 comment

  1. Lucas Ferreira Rodrigues

    Ainda não conhecia essa definição de William Ames sobre o que é teologia. Achei objetiva e esclarecedora. Creio piamente nisso, que teologia “é a ciência de viver na presença de Deus.”

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