Resenha: Introdução à cosmovisão cristã

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Escrita por Fabiane L. de Assis, estudante do Programa de Tutoria – Turma Essencial 2020

Publicada originalmente em 2008 e escrita por Michael W. Goheen e Craig G. Bartholomew, Introdução à Cosmovisão Cristã relaciona Evangelho e vida. A obra evidencia a importância de uma visão de mundo, isto é, de uma cosmovisão que aponte para o “senhorio de Cristo sobre todos os aspectos da vida” (2019, p.16). Quanto ao uso do termo cosmovisão, Michael e Craig destacam sua origem na tradição filosófica europeia e advertem que a acepção adotada não é meramente “intelectualista” ou “racional”, pois “só tem valor à medida que nos permite compreender mais fielmente o evangelho que está no centro da história bíblica e viver mais plenamente nessa história” (2019, p.19).

Uma vez que pressupõem exegese cultural, os estudos de cosmovisão precisam ter os princípios fundamentais das Escrituras bem estabelecidos, a fim de que o Evangelho não faça concessões ou se acomode “à idolatria de qualquer cultura em particular” (2019, p.20). O livro, além de prefácio, posfácio pastoral, índice de passagens bíblicas e índice de assuntos, conta com nove capítulos nos quais os autores abordam questões como o Evangelho e o chamado da Igreja, a origem do termo cosmovisão, os pilares da visão de mundo bíblica, os fundamentos da cultura ocidental, o viver na intersecção entre duas visões de mundo diferentes e, finalmente, orientações práticas para algumas áreas da vida pública.

Narrativas moldam vidas. Que histórias são compartilhadas pelo grupo social no qual a comunidade de fé está inserida? O capítulo 1 propõe uma reflexão a respeito da Igreja e de sua missão. O Evangelho do Reino não pode ser compreendido como uma entre outras narrativas ou ser reduzido à condição de mensagem religiosa privada. As Escrituras contêm a “verdade pública, universalmente válida, verdadeira para todas as pessoas e para a totalidade da vida humana” (2019, p. 26). Como seguidores de Cristo, somos enviados ao mundo com a responsabilidade de encarnar essa verdade e testemunhá-la “em todas as áreas da vida pública (…) e em todos os outros aspectos da experiência humana” (2019, p.29).

Negligenciar essa missão significa atribuir papel secundário às Boas-Novas, o que levará à concessões e, consequentemente, à infidelidade. No capítulo 2, os autores destacam, entre outros aspectos, o caráter religioso de uma cosmovisão. A partir do pensamento de James Sire, explicam que “no âmago do nosso ser, cada um de nós tem uma orientação religiosa, seja na direção do Deus verdadeiro, seja na direção de um ou mais ídolos (…)” (2019, p. 46). Uma cosmovisão, portanto, é um compromisso de fé, uma forma de perceber a realidade e de responder à questões fundamentais para o ser humano a respeito de sua origem, de seu destino e do motivo de sua existência. Posto isso, uma vez que esse conjunto de crenças dirige nossas ações, é essencial que o cristão seja capaz de identificá-lo e enunciá-lo.

Nos capítulos 3 e 4, os autores apresentam as doutrinas da Criação, do Pecado e da Restauração, crenças fundamentais da cosmovisão bíblica. A doutrina da Criação aponta para a presença, o envolvimento e a intencionalidade do Deus trino e soberano com relação ao mundo criado. Esse mundo, que veio à existência por meio de Sua palavra, continua sendo por ela sustentado e “carrega em si uma lei para sua existência, instituída pelo próprio Deus” (2019, p. 68). A vida do ser humano, portanto, e de toda a criação não humana, é uma vida em resposta ao Criador, o que implicará em dependência, obediência e relacionamento com Ele. A doutrina do Pecado descreve o processo de ruptura do estado anterior de coisas: de acordo com Gerhard von Rad “o homem abandonou a relação de dependência. Ele se recusou a obedecer e desejou se tornar independente. A obediência não é mais o princípio orientador de sua vida, mas seu conhecimento e vontade autônomos” (2019, p.81).

O afastamento do princípio estabelecido pelo Criador, então, deixa o homem e a natureza sujeitos à distorção e corrupção do pecado. A doutrina da Restauração, como assinalam Goheen e Bartholomew, ensina que “Deus não dá as costas para seu mundo rebelde; ele o abraça com amor. Um amor pactual (…) (2019, p. 89)”. A salvação em Jesus, providenciada pelo Criador “antes da fundação do mundo”, revela-se progressiva, restauradora e abrangente, isto é, se expressa nas alianças feitas por Deus com seu povo ao longo da História, implica o restabelecimento da shalom original na criação humana e não humana e sujeita tudo ao reinado de Cristo. A Igreja é vocacionada à missão de cooperar com Deus anunciando as Boas-Novas do Seu domínio retomado por Cristo. Um chamado a ser cumprido dentro de um contexto cultural específico.

Quais são os deuses do nosso tempo? E qual é o conjunto de crenças que o molda? Nos capítulos 5, 6 e 7, os autores se dedicam a uma descrição das raízes da cosmovisão da cultura ocidental moderna, assim como de suas crenças dominantes. Rivalizando com o cristianismo, o humanismo confessional entra em cena substituindo “Deus como Criador, Regente e Salvador”. De natureza secular, naturalista e racionalista, essa cosmovisão percebe o mundo como “separado de Deus”, considera-o (o mundo) “como tudo o que existe” e entroniza a razão, via método científico, como garantidora da “felicidade, liberdade, prosperidade material, verdade e justiça” (2019, p. 112, 113). A partir do pensamento do historiador cristão Dirk Vollenhoven, Michael Goheen e Craig Bartholomew traçam um panorama dos períodos históricos renomeando-os considerando o protagonismo do Evangelho.

Deste modo, as nomenclaturas dos períodos clássico, medieval, moderno e pós-moderno são substituídas, respectivamente, por período pagão (cultura que “se desenvolveu sem a luz do evangelho”), período de síntese (de fusão das cosmovisões cristã e humanista), período antitético (de “hostilidade entre as cosmovisões”) e período neopagão (que nomeia “uma cultura nascida da rejeição ao evangelho”). Conforme análise dos autores, a contemporaneidade tem manifestado quatro sinais que precisam ser discernidos com clareza pelos cristãos que “buscam vivenciar as implicações de uma cosmovisão formada e permeada pelo evangelho” (2019, p. 164, 165). A pós-modernidade (denunciando a falência dos deuses modernos), o consumismo (atribuindo valor ao que tem “utilidade”), o renascimento do cristianismo (mantido na esfera privada) e o ressurgimento do islamismo (com atitude profundamente crítica ao ocidente) compõem esse complexo pano de fundo no qual a cultura contemporânea se desenvolve.

Evangelho: contextualizações fiéis ou concessões infiéis? Nos capítulos 8 e 9 somos chamados ao enfrentamento e também a uma reflexão prática envolvendo seis áreas específicas da vida pública. Como testemunhas do reino vindouro, vivemos “um embate missionário em que duas narrativas absolutas e abrangentes (…) se chocam” (2019, p. 196). A fim de não sermos assimilados pela cultura, é essencial uma postura de participação crítica e isto implica treinar nossa percepção a respeito de qualquer evento da realidade para descobrir “algo da boa estrutura da criação divina e também indícios de como ela tem sido deformada pelo pecado” (2019, p. 203). É partindo desse princípio que os autores apresentam a perspectiva da cosmovisão cristã sobre seis áreas da vida contemporânea: negócios, política, esportes, arte, mundo acadêmico e educação. Qualquer aspecto bom e legítimo da criação pode ser distorcido “assumindo uma posição de adoração que por direito não lhe pertence” (2019, p. 227). Idolatrias são, portanto, eliminadas com o culto correto ao verdadeiro Deus.

Dificilmente alguém manterá a mesma percepção da realidade após iniciar os estudos sobre a cosmovisão cristã, pois ela, de fato, “faz com que você se interesse por tudo” (2019, p. 16). Expressá-la com fidelidade em todas as esferas da vida, por meio de palavras e ações, é a missão da Igreja. Trata-se de recuperar o Evangelho por aquilo que ele é: a verdade sobre o mundo. Um embate com a cultura, portanto, será inevitável. Cabe a nós – comunitariamente e individualmente – reconhecer o propósito divino na esfera em que fomos colocados, expor como o princípio criacional está sendo distorcido ali e buscar o discernimento para uma ação que aponte para o verdadeiro Deus. A tarefa é de longo prazo e está longe de ser simples, requer fidelidade e obediência; nas palavras de Eugene Peterson, “uma longa obediência na mesma direção”.


Referência:

Goheen, Michael W.; Bartholomew, Craig G. Introdução à Cosmovisão Cristã: vivendo na intersecção entre a visão bíblica e a contemporânea. Trad. Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2019.

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