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A igreja como um pacto: as contribuições da teologia pactual para um modelo eclesiástico

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Escrito por Marlon Girardello, estudante do Programa de Tutoria Essencial 2022


“O conhecimento da lei desperta a necessidade da graça.”

Herman Bavinck

Não é raro vermos que algum colega ou amigo próximo trocou de igreja local, pois há uma rotatividade elevada entre denominações. Aqui, não queremos entrar no mérito dos motivos, mas refletir sobre a seguinte questão: e se considerássemos a nossa união com a igreja local como um pacto aos moldes dos pactos que Deus realizou com seu povo — principalmente, quando pensamos no Pacto da Graça? Pensamos aqui que a igreja deveria ser um modelo de pacto, conexão e aliança. Em uma sociedade tão fragmentada e desgastada quanto aos relacionamentos, de onde vem o exemplo de conexão entre as pessoas? Diante de um relacionamento genuíno com o Deus trino, deveríamos lidar melhor com as diferenças entre os irmãos. Se temos Cristo como mediador entre nós e Deus e entre nós e nossos irmãos, quais seriam os motivos que realmente nos fariam abandonar a comunhão com a igreja local para ir para uma nova comunidade onde um novo relacionamento precisará ser estabelecido? Trocar de igreja não deveria ser como trocar de carro! Deveria haver dor na quebra da aliança com os irmãos, mas não parece ser o caso nesse cenário consumista e utilitarista atual. É inegável que há igrejas que necessitam serem abandonadas porque abandonaram o Evangelho de Cristo, entretanto, a relação pactual estabelecida na caminhada cristã deve ser considerada. 

É distintivo das alianças de Deus, por mais que algumas delas tenham o caráter condicional, que a graça sempre esteve presente, tanto na Antiga como na Nova Aliança. Deus sempre foi um Deus restaurador e resgatador, ao mesmo tempo que zelava por sua Lei. Na Nova Aliança, isso se tornou ainda mais notório, conforme comenta Geerhardus Vos a respeito do “novo berith” profetizado por Jeremias1: “as duas características mais distintas da nova ordem de coisas estão descritas. Uma é: Yahweh criará a obediência à Lei por meio de sua inscrição no coração. A outra é: haverá completo perdão de pecado”2. Como essa graça atua nos relacionamentos relacionados à igreja local? Nossas igrejas têm como marcas ser meio de instrução, graça e perdão? Talvez não nos pareça tão estranho hoje, mas no que tange à família, não era natural que alguma pessoa desejasse o rompimento da aliança familiar (vemos isso na parábola do filho pródigo3), assim também o era quanto ao corpo da igreja local. 

Se nem a igreja, que deveria ser reflexo das alianças de Deus, se compromete com relações pactuais, como esperamos que a sociedade tenha relações morais mais duradouras? Temos que entender que a igreja deveria ser um celeiro de virtudes; onde é gerado um florescimento humano por meio de toda a revelação bíblica, de Gênesis a Apocalipse, tendo em vista as alianças feitas por Deus com os homens. Essa percepção não apenas nos dá uma ideia de continuidade, mas também de fidelidade e compromisso.

Ao invés de serem comunidades morais, as igrejas, por vezes, se tornam repetidoras do zeitgeist, no que tange os relacionamentos; são filhas de Caim que, ao serem perguntadas sobre onde está o irmão, respondem com outra pergunta quanto a serem guardiãs do irmão. Roel Kuiper comenta:

Valores morais devem obrigatoriamente ser suficientes para mover as pessoas no sentido de estabelecer relações morais duradouras (relações de preocupação e solidariedade). Isso são, por definição, valores que exigem total comprometimento do nosso sujeito. Sem a proliferação desses valores, a cultura do desprendimento seguirá em sua obra disruptiva. A menos que a sociedade possa ser vista de uma nova maneira em relação a tais valores morais, a alienação e a desconexão continuarão sendo forças atuantes.4

A maneira na qual a igreja, descrita em Atos 2:42-47, se configurava não expirou e nem deve ser relegada à sua época. O povo escolhido pelo Senhor continua por meio da igreja que carrega o Evangelho de Cristo, aquele que havia sido predito e revelado progressivamente na Antiga Aliança. Continua sendo necessário que os irmãos caminhem com um só povo, perseverem na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. É na comunidade moral que haverá exortação de pecado, aconselhamento sobre casamento e ensino sobre criação de filhos, por exemplo. É um cuidado com a vida do outro de maneira completa, com todas as dinâmicas envolvidas. Não é só uma questão de levar pessoas a Cristo, mas também de ensinar como caminhar. Religião não é adoração ou serviço abstratos; ela é adoração e serviço ao verdadeiro Deus, e especificamente de acordo com sua revelação5. Não são apenas pessoas para serem entretidas, mas postulantes em adentrar o Pacto da Graça, por meio da semente da mulher que pisaria a cabeça da serpente6. Igrejas que não possuem um entendimento pactual, tendem a ser dirigidas pelo entretenimento, pois as pessoas entram e saem de qualquer jeito. Os fatores que mantêm as pessoas são políticos, sociais, econômicos e psicológicos, mas não são fatores morais. Rejeitam o corpo em detrimento de fatores individuais. A questão nunca foi sobre apenas “aceitar a Jesus” e ganhar almas, mas, sim, de entrar em um pacto.

Ao termos uma leitura bíblica fragmentada quanto às Antiga e Nova Alianças, Pacto das Obras e Pacto da Graça, dificilmente entenderemos o impacto da grande salvação que nos foi dada. A igreja é embaixadora e proclamadora dessa salvação, mas qual o poder de uma mensagem fragmentada? O triunfo de Cristo na provação do deserto ganha outros contornos quando colocado em comparação com a provação de Adão e Eva. Assim como essa, tantas outras conexões são encontradas no texto bíblico que relacionam a Antiga e a Nova Aliança. Deus se revelou de maneira concisa e perene. Vos comenta que “observaremos que em todos os numerosos apelos à Escritura, nosso Senhor mostrou ser defensor daqueles que fazem da Escritura um livro aberto, um livro para o povo”7.

Considere, na próxima vez que você estiver cultuando a Deus em sua igreja local, a natureza dessa relação cultual. Você não está apenas em um local, como se estivesse em um mercado que entra e sai a depender dos preços praticados, mas está sob uma aliança com Deus e com seus irmãos. É em um ambiente de aliança que você terá segurança para ser ensinado, repreendido, corrigido e instruído. 


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1 Jeremias 31:31-34.

2 VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos. Traduzido por Alberto Almeida de Paula. 2ª ed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2019, p. 362.

3 Lucas 15:11-32.

4 KUIPER, Roel. Capital moral: o poder de conexão da sociedade. Tradução Francis Petra Janssen. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2019, p. 23.

5 VOS. op. cit., p. 410.

6 Gênesis 3:15.

7 VOS, op. cit., p. 432-433.


Referências Bibliográficas

VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos. Traduzido por Alberto Almeida de Paula. 2ª ed. São Paulo:Cultura Cristã, 2019. 496 p.

KUIPER, Roel. Capital moral: o poder de conexão da sociedade. Tradução Francis Petra Janssen. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2019. 310 p.