A Ontologia como princípio da formação de uma cosmovisão cristã a partir da vocação de Moisés

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Escrito por Arthur Garcia Ferreira Martins, estudante do Programa de Tutoria 2020 – Turma Avançada

Introdução

Para a formação de uma cosmovisão cristã, é necessário considerar a ontologia como precedente da epistemologia, ética, ou qualquer outra classe de análise filosófica. Deste modo, com base na proposta de James Sire, e embasados na biografia de Moisés, analisaremos como a mudança de sua cosmovisão foi indispensável para converter-se de seu “drama pessoal” para o Teodrama.

1. Ontologia como ponto de partida

James Sire propõe que a primeira (de sete perguntas) para se estabelecer uma cosmovisão seria uma pergunta ontológica, ou seja, “o que é a realidade primordial?”[1] A pergunta inicial seria voltada para a pré-concepção de que algo existe. Se este algo existe, que é este algo? No que consiste o que existe? À partir desta resposta, então, seguimos para a epistemologia, onde analisamos de que maneira podemos conhecer o que existe. De que modo, o que existe é cognoscível?

A ontologia cristã aponta para o Ser de Deus: “Deus é o ser infinito, pessoal (triúno), transcendente e imanente, onisciente, soberano e bom que criou o universo.”[2] Deus infinito-pessoal é o que significa ser. Sendo o Deus Eterno a realidade última, ou o que é realmente real, tudo se define e se conhece à partir dEle como ser. Nada é, a não ser Deus. Não se pode ser mais fundamentalmente real do que isso. Deus se revelando como Aquele Que É, significa que por sua própria natureza nunca poderia não ser. À partir dessa constatação, tudo o mais só pode existir seguindo a determinação dAquele que é.

Desse modo, aplico a epistemologia (conheço o que existe) sempre tomando como ponto de partida tal visão ontológica (o que é). “Se é pelo Verbo que todas as coisas foram feitas, todas as coisas têm um caráter particularmente determinado. Elas são uma coisa e não outra; há ordem, não caos.”[3]

2. Uma epistemologia da fé

Tendo definido a ontologia cristã, à qual só pode ser trabalhada pela fé, podemos então, seguir para a epistemologia. Anselmo de Cantuária pode muito bem nos deixar pegadas ao declarar “creio para poder entender”. Crendo em um Deus infinito-pessoal, posso entender e conhecer o que ele criou, a partir de sua natureza e propósito. “Podemos entender o universo porque um Deus inteligível o fez para ser entendido.”[4] Mas só a fé no EU SOU pode abrir caminho para a compreensão da verdadeira natureza das coisas criadas. À partir da definição ontológica — a realidade primeira sendo o Deus bíblico, o universo e as subsequentes questões acerca de cosmovisão não dizem respeito nem (a) do que alguém imagina; (b) nem do que os cientistas dizem ser; o cosmo é o que ele foi feito para ser. Sua natureza e seu caráter são determinados por Deus. As pessoas – cada um individualmente e todas juntas — são o que Deus as fez ser, não o que elas pensam que são ou se declaram ser.

Sendo assim, cada um pode dizer o que quiser acerca de si mesmo, mas isso não determina quem elas mesmas são. Elas são o que Deus as fez ser, pois ele detém o poder criador e preservador (ordenador) do que cria. “O caráter do mundo é o que ele foi criado para ser.”[5]

3. O chamado de Moisés como representação

Ao analisarmos a jornada de Moisés, percebemos que nos dois primeiros capítulos de Êxodo, o que se tem é a descrição de seu drama de vida pessoal. Não há registro de nenhuma relação pessoal com o Deus infinito-pessoal. Ao se revelar para Moisés na sarça ardente, Moisés ouve de Deus que seu nome é EU SOU O QUE SOU. Naquele momento, o EU SOU (proposição ontológica) também envia Moisés a uma missão à qual ele é extremamente reticente. O longo diálogo alterna entre a recusa repetitiva de Moisés em desafiar o faraó e um dos maiores impérios da Terra, e a insistência dAquele Que É, com a afirmativa de que “Eu estarei com você”[6]. Depois de provas miraculosas e insistência divina, Moisés aceita a missão. Tendo Sire proposto uma das definições de cosmovisão como “estrutura de plausibilidade”, vê-se que Moisés considerava completamente absurdo e inconsistente a ideia de um homem velho tendo apenas um cajado, desafiar o rei e seu exército. Porém, sua estrutura de plausibilidade é alterada à partir do momento em que uma nova ontologia é lançada diante dele. Se o SENHOR É a realidade primordial, ou o realmente real, então, Ele mesmo é o criador e sustentador de faraó e do império egípcio, e, também, Ele é mais real que tudo que Moisés constatou em oitenta anos como realidade primordial.

Hebreus capítulo onze declara que Moisés preferiu Cristo aos prazeres pecaminosos do Egito. Se Moisés teve a compreensão profética de que Cristo estava despojando toda autoridade pela sua cruz, submetendo inclusive o faraó à sua autoridade, não posso garantir, mas a mudança de sua cosmovisão abriu espaço para que a Palavra de Deus fosse bem-vinda e ele a obedecesse.

Sendo assim, obediência à Palavra de Deus pode ser considerada implausível, sem uma alteração da cosmovisão.

4. A piedade como retorno à sarça

Analisando a pessoalidade do Deus EU SOU, nota-se que é a interação real do homem com seu Criador que abre seus “olhos do coração” (cosmovisão). Sendo assim, observa-se que na obediência de Moisés, este sempre a faz acompanhado da prática da oração e da escuta da Palavra dita pelo EU SOU.

A oração para o cristão, assim como para Moisés, é sempre o retorno à sarça. Sempre o retorno àquela experiência de amolecimento do coração para ter os olhos abertos para ver o que antes era implausível. A leitura devocional das Escrituras (assim como seu estudo) sempre são um retorno à experiência da sarça, onde o coração é sensibilizado, e a cosmovisão é harmonizada pela relação com o EU SOU. Sendo cosmovisão “estória-mestre”, a prática da piedade sempre conduz aquele que a pratica para fora de seu drama pessoal, e o põe nos trilhos do drama divino novamente.

Conclusão

Nossa necessidade como cristãos é mantermos claramente uma ontologia precedendo a epistemologia. Como Moisés, mantendo os olhos abertos para a realidade eterna do SER de Deus, toda nossa percepção do que conhecemos é definida pelo Deus infinito-pessoal. Assim, uma cosmovisão cristã pode ser construída. A piedade é o caminho pelo qual essa estrutura de plausibilidade deve ser estabelecida e expandida, como sempre aquele retorno à sarça, lugar de fala e escuta em relacionamento com o Deus infinito-pessoal.


Referência:

SIRE, James W. Dando nome ao elefante: cosmovisão como um conceito. Tradução de Paulo Zacarias e Marcelo Herberts. – Brasília, DF: Monergismo, 2012

Notas:

[1] James W. Sire, Dando Nome ao Elefante: cosmovisão como um conceito. Tradução de Paulo Zacarias e Marcelo Herberts. – Brasília, DF: Monergismo, 2012, p. 30,78%

[2] Idem, p.32,41%

[3] Idem, p.33,45%

[4] Idem, p.34,34%

[5] Idem.

[6] Bíblia Nova Versão Transformadora. Êxodo 3:12.


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