fbpx

A verdade é trinitária: ultrapassando os dilemas metafísicos

Share on telegram
Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email

Escrito por João Uliana Filho, estudante do Programa de Tutoria em Filosofia de 2021

INTRODUÇÃO

Perguntar-se sobre a realidade é, ao mesmo tempo, perguntar-se sobre a divindade. Nas bases do pensamento, separar essas duas questões como se fossem independentes e indiferentes, é ingenuidade e desconhecimento. Mentes modernas que almejam, pelo puro raciocínio, chegar à medida da realidade, e excluem o conhecimento de Deus, acabam desconsiderando exatamente aquilo que almejam.

O dilema aparece desde muito cedo na filosofia, não exatamente porque haja uma recusa explícita e generalizada ao divino, mas porque o método escolhido por eles o exige. Desde Tales e os chamados pré-socráticos, tencionou-se romper com os limites do mito presente na poesia de Homero e Hesíodo, optando quase instintivamente pelo uso da razão como ponto de partida e de chegada. Obviamente, este era o aparato disponível para a compreensão consciente de si e do mundo. Não obstante foram também chamados de naturalistas, e isso já nos diz muito.

Ao olhar para a natureza “pensando através de conceitos” e não mais “por imagens e mitos”, vemos surgir a figura do homem moderno; sob “a concepção que eu penso acerca de Aquiles, no lugar da antiga, eu me identifico com Aquiles”[1], comum na poesia. Pensar por conceitos implica o pensamento por abstração. Não se faz uma “teoria de tudo”, mas das partes, e esse movimento de especialização, quando faz o caminho de volta, a parte indo em direção ao todo, encontrará dificuldades de coerência e harmonização. A visão mítico-poética de Aquiles permitia ver o herói em suas contradições, naturais a todo ser humano. Já o pensamento abstrato não admite contradição e incoerência. Surge então a pergunta: como unir as partes ao todo? Em que, e como, o todo se relaciona às partes?

Essa dificuldade exigiu respostas. E não se trata, aqui, de uma defesa do pensamento mítico, mas de como podemos compreender a realidade num todo coerente. Ou melhor, se não no mito dos poetas, nem na razão abstrata dos filósofos, em que a realidade pode se apoiar para manter sua existência coerente?

1. O INÍCIO DO PROBLEMA: UNIDADE OU PLURALIDADE?

O pensamento abstrato, que recorta um aspecto da realidade para a reflexão lógica numa atitude teórica, passa a dominar a tarefa dos Homens que se propõem a responder as questões últimas da realidade, a busca pela arché, a origem mais elementar de tudo o que existe. Tal busca pela origem e finalidade do universo, mais especificamente, da própria vida, ocupa a mente de naturalistas como Heráclito, Parmênides, Demócrito, Zenão, e tantos outros.

Parmênides (530 – 460 a.C.), natural de Eleia, usando da razão que lhe servia, observou que o politeísmo dos poetas gregos era absurdo e contraditório. Segundo Gordon Clark, “a preocupação de seus poemas era atacar a estupidez e a impiedade do pluralismo”[2]. Para este eleata, fazendo uso do pensamento lógico e da lei da não-contradição, a conclusão sensata era o monismo e a unidade plena do Ser, porque somente o Ser é. A unidade plena do Ser que é, resolveria toda contradição pluralista.

Essa qualidade do Ser sem contradição permanece imutável, estática, e jamais entrará em devir, visto que é, e nada lhe falta. Num de seus poemas, As Duas Vias, ele diz: “[o Ser é] igual a si mesmo em todas as suas partes, encontra-se de maneira idêntica dentro de seus limites”[3]. Dessa forma é descrita a existência, em termos de unidade, o Uno corresponde ao elemento unificador de toda a realidade. Também a verdade é da ordem do Ser. No mesmo poema, diz, “pois pensar e Ser é o mesmo”[4]. Temos em Parmênides a completa absolutização do Ser logicamente construído.

Antes mesmo de Parmênides, Heráclito de Éfeso (525 – 475 a.C.) desenvolveu seu pensamento, também monista, agregado ao que chamou de Logos, o fogo primordial que gera o movimento. Heráclito enfatizou, ao contrário de Parmênides, o caráter mutável do restante da realidade. Seu empirismo racionalista levou-o a observar que tudo no universo estava constantemente em movimento de transformação. Além do Logos, que permanecia imutável, tudo está em devir, portanto, nada é, e nada existe de fato. Tudo está em movimento de tornar-se algo.

Seguindo seu pensamento, a existência se dá numa luta intensa entre forças opostas. Em O Mobilismo, ele diz: “Tudo se faz por contraste, da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia”[5]. Notamos que Heráclito fala em termos harmônicos, não existe unidade plena, o que sugere que mesmo os resultados das mudanças sintetizam novas mudanças, pluralidades, e não unidade.

Contrariando os monistas (Heráclito e Parmênides), dispomos dos pluralistas. Estes se perguntaram “como um simples Uno, desprovido de toda a diferença, poderia gerar pluralidade”[6]. Olhando para a inegável multiplicidade do universo, filósofos posteriores como Empédocles e Demócrito criaram uma ideia mecanicista da realidade, composta de partes, onde todas as infinitas partes, chamados de átomos por sua característica indivisível, em um movimento eterno, funcionam perfeitamente. “O universo é uma grande máquina”[7].

O pensamento racionalista, logo, vai sendo construído desde os primórdios da filosofia. Todos partindo de suas capacidades de observação e raciocínio constroem sistemas que ora se contradizem, ora parcialmente se assumem e se fundem. Contudo, percebemos que a abstração teórica leva diretamente ao dualismo. Herman Dooyeweerd observou que é justamente o que o pensamento abstrato faz. Abstraímos parte da experiência concreta porque racionalmente não damos conta do todo. Entretanto, após a análise especializada da parte, esta, precisa voltar ao todo. Nesse processo, a coerência se perde. Dooyeweerd levanta a questão; “qual é o elo contínuo de coerência entre o aspecto lógico, e os aspectos não lógicos da nossa experiência, da qual esses aspectos são abstraídos na atitude teórica?[8]

2. QUEM ESTÁ COM A RAZÃO: A TRINDADE ONTOLÓGICA

Quando somos incapazes de unir as partes ao todo, absolutizamos uma dessas partes, ou um sistema de partes. “Esta é a fonte de todos os ‘ismos’”.[9]

O problema se configura desde o ponto de partida, e percorre toda a filosofia pagã. Pelo mesmo ponto de partida, o sofista Protágoras assumiu que o homem é a medida de todas as coisas, enquanto Sócrates conferia dignidade apenas à vida racional. Seu maior discípulo, Platão, deu ao intelecto a direção da vida humana. Através dele, pensava, se alcançaria o mundo ideal, suprassensível. Notemos que Platão empreendeu uma tentativa de resolver o dilema epistêmico dos pré-socráticos, mas não abandonou o ponto de partida racional. Assim é a filosofia pagã.

Em certa medida, é preciso ser indulgente com os filósofos. Não negamos que ao olhar para a realidade, questões sérias e complexas como a unidade do Ser e a pluralidade dos objetos, nos coloca diante de um dilema metafísico real. Não é esta a questão. Nossa preocupação é quanto ao fundamento que compõem toda a realidade e que nos permite olhar para ela concreta e coerentemente. Vejamos o que diz o teólogo holandês radicado norte-americano Cornelius Van Til, em resposta ao neoescolástico francês Étienne Gilson, quanto à questão do sentido da experiência humana:

“a menos que ele queira que interpretemos a natureza e tudo o mais em termos de Trindade ontológica, ele não consegue dar sentido à experiência humana. As interpretações da razão natural, feitas com o auxílio de princípios abstratos e fatos brutos, pode, pela natureza do caso, conduzir, com o racionalismo (Parmênides), a uma validade universal que é destituída de conteúdo, ou, com o empirismo (Heráclito), a um particularismo que não tem universalidade, ou a um fenomenalismo, que é um meio termo entre as ambas posições e compartilha das fraquezas de ambas”[10]

Gilson carrega resquícios da filosofia que se desenvolveu principalmente na escolástica, mas que tem origem nos pensadores gregos mais antigos. Segundo a nomenclatura usada por Dooyeweerd, Gilson é orientado pelas dualidades de natureza e graça, e matéria e forma. Os modelos de pensamento grego repousam sobre dicotomias e fragmentos racionalistas que não correspondem ao todo coerente da realidade como a experimentamos. E, precisamos afirmar, o problema não está na realidade em si, mas em nós, quando nos afastamos do Criador para, por nossas próprias faculdades, buscarmos um sentido na própria realidade, ou em nós mesmos, que não deixamos de ser parte da mesma realidade. Sem o Criador, a criação não terá sentido, e nossos sistemas filosóficos serão sempre mutilados.

Primeiramente, não podemos mais tratar o ser humano apenas em termos racionais, mas como unidade completa que realiza e sofre a experiência também completa da realidade. Em seguida, nota-se uma necessidade do ego humano – não só da razão, a necessidade de dar significado a si mesmo, ao mundo que o cerca, e ao Deus transcendente que inevitavelmente o confronta em toda experiência. Nesse sentido, afirmamos tranquilamente com Guilherme Braun, que: “a Trindade é a única base da unidade e da diversidade do cosmo; portanto, é também a raiz transcendente da filosofia reformacional e da teologia do pacto”[11]. E segue: “O próprio Deus triúno, por natureza, é a base da unidade e da diversidade da realidade criada […] não há (ideias) universais eternas existentes ao lado do Deus triúno”[12].

A pluralidade do universo é irredutível a qualquer conceito, ao mesmo tempo que mantém sua integralidade e unidade criacional. Por isso a Trindade não surge como um conceito filosófico como o Logos, o Uno, o átomo ou a Ideia. Ela não é descoberta por um movimento de esforço racional, mas desvela-se, intencionalmente, como Deus Criador, Sustentador e Provedor.

Devemos ter o cuidado de não confundirmos a arché dos gregos com a Trindade. O princípio grego é, antes de tudo, impessoal e próprio da natureza. A Trindade é, antes, um conceito revelacional e relacional, inteiramente pessoal e distinto da criação, no qual toda a realidade subsiste e recebe significado. É abrangente o suficiente para dar conta da unidade do Ser coerentemente com a pluralidade dos elementos da Criação. Conforme Braun: “O Deus triúno é a verdadeira Origem, que constitui e garante com coerência a unidade e a diversidade por meio de sua providência”[13], e com razão acrescentaríamos, que esta é a coerência que falta para toda a filosofia que ousou perguntar-se sobre o mundo e o ser no mundo, prescindindo de Deus, ainda que a pergunta seja legítima.

CONCLUSÃO

A história da filosofia mostra que nesse caminho não foram poucas as vezes que a filosofia perdeu vitalidade diante das impossibilidades com as quais se deparava. Cinismo, pessimismo, niilismo, e tantas outras contra-filosofias se viram como a única resposta àquilo que não tinha resposta. Isso aconteceu porque todas elas partiram dos mesmos princípios, subtraindo o Criador da criação. Por isso o apóstolo Paulo, ao escrever aos crentes de Colossos, não se intimida em afirmar que “Ele [o Deus trino, na pessoa do Filho] é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste. […] Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude”[14].


Quer uma curadoria de conteúdo Teológico?
Clique aqui e participe do nosso Canal no Telegram.


[1] Cf. REALE, G. e ANTISERI, D. Filosofia: Antiguidade e Idade Média, vol. 1.Paulus, 2017, pp. 26-27.

[2] CLARK, Gordon H. De Tales a Dewey. Cultura Cristã, 2012, p. 30.

[3] PARMÊNIDES. Poema – As Duas Vias. Apud. MARCONDES, D. Textos Básicos de Filosofia. Zahar, 2007, p. 12.

[4] Ibidem, p. 13

[5] Ibidem, p. 15.

[6] CLARK, Gordon H. De Tales a Dewey. Cultura Cristã, 2012, p. 34.

[7]  Ibidem, p. 42.

[8] DOOYEWEERD, H. No Crepúsculo do Pensamento Ocidental. Monergismo, 2018, p. 54.

[9] Ibidem, p. 62.

[10] VAN TIL, C. Graça Comum e Evangelho. Cultura Cristã, 2018, p. 123.

[11] BRAUN, G. Um Método Trinitário Neocalvinista de Apologética. Monergismo, 2019, p. 89.

[12] Ibidem, p. 90.

[13] Ibidem, p. 131.

[14] Cf. Colossenses 1: 17 e 19.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Transformadora. São Paulo/SP: Mundo Cristão, 2016.

BRAUN Jr, Guilherme. Um Método Trinitário Neocalvinista de Apologética: Reconciliando a apologética de Van Til com a Filosofia Reformacional. Brasília/DF: Academia Monergista, 2019.

CLARK, Gordon H. De Tales a Dewey. Tradução Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

DOOYEWEERD, Herman. No Crepúsculo do Pensamento Ocidental: estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Tradução Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim Souza. Brasília/DF: Editora Monergismo, 2018.

MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 2ª ed. rev. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Filosofia: Antiguidade e Idade Média, vol. 1. Tradução José Bortolini. São Paulo: Paulus, 2017.

TIL, Cornelius Van. Graça Comum e Evangelho. Tradução Vagner Barbosa. São Paulo: Cultura Cristã, 2018.