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Teodrama: uma alternativa à tensão “teoria versus prática”

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Escrito por Daniel Simões, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2021

INTRODUÇÃO

Kevin Vanhoozer desestabiliza o marasmo do fluxo cultural em que se encontra a igreja moderna ao ecoar a colocação de John H. Leith: “Cada nova geração cristã precisa lidar com a seguinte questão: O que a igreja tem para dizer e fazer que nenhuma outra instituição humana pode dizer e fazer?”[1]. O incômodo decorrente do questionamento se dá pelo fato de a igreja ter reduzido suas apropriadas voz e atuação, ora para atrair uma membresia mais progressista e antenada com as pautas do jornal das 21h, ora para “manter o declinante número de membros que ainda têm”[2].

Por não conseguir responder a pergunta, a igreja tem se visto refém de modelos sociológicos, cativa de perspectivas humanistas e detenta da voz das pessoas. Um muro é levantado entre os que buscam uma fé inteligente, capaz de lidar com as indagações da mente, e aqueles sem tempo para a reflexão por estarem ocupados demais com as obras que demonstrarão ao mundo que somos filhos de Deus.

Por concordar que “a doutrina lida com energias e ventos tão reais e poderosos quanto qualquer coisa conhecida em química ou física, energias e ventos que podem virar o mundo que conhecemos de cabeça para baixo, energias e ventos em que estamos enxertados como participantes com papéis que envolvem ação e discurso”[3], o presente artigo propõe a perspectiva dramática da doutrina como modelo capaz de romper a tensão “teoria versus prática” identificando um fluxo apropriado entre o que se sabe resultando no que se faz.

UMA TENSÃO DESNECESSÁRIA

O fim da modernidade trouxe aos teólogos a desnecessária tensão entre teoria e prática, criando, assim, uma “linha divisória mortal que atravessa tanto a academia quanto a igreja”[4].

É possível definir tal tensão como desnecessária, pois, ao restringir a doutrina a um segmento de natureza abstrata e dissociada da prática, desconsidera-se que o saber teológico se extrapola para o campo da sapiência, ou seja, “o conhecimento com vínculo emocional que liga o conhecedor ao conhecido”[5].

Assim, o conhecimento de Deus, que é o objeto da teologia ou o resultado da doutrina, está mais no campo da relação com do que no campo da informação sobre. Foi isso que Frame apontou ao afirmar que “o conhecimento de Deus refere-se essencialmente à amizade (ou inimizade) da pessoa humana com Deus”[6].

UMA RELAÇÃO APROPRIADA

Por enfatizar a essência relacional da tarefa teológica ou doutrinária, o drama parece apontar uma ilustração mais apropriada, pois em vez de especulações e sentenças, essa perspectiva traz a verdade encarnada, com movimento, cor, nuances e ritmo. E porque “o caminho cristão é fundamentalmente dramático e envolve atos e discursos em nome da verdade e da vida de Jesus”[7], ele carrega consigo a exigência de uma vida que concorde com o papel apresentado, que represente com tanta fidelidade a pessoa e a verdade em quem se crê a ponto de se tornar difícil “separar a pessoa da tese, do argumento ou da doutrina que ela expressa”[8].

É Vanhoozer quem aponta a superação da perspectiva teatral à perspectiva teórica ao afirmar que aquela demanda (1) um interesse maior que o da teoria, envolvendo uma relação catártica em que, assim como no teatro, exige doses de emoção e imaginação por parte dos que a experimentam bem como (2) uma participação marcante com vistas a equipar os espectadores de forma a superarem tal posição, tornando-se participantes ativos na encenação[9].

O resultado de se conceber doutrina com viés dramático vence a tensão entre a teoria e a prática, pois proporciona integração que resulta uma vida dedicada a Jesus com toda mente, coração, alma e força[10].

DE DENTRO PARA FORA

O fluxo resultante da teologia dramática é bem definido por John Piper ao dizer que

“quando Jesus ordena que amemos a Deus de todo coração, alma, entendimento e força, […] está dizendo que toda a aptidão inata e toda a capacidade do nosso ser devem expressar a plenitude de nossa afeição por Deus, a plenitude de todas as formas pelas quais o estimamos como um verdadeiro tesouro”[11].

É coerente afirmar que a cadência das expressões apresenta um movimento do interior para o exterior como que esperando ser a ação o resultado natural e necessário das afeições, as quais baseiam-se no conhecimento possuído a respeito de Deus, pois para amá-lo, é preciso conhecê-lo. Essa exigência é lógica, pois um amor por Deus sem conhecimento dEle não o honraria de maneira apropriada e, na realidade, não existiria uma vez que só o conhecimento sobre Ele despertará em nós motivos genuínos para amá-lo[12].

Essa contribuição concorda com a perspectiva teodramática, pois aponta o coração como a fonte do amor e define “alma”, “entendimento” e “forças” como esferas nas quais esse amor é demonstrado, não podendo, assim, ser restrito a uma teoria tampouco a uma afeição descontinuada de movimento que se estende para além de si.

CONCLUSÃO

Diante do exposto, faz sentido adotar um prisma teodramático ao lidar com a doutrina, pois este melhor satisfaz a correta expectativa de uma fé coerente, cujo desdobramento da convicção é a ação concordante. Essa postura projeta a doutrina para além da tensão entre teoria e prática, afirmando seu lugar central na igreja e impossibilitando os extremos contemporâneos que divergem a mente do coração e da ação. 

É na afirmação do caráter relacional do conhecimento que tal argumentação repousa de modo a não só não admitir dicotomia, mas celebrar a coerência.


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[1] LEITH, J.H. The reformed imperative: what the church has to say that no one else can say. Philadelphia: Westminster, 1988. p.14 apud VANHOOZER, K. J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Tradução de Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016. p. 19.

[2] VANHOOZER, K. J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Tradução de Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016. p. 12.

[3] Idem. p. 13.

[4] VANHOOZER. p. 29.

[5] CHARRY, Ellen. By the renewing of your minds: the pastoral function of Christian doctrine. Oxford: Oxford University Press, 1997. p.4. apud VANHOOZER. p. 30.

[6] FRAME, J. M. A doutrina do conhecimento de Deus. Tradução Odayr Olivetti. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 2010. p. 64.

[7] VANHOOZER. p. 32.

[8] MACINTYRE, A. Three revival versions of moral enquiry: encyclopaedia, genealogy, and tradition. Notre Dame: University of Notre Dame, 1990. p. 201. apud VANHOOZER. p. 32. 

[9] VANHOOZER. p. 33.

[10]  Idem.

[11] PIPER, J. O que Jesus espera de seus seguidores: mandamentos de Jesus ao mundo. Tradução de Maria Emília de Oliveira. São Paulo: Editora Vida, 2008. p. 87.

[12] Idem. p. 82.


REFERÊNCIAS

FRAME, J. M. A doutrina do conhecimento de Deus. Tradução Odayr Olivetti. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 2010. 447 p.

PIPER, J. O que Jesus espera de seus seguidores: mandamentos de Jesus ao mundo. Tradução de Maria Emília de Oliveira.São Paulo: Editora Vida, 2008. 429 p.

VANHOOZER, K. J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Tradução de Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016. 509 p.

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