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A vocação do pastor-teólogo: um chamado à perseverança

Artigo escrito por Bruno Martins de Camargo, estudante do Programa de Tutoria Essencial 2023


Introdução

A compreensão da igreja a respeito do clero tem sido distorcida, em nossos dias, por imagens e modelos influenciados pela cultura secular. Sobre isso, Vanhoozer (2016, p.´26) cita diversos perfis comuns atribuídos aos pastores atualmente, tais como diretor-executivo, guru psicoterapêutico, agitador político, administrador, dentre outros. 

Como consequência, há um impacto significativo nas expectativas a eles atribuídas, bem como na ênfase dada à sua formação. De um lado, existe um descaso com sua formação teológica, comum principalmente no evangelicalismo atual; de outro, existe uma ênfase muito grande no conhecimento não aplicado, comum em círculos acadêmicos. Logo, perde-se de vista a formação integral do pastor-teólogo, que inclui tanto sua bagagem teológica quanto seu caráter e maturidade. Essa deficiência formativa impacta sobremaneira a igreja, gerando superficialidade na fé e desviando pastores do seu propósito original, gerando desânimo e exaustão.

Diante disso, este artigo visa abordar um aspecto específico e relevante na formação dos pastores, relacionado ao seu caráter e sua maturidade, algo muito frisado nos escritos pastorais de Paulo e absolutamente necessário à formação de um pastor-teólogo: a necessidade de suportar os sofrimentos por amor a Cristo.

Suporte os sofrimentos: uma instrução de Paulo

As cartas pastorais de Paulo são uma profunda fonte de sabedoria para aqueles que querem se engajar no ofício pastoral de uma igreja. Dentre os inúmeros mandamentos de Paulo aos seus pupilos, Timóteo e Tito, podemos destacar alguns que lançam luz às funções de um pastor em uma igreja.

Em primeiro lugar, vemos um foco considerável na necessidade de ensiná-la de múltiplas formas, mediante a leitura pública das Escrituras (1 Tm 4:13-15), a pregação da Palavra (2 Tm 4:13-15), a exortação e repreensão da congregação (2 Tm 2:25-26) e a instrução geral da igreja em assuntos específicos (Tt 2:9-10, 3:1-2). Isto reforça a necessidade de um pastor ser bem preparado em termos de conhecimento teológico. Nessa mesma linha, doze vezes1, nas cartas pastorais, Paulo cita a palavra doutrina, enfatizando a necessidade de refutar falsos ensinos e fundamentar a igreja com sólidos ensinos doutrinários (a sã doutrina). 

Outras instruções são transmitidas por Paulo aos seus discípulos: a necessidade de organizar a igreja, mediante o estabelecimento de uma liderança sadia (1 Tm 3:1-2, 2 Tm 2:2 e Tt 1:5-6), a necessidade de ser exemplo no procedimento e no caráter (1 Tm 4:12,16, Tt 2:7) e o cuidado com os diversos perigos do ministério pastoral, como o envolvimento em controvérsias (1 Tm 4:7, 2 Tm 2:14-18,23 e Tt 3:9), a parcialidade e favoritismo (1 Tm 5:21), a precipitação na imposição de mãos (1 Tm 6:3-12) e a sedução pelos desejos malignos da juventude (2 Tm 2:22).

Obviamente, todas essas instruções são de grande relevância para qualquer pessoa que se sente vocacionada ao pastorado. No entanto, salta aos olhos uma instrução que pode passar desapercebida à primeira vista: “Você, porém, seja moderado em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério” (2 Tm 4:5).

“Suporte os sofrimentos”, conclama Paulo, algo repetido semelhantemente em outros trechos (2 Tm 1:6-9 e 2:3). O contexto da carta ajuda-nos na compreensão dessas palavras. O apóstolo se encontra preso em Roma, em uma masmorra fria e solitária, sujeito à solidão, às frustrações (2 Tm 4:10) e a duros julgamentos (2 Tm 4:14-17), tendo total consciência de que sua morte se encontra às portas (2 Tm 4:6-7). O sofrimento era vívido e torturante e, ao escrever sua última carta da qual temos registro, ele exorta seu discípulo amado com tais palavras.

A prática de suportar os sofrimentos

É significativo entender que o ofício pastoral é um chamado à perseverança em meio ao sofrimento. Qualquer pastor com alguma experiência já teve de lidar com essa realidade. Em primeiro lugar, há a dificuldade, comum a todos os cristãos, de simplesmente seguir a Cristo. É verdade que o caminho de Deus leva à vida, mas ele é apertado e sua porta é estreita (Mt 7:13-14). No entanto, a própria rotina ministerial é carregada de sofrimentos, a começar pela enorme sobrecarga de atividades, desde a preparação de estudos bíblicos e aconselhamento até às necessidades de lidar com as sementes de discórdia e divisões que surgem esporadicamente. Poucas são as igrejas em que existe uma pluralidade de presbíteros que dividam as tarefas de modo saudável. Assim, conciliar o ministério pastoral e a vida pessoal e familiar é uma tarefa árdua, que envolve múltiplas renúncias, mas absolutamente necessária ao pastor exemplar (1 Tm 3:4-5). Além disso, podemos citar também o fato de que ensinar a sã doutrina é quase sempre confrontar a visão da própria igreja. Visões heréticas tendem a fazer sucesso na internet e a contaminar facilmente o rebanho, demandando ensino, disciplina, exortação e correção.

Por fim, também existem as dificuldades em se lidar com as expectativas das pessoas. Compartilhamos da visão de Vanhoozer (2016, p.36) de que um pastor deve ser também um teólogo, mas em poucas igrejas essa visão está disseminada. No dia a dia, é difícil lidar com a expectativa dos membros, influenciada por uma cultura eclesiástica antibíblica, que constantemente sobrevaloriza pastores-celebridades de outras igrejas, sempre mais “populares” e persuasivos. Manter-se fiel à sua vocação exige esforço, posicionamento e perseverança em meio às tensões do dia a dia.

Qual é o resultado de todas essas lutas? Tais sofrimentos podem levar os pastores muitas vezes à frustração, à exaustão e ao abandono da vocação. Para evitar o estresse emocional, é comum a adoção de estratégias para evitar conflitos, seja se isolando em um ambiente acadêmico, seja se moldando às expectativas das pessoas visando ser mais aceito na comunidade, evitando conflitos com líderes e membros, ou permitindo pecados e comportamentos intoleráveis. O resultado, em qualquer dos casos, é o mesmo: empobrecimento do ofício pastoral, imaturidade da igreja e mau testemunho do nome de Cristo.

O ensino

Paulo, no entanto, é enfático em afirmar: suporte os sofrimentos. É uma instrução muito significativa, pois tais sofrimentos, como citados, são reais no cotidiano pastoral. Alguém chamado a esta vocação precisa ter clareza do que realmente significa ser pastor e das dores desse chamado. Os seminários e igrejas, por sua vez, precisam preparar os vocacionados para cumprir com tais instruções, o que nos conduz à pergunta central: como preparar alguém para suportar os sofrimentos? 

Em primeiro lugar, Paulo nos dá alguns vislumbres em suas cartas. Ele conclama a Timóteo: “mantenha viva a chama do dom de Deus” (2 Tm 1:6) e, em outro lugar, “fortifique-se na graça que há em Cristo Jesus” (2 Tm 2:1). Em outras palavras, todo pastor precisa de incentivo a perseverar em Cristo. Críticas constantes e solidão persistente são elementos que desgastam qualquer pessoa.

Em segundo lugar, estudar teologia é essencial, e os seminários têm muito a contribuir nesse ponto. Rememorar os feitos do Senhor e o exemplo dos homens de Deus nos relembra a quem seguimos e quão árduo foi o caminho que Ele trilhou, mas também que Sua graça é suficiente para todas as circunstâncias (2 Co 12:9).

Por fim, é importante ter bons mentores. Paulo não conclama Timóteo apenas a suportar os sofrimentos, mas a fazer isso com ele (2 Tm 1:8; 2:3). Este é um ensino feito não apenas com a boca, mas também com a vida, mediante um testemunho fiel de que nossa esperança não está na resolução imediata dos problemas, mas na obra realizada na cruz do Calvário. São as palavras de um homem que não seguia a Cristo apenas em liberdade, mas também em meio à prisão. É mais fácil suportar os sofrimentos quando temos diante dos nossos olhos homens e mulheres que seguiram pela mesma vereda e que escolheram a fidelidade a Deus às custas da própria vida.

Finalmente, esse preparo é realizado pelo Espírito Santo. É Ele quem nos capacita a enfrentar situações novas e difíceis em nossa vida, para as quais muitas vezes não nos sentimos preparados e sobre as quais apenas lemos até então. Ele é o maior interessado em cumprirmos com excelência o nosso chamado.

Conclusão

“Esta afirmação é digna de confiança: se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função” (1 Tm 3:1), disse Paulo. Disso, não há a menor dúvida; o ministério pastoral é um presente do Senhor e um privilégio. Mas é necessário compreender o custo da decisão de seguir esse desejo. Há uma necessidade premente da igreja e dos seminários de prepararem integralmente os futuros pastores: em conhecimento, caráter e maturidade. Um caráter lapidado, o qual inclui a perseverança em Cristo, é indispensável para o bom exercício do ofício pastoral. 


1 As referências são: 1 Tm 1:3,10-11, 4:1,6,16, 6:3, 2 Tm 1:13, 4:2-3, Tt 1:9, 2:1, 1 Tm 1:3-7, 18-20, 2 Tm 1:13-14.


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Referências bibliográficas

VANHOOZER K. & STRACHAN O. O pastor como teólogo público: recuperando uma visão perdida. Tradução: M. L. Redondo. São Paulo. Vida Nova. 2016. 256 p.

BÍBLIA SAGRADA. Tradução Nova Versão Internacional. 2012. São Paulo. Mundo Cristão. 2012. 1529 p.