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Como não fazer apologética: uma orientação a respeito das motivações para a defesa da fé

Escrito por Amanda Diniz Vallada, estudante do Programa de Tutoria Essencial 2023


Em sua primeira carta, o apóstolo Pedro chama seus leitores a santificarem o Senhor de todo o coração e a oferecerem a razão de sua esperança com mansidão e respeito (ou temor, a depender da versão utilizada). Essas palavras, que lemos em 1Pe 3.15-16, servem de eixo orientador para a argumentação de John Frame (2010) em Apologética para a glória de Deus e, da mesma forma, são a bússola para o pensamento tecido neste texto. 

Tendo em vista a orientação de comunicar nossa esperança, isto é, nossa fé, de maneira mansa e respeitosa, o objetivo deste texto é refletir sobre as motivações que nos impulsionam a um esforço apologético, trazendo orientações para o exame do nosso coração enquanto nos empenhamos em oferecer uma resposta àqueles que nos questionam sobre a nossa fé. Para isso, as considerações de Frame (2010) vão basear a discussão, que lidará com temas como orgulho e compromisso genuíno.

Para iniciar a conversa, faz-se necessário conceituar propriamente a apologética. Quem nos ajuda nessa empreitada são John Frame (2010) e Cornelius Van Til (2010). Aglutinando as definições desses dois autores, podemos dizer que a apologética ensina o cristão a prover a razão de sua esperança e a defender sua forma de vida em detrimento das demais filosofias. Sigamos adiante a nossa definição ainda com o auxílio de Frame (2010, p. 14) em sua explicação sobre três aspectos distintos e concomitantes da apologética. 

Em primeiro lugar, temos a apologética como prova, conduzida num exercício de apresentar evidências que fornecem uma base racional para a fé. Por outro lado, a apologética atua também como defesa, no sentido de responder às objeções feitas por pessoas descrentes. Há, ainda, o aspecto ofensivo da apologética, o qual ataca de maneira franca a estultice do descrente e procura expor a própria tolice do pensamento não cristão. 

Ao longo de todos esses aspectos que caracterizam o esforço apologético, o cristão é chamado a fazê-lo sobre a base do temor do Senhor e a verdade de sua Palavra. Não há como nos esquivarmos do que lemos naquelas palavras de Pedro: apenas submetidos ao senhorio de Cristo somos capazes de defender a fé cristã perante demais compromissos religiosos. 

Posto isso, devemos nos lembrar de que o coração sob o domínio do Senhor Jesus sempre comunica nossa verdade e isso é visível em nossa vida pública a partir de todos os ângulos; ao contrário de nossas palavras, que se tornam disponíveis para avaliação apenas quando as enunciamos. Sobre isso, Frame diz que 

a totalidade de nossa atitude, como apologetas, nossa piedade pessoal, nossa maneira de falar – todas essas coisas poderão mostrar ao incrédulo que estamos compromissados com o Deus das Escrituras e não com o avanço de nossa posição intelectual ou à “busca da verdade” no abstrato, ou à vitória na guerra de inteligências (FRAME, 2010, p. 73).

Sem dúvida alguma, essas considerações nos mostram a importância de estarmos atentos às motivações que nos impelem a defender a fé cristã. Em situações como essas, temos que nos perguntar sobre o que nos move — se é o orgulho pessoal ou o compromisso genuíno com o evangelho, se é o ímpeto de defender a nós mesmos e nossas convicções ou o desejo de cumprir a ordem de defender a razão da nossa fé e esperança.

Caso a nossa motivação seja vaidade ou necessidade de satisfação pessoal (em oferecer o melhor argumento ou ganhar uma discussão), decerto falharemos em testemunhar fiel e publicamente a nossa fé e perderemos credibilidade perante a colegas, amigos e familiares que nos cercam. Afinal, a vaidade nos leva a abandonar o amor e o temor pelo nosso próximo (ou seja, o consideraremos como menor do que aquilo que ele realmente é — criatura feita por Deus à sua imagem e semelhança). Ademais, ela muitas vezes nos direciona a mentir em nossos argumentos, torcendo as informações para, assim, convencer as pessoas de que estamos corretos.

No entendimento de Frame, apologetas frequentemente escorregam nesses pontos. Ele entende que 

muitas pessoas contenciosas ou querelantes são atraídas para a disciplina da apologética. Em seus corações permanecem infelizes até que estejam no meio de uma controvérsia […], pinçando discussões sobre matérias que poderiam muito bem ser desconsideradas ou resolvidas de modo pacífico (FRAME, 2010, p. 30).

Em oposição a esse espírito belicoso, a mansidão executa um papel crucial na apologética. Se nos empenhamos em debater de maneira mansa, nosso objetivo principal não é vencer a discussão ou provar que estamos certos, mas, sim, apresentar a verdade de forma amorosa e compassiva. Ao adotar uma atitude mansa, estamos dispostos a ouvir atentamente as preocupações e objeções das pessoas ao nosso redor, sem sermos reativos ou defensivos. De fato, a busca pela mansidão nos permite falar a verdade em amor, como nos recomenda o apóstolo Paulo em sua carta aos efésios. 

O amor, aliás, também tem grande importância na prática da apologética. Amar aqueles que estão em desacordo conosco, ou que simplesmente nos procuram com suas dúvidas e incertezas, nos leva a valorizar sua dignidade e respeitar suas perspectivas. Em vez de buscarmos apenas provar um ponto de vista, o amor ao próximo nos permite criar elos genuínos com aqueles que estão em busca de respostas. Quando nos relacionamos sinceramente com as pessoas, estamos mais dispostos a investir tempo e energia na caminhada com elas. Isso, na verdade, proporciona até mesmo melhores condições argumentativas para o empreendimento apologético, já que os laços mais estreitos apontam, ao longo do tempo, os melhores pontos de contato (FRAME, 2010).

Decerto, o amor, respeito e mansidão que imputamos nessa caminhada, nesse discipulado propriamente dito, transparece na totalidade de nossa atitude, como discutimos há pouco. Ao nos colocarmos à disposição para uma troca de ideias respeitosa, criamos um ambiente onde as demais pessoas se sentem à vontade para compartilhar suas opiniões e questionamentos e onde nós, cristãos, compartilhamos a verdade e damos a razão da nossa esperança de maneira conexa às principais inquietações correntes. 

Diante de tudo o que foi discutido neste texto, fica evidente a necessidade de sempre nos questionarmos sobre as motivações que nos conduzem à defesa da fé. Vaidade e orgulho se revelam em nossas ações, alienam colegas, amigos e familiares e demonstram que nossa preocupação não está genuinamente em dar a razão de nossa esperança ou em contribuir para a salvação da alma dessas pessoas através da pregação fiel do evangelho. Pelo contrário, o comportamento beligerante revela publicamente que o nosso interesse está em defendermos a nós mesmos e em sairmos vencedores de uma discussão.

Todavia, a diligência apologética sob as orientações das Escrituras nos dispõe a sermos instrumentos de transformação na vida daqueles que servem a outros deuses, e não o Deus verdadeiro. A apologética, quando praticada com mansidão, amor e respeito, se torna uma expressão material do amor de Deus em nossas vidas e uma poderosa ferramenta para alcançar os corações daqueles que ainda precisam conhecer a obra redentora de Cristo. 


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Referências

FRAME, John. Apologética para a glória de Deus: Uma Introdução. Tradução de Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. 334 p.

VAN TIL, Cornelius. Apologética Cristã. Tradução de Davi Charles Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. 231 p.