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Comunhão à mesa do Rei: a Trindade e a apologética do diálogo

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Escrito por Herbert de Souza Cordeiro, estudante do Programa de Tutoria Turma Avançada 2021

As redes sociais têm representado, para meio cristão, um amplo espaço de disputa entre as diversas vertentes teológicas. A virada dos holofotes para o “eu” trouxe consigo uma grande expectativa pela exposição da vida cotidiana e de coisas que antes eram destinadas ao “secreto”1. Conforme apontou Alex Stahlhoefer, pastor e doutorando em teologia:

“A ideia de hipertransparência e autenticidade que as redes sociais nos legaram transformaram as disciplinas espirituais em botões de like, instrumentos de autossatisfação. Como disse Bonhoeffer, oramos e recebemos nossa própria oração, pois ela não se dirige mais a Deus, mas a nós”.2

Evidencia-se uma disputa por um lugar de privilégio e autoridade intelectual e espiritual na vida pública que demanda o constante  combate ao diferente. A partir disso as discórdias, exposições de pecados, críticas ácidas e indiretas ganham terreno em nome da santidade de quem as faz.  A polêmica e a impessoalidade nas redes sociais são terreno fértil para que este tipo de comportamento ganhe proeminência e seja usado como estratégia para a visibilidade.

Neste ambiente onde os ânimos são facilmente exaltados e ataques são proferidos, é possível existir diálogo e unidade dentro da diversidade teológica no meio cristão? Como a disciplina apologética pode auxiliar este processo?

Existem três pontos principais que norteiam a viabilidade deste diálogo. O primeiro é o problema da absolutização da teologia dogmática. O segundo ponto diz respeito a uma base comum para o diálogo. Por fim, como a Trindade é capaz de “conciliar” o que é aparentemente irreconciliável.

Embora trate do conhecimento de Deus, é importante reconhecer a visão de Dooyeweerd de que “a teologia dogmática está limitada à atitude teórica do pensamento”3. A teologia é uma disciplina teórica que está debruçada na investigação sobre a fé e como esta se manifesta nas Escrituras e na vida da Igreja, sendo diferente do compromisso religioso do coração humano da fé cristã. Na perspectiva reformacional, o coração é o ponto de concentração da existência humana, a sua raiz religiosa, a unidade que transcende o tempo. Assim, este compromisso religioso é firmado a partir da redenção por Jesus Cristo e a comunhão do Espírito Santo consumando o redirecionamento do coração da apostasia para Deus.

Toda teologia é um construto humano, por mais bíblica que tente ser. Ela tem seu valor e sua importância, contudo sempre está passível de correções, ajustes, discordâncias e críticas. A realidade criada se apresenta de maneira completa e multiforme, absolutizar a teologia dogmática consiste numa redução desta realidade em um único aspecto. Neste contexto de disputas em busca de apontar “quem está mais certo”, a ciência teológica tem sido utilizada como mecanismo de ataque e de invalidação do outro. Não é incomum observar discursos e falas nas quais os representantes das mais diversas teologias absolutizam, cada um, a sua e atacam a diferente. Comete-se o grave erro de igualar uma interpretação teológica à Palavra-Revelação4 divina.

Apenas a ‘autorrevelação’ do Deus triuno através da criação, das Escrituras, na encarnação em Cristo Jesus e na comunhão do Espírito Santo, é capaz de fazer justiça à diversidade da realidade. Deus é o Absoluto ao qual todos os aspectos da realidade são relativos. Toda a realidade depende, em última instância, do Deus triúno5.

O cuidado de sondar a si em busca de qualquer absolutização requer humildade para reconhecer a própria idolatria e a fé de que o Senhor há de redimir toda a criação, e isto inclui o próprio indivíduo. Olhar para a trave no próprio olho antes de cuidar do cisco no olho do irmão6. Confessar a dependência de Deus requer ‘desabsolutizar’ tudo que é relativo. Este é um longo processo que envolve o desenvolvimento empático de não demonizar o diferente, mas buscar humanizá-lo e dialogar. Neste sentido, a mesa e o banquete se tornam uma poderosa simbologia que reflete a comunhão e a unidade na diversidade.

O método trinitário neocalvinista de apologética surge como uma potencial via de diálogo. Ele foi tecido Guilherme Braun Jr na tentativa de reconciliar a apologética vantiliana com a filosofia reformacional. Este método proporciona possibilidades e conexões pelo reconhecimento de que toda a realidade é dependente da Trindade. Em linhas gerais, Braun Jr defende que o encontro entre pessoas, sejam elas cristãs ou não, deve “ser visto também como o encontro de duas criaturas feitos à imagem de Deus e que compartilham do mesmo horizonte existencial da experiência, dependentes do Deus triúno”7. Assim, o ponto de contato entre os seres humanos é a Imago Dei. O homem criado à imagem de Deus, para Dooyeweerd, deveria direcionar a totalidade de sua existência no mundo temporal à serviço de Deus8 e isso só pode ser efetivado no cumprimento dos dois maiores mandamentos: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo9.

A radicalidade desta perspectiva está na apreensão da verdade bíblica de que não é possível amar a Deus sem amar a sua imagem que está expressa no próprio ego e no próximo. “Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”10. A chave para o diálogo está no cumprimento fiel destes mandamentos.

Por conta do trabalho de Herman Dooyeweerd em separar a sua Filosofia Reformacional da teologia, ela pode servir como a base comum para o diálogo entre diversas interpretações teológicas. Guilherme Braun Jr. demonstra isso com destreza ao colocá-la em diálogo com a Ortodoxia Radical e a Nouvelle Théologie. Assim, o método trinitário auxilia na construção de uma apologética que não se baseia em disputas sobre quem tem razão, mas valoriza a diversidade e busca meios para o diálogo na comunhão da Igreja.

Assim como Jesus Cristo colocou na sua mesa pessoas das mais distintas — p.e. Simão, o Zelote; Mateus, cobrador de impostos e  Pedro, pescador — o cristão deve buscar a manutenção da comunhão em meio à diferença. Pensar em termos trinitários é um ponto chave para possibilitar o diálogo. É no horizonte temporal da experiência criado por Deus Pai e a partir da regeneração proporcionada pela obra redentora de Jesus que o Espírito Santo age reconciliando consigo todas as coisas.  O coração humano anseia por uma unidade que só pode ser satisfeita pela ação e revelação do Deus triúno11. Toda absolutização do que é relativo cai por terra quando se encontra com aquilo que de fato é a Absoluto a Trindade.

A revelação do Deus triúno deve ser o ponto de partida para toda teologia que se alega cristã. No entanto é necessário ressaltar que a salvação e o pertencimento à Igreja de Jesus Cristo não está presa a esta ou aquela teologia. As Escrituras Sagradas são bastante claras ao afirmar que “se você confessar com a sua boca que Cristo é o Senhor, e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo”12. A redenção pela obra de Jesus e a comunhão dos Salvos através do Espírito Santo não podem ser limitadas a uma interpretação teológica. As divergências doutrinárias são evidentes, visto que cada sistema teológico possui diferentes ênfases e metodologias. Todos possuem consonâncias e dissonâncias com a Verdade Revelada. Exortar no erro e celebrar no acerto faz parte da caminhada cristã, contudo esta atitude de nada vale se romper com os mandamentos de “amar a Deus acima de todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”13.

É possível criticar os pressupostos e apontar as idolatrias de maneira amorosa e genuinamente cristã. Também é papel do cristão ouvir em humildade à crítica e arrepender-se quando estiver errado. Assumir o erro, e confiar na ação redentora de Cristo, é fruto da ação do Espírito Santo no coração humano, é isto que sustenta a empatia de reconhecer a semelhança do outro em si. Van Til acertadamente aponta a Imago Dei como o ponto de contato entre os seres humanos. Todos são criados à imagem e semelhança de Deus, e o pecado por Adão afastou toda a humanidade do seu Criador e pôs em desarmonia a criação. A obra redentora de Cristo, neste sentido, é abrangente desde seu foco pactual quanto no seu escopo cósmico.

O modo como o ser humano se relaciona com a Trindade determina a convergência do relacionamento e a possibilidade da comunhão à mesa do Rei, pois:

“Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa.” (Gl. 3:26-29)

Compreender que toda a realidade depende, em última instância, da Trindade implica em ter a humildade de não equiparar a teologia com a religião, a atitude teórica a respeito dos artigos de fé com a própria atuação do Deus triúno no coração humano. Cristo é a unidade na diversidade. A apologética do diálogo consiste em ouvir antes de falar, aprender com o outro ao invés de simplesmente rejeitá-lo, valorizando a troca, a exortação e a caminhada. O ambiente de redes sociais, embora facilite a comunicação instantânea, torna sedutora a desumanização do outro, ferindo o mandamento de amar o próximo como a si mesmo. Felizmente é possível utilizar as redes sociais de maneira saudável e proposital a fim de animar, dialogar e construir um relacionamento com o próximo. As questões mais delicadas, contudo, precisam ser tratadas com “olho no olho” e no “dia a dia”, na comunidade de fé local. Assim, cabe ao cristão o discernimento no uso das redes sociais e a humildade de abrir o coração para o diálogo numa apologética humilde e dependente, em última instância, do Deus triúno.

Através do Amor, Cristo reconciliou consigo todas as coisas. Assim, também através do Amor, o cristão deve buscar participar ativamente desta reconciliação. A mesa do Rei é plural, o banquete é farto. A carne e o sangue, o pão e o vinho, são servidos aos famintos. A apologética dialogal deve agir de acordo com a ética do Reino. Passando pela lente trinitária, o cristão deve permitir ser capacitado pelo Espírito Santo a viver em continuidade àquilo que Deus estava fazendo através de Cristo Jesus.

“Mas se busca o lugar o mais importante

Se quer mais que o menu

Se todo amor não é o bastante

Vá tomar do cálice!”14


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DOCUMENTOS ONLINE

O Bairro Novo. O Banquete. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nZl5SwR9Oc8, <26/11/2020>. Acesso em: 05/06/2021.

@teologiadalemao. Disponível em: https://twitter.com/teologiadalemao/status/1400920517624971267?s=20 Acesso em: 05/06/2021


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAVINCK, Herman. A filosofia da revelação, tradução e notas Fabrício Tavares de Moraes. Brasília, DF: Editora Monergismo 2019.

BRAUN JUNIOR, Guilherme. Um método trinitário neocalvinista de apologética: reconciliando a apologética de Van Til com a filosofia reformacional. Brasília: Academia Monergista. 2019.

DOOYEWEERD, Herman. No  Crepúsculo  do  Pensamento Ocidental:  Estudo  sobre  a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Brasília: Monergismo, 2018.

LAGO, Davi. Ame o seu próximo: a ética radical de Jesus. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2020.


1 Referência ao texto bíblico a seguir:“Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial. “Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu garanto que eles já receberam sua plena recompensa. Mas, quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita, de forma que você preste a sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará. (Mateus 6:1-4).

2 @teologiadalemao. Disponível em: https://twitter.com/teologiadalemao/status/1400920517624971267?s=20 Acesso em: 05/06/2021.

3 DOOYEWEERD, Herman. No  Crepúsculo  do  Pensamento Ocidental:  Estudo  sobre  a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Brasília: Monergismo, 2018, p. 179.

4  Para Dooyeweerd, a Palavra revelação consiste na Palavra de Deus revelada nas Escrituras.

5 BRAUN JUNIOR, Guilherme. Um método trinitário neocalvinista de apologética: reconciliando a apologética de Van Til com a filosofia reformacional. Brasília: Academia Monergista. 2019 (p.157).

6 Mt 7:3-5.

7 Ibid. , p.110.

8 DOOYEWEERD, op. cit., p. 169.

9 Mt. 22:34-40.

10 1 Jo 4:20.

11 BAVINCK, Herman. A filosofia da revelação, tradução e notas Fabrício Tavares de Moraes. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2019.

12 Rm 10:9

13 LAGO, Davi. Ame o seu próximo: a ética radical de Jesus. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2020.

14 O Bairro Novo. O Banquete. O Banquete. Engenheiro Coelho, EMI, 1989.