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Cultivando e guardando o jardim: a atividade tecnológica (cultural) como uma interpretação responsiva ao Autor (o outro)

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Artigo escrito por Gabriel Maia, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

Onde repousa o fundamento para o engajamento no desenvolvimento tecnológico? O que, em nós mesmos e externo a nós (na realidade), avaliza uma relação responsável com a tecnologia? Fazer estas perguntas se torna cada vez mais necessário no mundo atual por motivos óbvios: cada vez mais a tecnologia tem se entrelaçado com o nosso modo de vida. A associação ser humano/ tecnologia tem se tornado cada vez maior. A partir deste contexto, refletir sobre o fundamento para o engajamento no desenvolvimento tecnológico é, também, pensar a respeito das nossas responsabilidades ao fazê-lo.

Ao adentrarmos na discussão acima, pretendemos argumentar a respeito da atividade tecnológica a partir dos seguintes pontos: (1) a atividade tecnológica é expressão do mandato cultural estabelecido em Gn 1.28; (2) o exercício do mandato cultural acontece por meio da atividade interpretativa do ser humano – isto é, o discernimento de saber o quê, o quando e onde preservar e o quê, quando e onde desenvolver, é proveniente da apreensão (interpretação correta) das normas inerentes à realidade. Com isto, queremos trazer a formulação de que a nossa relação com a tecnologia (desenvolvimento e uso) se fundamenta, em seu nível mais básico, na capacidade de apreender a intenção (normas) de Deus (o autor) imprimida na realidade – ou seja, se trata de uma atividade (o desenvolvimento tecnológico) moral (em face a um outro), o que implica em um dever de dar uma resposta adequada àquele que nos contata.

1. O MANDATO CULTURA PARA ALÉM DE UM MERO ENVOLVIMENTO COM A CULTURA

O mandato cultural, muitas vezes, é entendido apenas como a base para o envolvimento cristão no mundo (cultura). Todavia, são raras as vezes em que as implicações desta ordem de Deus são tomadas com seriedade. A ordem de cultivar e guardar a realidade criada não se trata apenas de adentrarmos no mundo (produzindo cultura), antes, trata-se de uma responsabilidade (de dever, de resposta) e cooperação com o Criador. O mandato cultural é uma ordem imputada a nós por Deus, delegada, para que, junto d’Ele, possamos, de forma responsável, atuar no mundo. Em Gn 1. 28, somos chamados a sujeitar e dominar a terra. Sujeitar e dominar a terra, cultivar e guardar o jardim (Gn 2.15), entendido à luz do contexto dos ouvintes do livro de Gênesis, não se trata de um chamado para que, de forma autônoma, o ser humano exerça controle sobre a terra – tendo que responder somente a ele mesmo –, é uma atividade a ser exercida em um espaço sagrado (realidade criada) em que nós, representantes de Deus (sacerdotes) neste espaço, temos a responsabilidade de, junto com Ele (coparticipantes), preservar e desenvolver a ordem (significado) instaurada no mundo por Deus. Nas palavras de John Walton, em sua obra, O mundo perdido de Adão e Eva:

O espaço sagrado existia em razão da presença manifesta de Deus. Adão recebeu acesso a esse local como um sacerdote, a fim de se envolver na preservação da sua santidade e na mediação de seus benefícios. Tal espaço era também o centro da ordem, porque essa emana de Deus. A ideia de que as pessoas iriam “subjugar” e “dominar” baseia-se na noção de que eles teriam um papel contínuo como vice regentes de Deus (em sua imagem), para preservar a ordem e colocá-la sob Deus. (pág. 101)

Ou seja, entendendo Adão como arquetípico para todos seres humanos, e sabendo que, a partir da obra de Jesus Cristo e atuação do Espírito Santo, Deus se faz presente em nós (e não somente no jardim), todo o mundo (realidade criada) é um espaço sagrado e a ordem de cultivar e guardar (preservar e desenvolver) o jardim se estende a toda realidade criada.

O Senhor, ao imputar ordem ao mundo (por meio de seus atos criativos), instaurou leis para que, a partir destas, a criação se desenvolva e, cada vez mais, com a co-regência dos seres humanos, possa manifestar a Sua vontade. Em outras palavras, Deus, por meio de seus atos criativos – e leis e normas provenientes destes –, deixou entranhado na criação sua vontade (intenção) sobre como todas as coisas (para de fato serem o que são) devem operar. Sendo assim, o cultivo (desenvolvimento) da realidade criada acontece, de fato, ao nos sujeitarmos às leis e normas (que são a vontade de Deus) que constituem (significam) a própria realidade.

A busca (e desenvolvimento) por recursos (tecnologias), então, a partir da terra, daquilo que foi dado a nós por Deus, não deve ser entendido apenas como o exercício de um domínio puro do ser humano sobre a natureza. Antes, deve ser entendido como um domínio delegado, cooperativo e responsável (John Stott); no qual, antes de sujeitarmos a criação, nos sujeitamos (respondemos) a Deus, reconhecendo Sua vontade para a Sua criação. 

2. A REALIDADE CRIADA COMO UM TEXTO: O MANDADO CULTURAL COMO AÇÃO INTERPRETATIVA

Sabendo agora que o mandato cultural não se trata apenas de se envolver culturalmente no mundo (de forma autônoma), mas de um exercício de responder à vontade de Deus – na integralidade da realidade – sujeitando-se à Ele primeiro, antes de sujeitarmos a terra (produção cultural – incluindo a de tecnologia), podemos, então, refletir a respeito da atividade de discernir a vontade de Deus – entendida, neste contexto, como as leis e normas inerentes (constitutivas) da realidade criada – para o pleno exercício de guardar e cultivar o jardim.

O primeiro ponto é que a realidade pode ser vista (mas não se reduz a ser somente isso) como um texto. Se ela pode ser vista desta forma, então temos um autor que nela entranhou sua intenção. No contexto do presente artigo, o autor é Deus (pai de nosso Senhor Jesus Cristo) e suas intenções são as leis e normas que regem os vários aspectos que a conduzem. Desta forma, no contexto da criação, Deus, ao trazer ordem ao mundo (sentido, coerência), deixou sua intenção marcada em cada elemento da natureza. Lembrando do nosso ofício como co-regentes de Deus, cabe a nós, sujeitos à Ele, a não só guardar (preservar) o que já está posto (dado), mas continuar a trazer ordem (cultivar, desenvolver) a realidade, a partir das normas e leis calcadas na mesma.

Este último ponto, do cultivo – de continuar a trazer ordem – pode ser entendido, dentro da metáfora da realidade como um texto a ser interpretado, como o dever do leitor (intérprete) de responder à intenção do autor de forma responsiva, buscando entender o significado contido no texto (realidade criada) reconhecendo o outro que está diante dele (bem como sua intenção). Desta forma, se as leis e normas são as intenções de Deus constitutivas da realidade e nós seus intérpretes, ler, então, apreender o significado, se torna algo para além de um exercício passivo – em que o significado está contido estaticamente na realidade e que nós devemos apenas abstraí-los da mesma. Entender o significado (intenção) de um texto, implica em um ato (ação) e não apenas numa atividade receptiva/passiva – o sentido imprimido no texto por um autor é, em certa medida, desvelado pelo leitor quando este, ao lê-lo, está significando (agindo em relação ao texto).

Kevin Vanhoozer, em seu livro, Há um significado neste texto?, propõe uma abordagem de significado que vai de encontro ao que estamos argumentando no presente texto:

[…] pensar em significado não como algo que as palavras e textos têm (significado como palavra da classe dos substantivos), mas, sim, como algo que as pessoas fazem (significado como verbo). Melhor dizendo: uma palavra ou texto só tem significado (verbo) se alguma pessoa significar (verbo) alguma coisa com eles. “Significado”, assim como a palavra “ato”, refere-se não apenas ao que é feito, mas ao processo de fazê-lo. (pág. 236)

Isto é, o significado está atrelado ao uso (fazer, agir) e não da sua abstração (quebra de coerência) em relação ao texto. Sujeitar-se às normas e leis da realidade, desta forma, é significar (fazer, agir, desenvolver, cultivar), de acordo com a vontade de Deus, a realidade à nossa volta – mantendo e trazendo a ordem ao mundo. 

Considerando nossa discussão até aqui, o pleno exercício do mandato cultural diz respeito a reconhecer a intenção (normas) de Deus na criação por meio da interpretação da mesma na realidade. O ato de interpretar, como já foi dito, não é uma atividade estática (que apenas recebe, passiva), mas ativa. Ou seja, o significado embutido na realidade criada (em todos os seus aspectos constitutivos) é apreendido por meio de atos interpretativos. Os autores da obra, Filosofia da tecnologia: uma introdução, vão de encontro a esta perspectiva quando dizem que:

Um humano é um ser responsável que responde às reivindicações de significado que ele experimenta. A realidade na qual ele vive não é experimentada apenas como tal e, como de costume, como uma coerência de significado: ela pede por atividade humana. A todo o momento que um ser humano está presente na realidade, funcionar e agir, comer e beber, fazer e fabricar coisas, formular um plano industrial ou projetar máquinas, essas ações não apenas interpretam o que já está lá – a coerência de sentido no nosso entorno – mas elas estão de modo contínuo expandido adicionalmente o significado que está lá. Desse modo, a atividade de seres humanos é uma atividade que abre o significado. pág. 55)

Ainda, segundo os mesmos autores:

[…] os conceitos de “atividade” e “significado” estão estreitamente conectados. O fato de que os seres humanos podem agir tem a ver com a capacidade deles para perguntar sobre o significado das coisas e dos eventos. Ao agir os seres humanos constroem sua própria realidade […]. Em outras palavras, eles abrem o significado trancando na realidade. […] Visto dessa maneira, pode-se dizer que agir é destrancar significados. Mas isso é possível apenas se alguém pode dizer que há significados que estão trancados de forma latente na realidade. Do mesmo modo, a atividade sempre é baseada em uma leitura a priori da realidade à qual a ação diz respeito. (pág. 56)

Desta forma, construir e agir, colocados sob a luz do que foi discutido até aqui, não são atividades autônomas, mas dependentes da intenção (vontade, normas) de Deus entranhadas na realidade. Construir e agir são atividades inerentes ao que temos chamado de significado (e da sua interpretação). E nestas atividades (que são atos concretos na realidade) é explicitado o que os autores da obra, Filosofia da tecnologia, chamaram de “leitura à priori”; isto é, os nossos pressupostos (absolutos, referência para ler a realidade) são expressos por meio de nossos atos (atividades) interpretativos perpetrados na realidade concreta. Pensando ainda na metáfora da realidade criada como um texto, as atividades interpretativas (que interpretam e abre significado) são testemunhos da nossa referência interpretativa (absoluto) – que é aquela que determina a abordagem do significado no texto (no nosso caso, a realidade criada).

3. A AÇÃO INTERPRETATIVA COMO TESTEMUNHO

Terminamos a última seção afirmando o aspecto testemunhal da atividade interpretativa. Dizer que, ao interpretarmos – agindo significativamente – estamos testemunhando, é afirmar que há um aspecto responsivo que permeia toda ação que visa compreender e abrir o significado das coisas. Testemunhar diz respeito a um compromisso com um outro. Em outras palavras, a atividade interpretativa (que compreende e abre significados) pressupõe um outro ao qual nós respondemos. Este caráter responsivo diz respeito, além da própria atividade interpretativa em si, tanto à natureza daquele que lê (seres humanos) quanto do que se lê (o texto, que no caso, é a realidade criada). Se a realidade criada pode ser entendida como um texto, ela não pode ser autocontida (encerrada em si mesma) – um texto não é uma entidade autônoma, mas fruto da ação comunicativa (ação que visa entendimento) de seu autor. Um pensador que nos ajuda a formular melhor esta ideia (da exterioridade da realidade) é o filósofo e ex-senador holandês Roel Kuiper, em sua obra, Capital moral, em que diz:

O mundo é uma unidade em diversidade que pode transcender a si mesmo em todos os componentes, pois está voltado para um sentido que está fora dele. Com isso, ele não consegue obter contato se permanecer orientado para si mesmo autonomamente. Ficar contido em si mesmo significa estar fechado para um sentido, estar compromissado relacionalmente significa a abertura das estruturas internas para um sentido que em princípio vem de fora. (pág. 127)

Ou seja, assim como um texto carrega em si algo (ação comunicativa – ação que visa o entendimento) de seu autor – apontando para além de si mesmo –, a realidade criada também aponta para o seu Criador. Esta natureza relacional também compõe a natureza humana (os leitores). Somos seres inerentemente relacionais. Sobre este tópico, Roel Kuiper nos ajuda dizendo:

O homem é relacional por dentro e por fora e, por isso, também social. […] O homem como ser relacional sempre esteve interessado em um sentido que está fora dele. Esta exterioridade (para usar um termo de Levinas) é alimentada por um desejo de poder fazer parte de um sentido que é maior do que a sua própria vida. Um sentido que ele se dá com base no significado da sua vida a partir de um todo maior. Em sua estrutura relacional, o homem possui uma urgência inata de dar forma ao sentido da sua existência junto com outros e via o outro (pág. 128)

Os insights trazidos pelas reflexões de Kuiper, nos ajudam a compreender que o aspecto responsivo da atividade de interpretar – e, portanto, de exercer o mandato cultural – é inerente à própria estrutura da realidade criada. Faz parte de quem somos, voltar-se para além de nós mesmos, assim como faz parte da realidade criada “exigir” que a olhemos para além dela mesma. Este para “além dela mesma” é sempre para um Outro. Este outro, como temos dito no presente texto, é o próprio Criador. Desta forma, a atividade interpretativa sempre nos confronta com um outro; nas palavras de Vanhoozer a este respeito: “A existência de uma voz outra que a minha própria apresenta uma ordem absoluta: ‘Não darás falso testemunho’”. (pág. 466). Ou seja, o “cultivar o jardim”, a partir da perspectiva de uma atividade interpretativa, que compreende e abre o significado embutido na realidade (a partir das normas), é uma ação que, ao pressupor Deus como autor da criação, visa dar testemunho verdadeiro a respeito do Criador. O desenvolvimento e uso da tecnologia, entendido como uma parte da ação maior de cultivar e produzir cultura, desse modo, é um imperativo que deve ser cumprido de forma dependente (à Deus) e responsiva (em obediência ao Senhor). 

CONSIDERAÇÕES FINAIS: A AÇÃO INTERPRETATIVA DENTRO DO SIGNIFICADO ÚLTIMO

Como salientamos até aqui, o significado não se trata de algo que apenas está contido, mas de uma ação (uso) que significa. Todavia, significar, também, é ser (operar) dentro de uma coerência de significado. Ou seja, para que a própria atividade interpretativa tenha significado é preciso que ela ocorra dentro de um contexto significativo que esteja atrelado ao significado último (que permeia toda a realidade) de todas as coisas: glorificar a Deus. A resposta última a Deus ou é nos rebelar (Maldizer o seu nome) ou obedecermos (glorificando seu nome). Esta última postura, só é possível mediante a obra de Jesus Cristo e ação do Espírito de Deus em nós. Estamos aptos a responder a Deus em obediência não a partir de uma atividade de abstração a respeito do significado contido na realidade, mas de uma postura de submissão que só podemos alcançar porque Ele (o Criador, o Outro) nos contatou primeiro. Respondemos porque somos impelidos a tal, e a nossa resposta testemunha a respeito desse outro que nos contata: o ser humano que intenta a ser Deus de si ou o Deus verdadeiro, Senhor soberano sobre todas as coisas.

O desenvolvimento e uso da tecnologia, portanto, a partir do que foi discutido acima, pode ser entendido como parte do quadro maior que é o mandato cultural –  encontrado nos dois primeiros capítulos de Gênesis. Visto como um imperativo de cultivar e guardar a realidade criada, o mandato cultural, como argumentamos, visto sob a metáfora da realidade criada como um texto, é o exercício de interpretar (se sujeitar) às normas entranhadas na criação por Deus. Este exercício de interpretar está atrelado ao significado entendido não apenas como uma atividade receptiva/passiva – de mera apreensão do que está contido no texto (realidade criada) –, mas como um processo (uso) que significa. Em outras palavras, interpretar as normas de Deus, e, portanto, cumprir o mandato, é ter uma ação concreta na realidade que não só apreende o sentido que nela está, mas que abre seu significado (desenvolvendo-a, cultivando-a). Esta ação concreta é sempre em resposta ao autor que entranhou sua intenção no texto. Desta forma, o mandato cultural (e, portanto a atividade tecnológica) é uma ação concreta no mundo que visa responder (em obediência ou não) ao Criador. Em suma, o desenvolvimento e uso de tecnologia, levando em conta o que foi argumentado até aqui, é, em seu sentido mais básico – mas também dentro de uma coerência de significado último – dar testemunho fiel a respeito da vontade de Deus na realidade. O engajamento cristão na atividade tecnológica, portanto, não só é desejável, mas é um imperativo de testemunharmos fielmente (respeitando as respectivas esferas de soberania de cada aspecto da realidade) àquele que nos chama a cultivar e guardar Seu jardim.


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VERKERK, Maarten J. [et al.]. Filosofia da tecnologia: uma introdução. Tradução: Rodolfo Amorim Carlos de Souza – Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2018.

STOTT, John. Os cristãos e os desafios contemporâneos. Tradução: Meire Portes Santos – Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2014.

WALTON, John. O mundo perdido de Adão e Eva: o debate sobre a origem da humanidade e a leitura de Gênesis. Tradução: Rodolfo Amorim Carlos de Souza – Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2016.

KUIPER, Roel. Capital moral: o poder de conexão da sociedade. Tradução: Francis Petra Janssen – Brasília, DF: Editora Monergismo, 2019.

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