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Dando cores às experiências: as contribuições de Jonathan Edwards para os pós-modernos

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Escrito por Marlon Girardello, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2021

A natureza é apenas uma imagem, um símbolo. […] Somos convidados para transpor a natureza, para irmos além do esplendor que ela refletiu.

C . S. Lewis1

Introdução

O ritmo compassado dos relógios, a fumaça das grandes metrópoles e as telas digitais com suas cores artificiais nos colocam em um contexto onde perdemos a beleza de vista. Não nos deslumbramos mais. Aquilo que os olhos tocam têm cores pálidas e sem vida. O homem fragmentado luta para encontrar significado e propósito na experiência temporal. As formas estão sendo dissolvidas e desconstruídas, a realidade parece estar “derretendo” assim como o quadro “Persistência da Memória” de Salvador Dalí. Os lírios do campo não nascem no asfalto, as aves do céu voam para longe daqueles que as sufocam. Ao olhar pela janela, o homem olha o fruto de suas mãos e não vê beleza e nem bom sabor, já não sabe nem se ele o alimenta. Os filhos do Éden estão matando o jardim.

Em um cenário opaco onde tentamos moldar o vapor, seguindo a trindade moderna de controle, progresso e liberdade, é inegável que nos falta algo. Conseguimos controlar o vento, gerar energia através dele, mas não sentimos mais seu frescor. Essa percepção de vazio e incoerência foi suscitada pelos pós-modernos. O vapor tem cegado os homens, mas há um colírio para essa perda de visão?

Anulando as cores: da modernidade para a pós-modernidade

Não há como falar da pós-modernidade sem entendermos o contexto no qual ela surge e o que ela responde. As cores começam a perder vida a partir da Renascença. Conforme escreveu Peter Leithart: “Desde a Renascença o mundo natural aprendeu a abrir seu próprio caminho sem a ajuda do sobrenatural. O mundo da matéria em movimento tornou-se o único mundo, sem transcendência, sem mistério, sem espírito. A modernidade é a civilização resultante”2. Em um ambiente caótico de guerra era necessária uma resposta. A modernidade então foi essa resposta à desordem e a busca da correção dos erros do humanismo renascentista.

Encontramos no relógio o símbolo da modernidade. Em um cenário de incertezas era necessário controlar, planejar, medir e progredir. Leithart comenta que “ao esculpir o vapor e arrebanhar o vento, a modernidade promete liberar a humanidade das incertezas e imperfeições que a raça humana longa, mas erroneamente creu inerir à existência”3. Porém, o cenário moderno que era essencialmente racionalista e mecanicista teve que lidar com movimentos de protesto. Destaca-se aqui dois movimentos: O Romantismo e o Pós-modernismo.

Para o Romantismo, conforme escreve Leithart, havia uma celebração do natural e orgânico, enquanto os modernos viam progresso na fumaça ascendente das fábricas. O Romantismo exaltava a intuição, imaginação e fantasia contra os esforços modernos para controlar. Onde para os modernos havia progresso, para os românticos havia degeneração e deterioração4. Por mais que o Romantismo sofresse influência da modernidade, o eu autônomo romântico era muito mais aberto e sensível que o eu racionalista de Descartes.

No pós-modernismo, assim como no romantismo, não há uma ruptura, pois não suscita nada de totalmente novo. Não há uma reversão ou um esvanecimento da modernidade. Leithart comenta que Max Weber celebremente descreveu a modernidade como um processo de racionalização e desencantamento5. Por mais que o caráter desconstrutivista do pós-modernismo eclipse o deslumbramento humano, é algo que tem suas raízes na modernidade. A pós-modernidade, portanto, reconhece os defeitos da modernidade, mas também resulta em um conjunto complexo de processos que sintetizam ideais modernos. O pós-modernismo intensifica aspectos da modernidade ao mesmo tempo que produz inversões. Em partes ele intensifica as questões relacionadas ao controle, progresso e liberdade. A cultura do consumo que amiúde é considerada uma característica pós-moderna, tem suas origens na modernidade. Um jeito de descrever o pós-modernismo é que os solventes da modernidade dissolveram a própria modernidade. Como um lobo, a modernidade come a si mesma6.

No que tange às inversões, a pós-modernidade tem uma característica principal: a dissolução das fronteiras-chaves. As empresas não buscam mais um organograma piramidal, mas a organização em redes. Não prezam mais por ambientes de linhas de produção, mas procuram implantar programas de locais e horários flexíveis de trabalho. A vida pessoal se mistura com a vida profissional. Não se compra mais carros apenas por sua eficiência e utilidade, como na modernidade. Na pós-modernidade, constroem-se e vendem-se carros pelo prazer que levam ao comprador7. Para alguns, o carro já não é um meio de transporte, mas um acessório de moda. Nesse caso, as fronteiras-chaves da cultura e economia acabam se misturando. Há uma busca por uma estetização da vida. A modernidade divide a vida humana em zonas e trata cuidadosamente de manter as zonas separadas (por exemplo, o trabalho separado do lazer e a cultura da religião). Já a pós-modernidade, afirma Leithart, rompe as fronteiras trazendo o trabalho de volta para casa, tornando o trabalho divertido, vendendo produtos elegantemente projetados, misturando religião e política, expondo um mictório num museu de arte8. O pós-modernismo em parte abraça, mas também contesta os desejos modernos de controle, progresso e liberdade, demonstrando que o esforço moderno é esculpir a névoa mutável do mundo. Os pós-modernistas, em parte, desmascaram o projeto utópico racionalista, controlador e mecanicista da modernidade. Porém, desmascarar um projeto que apresenta problemas na ordem temporal das experiências humanas não é o suficiente.

A desconstrução proposta por Jacques Derrida agrava mais o cenário. Se a modernidade ainda se alicerçava em alguns pilares, o pós-modernismo vai colocar em suspenso até a questão da verdade. Indo ainda mais profundo nessa questão, vemos que essa desconstrução afeta até as cosmovisões. Conforme escreve David Naugle: “As cosmovisões, uma vez desconstruídas, são reduzidas a um sistema autorreferencial de significantes linguísticos despojados de qualquer importância metafísica, epistemológica ou moral autêntica”9.

A glória de Deus como tinta na mão do pintor

Entretanto, o vapor que os modernos tentaram controlar continua cobrindo os olhos pós-modernos, saber da existência dele não melhora a condição humana. Apenas se sabe que todos estão envoltos em névoas sem nenhum tipo de cais. O mundo em que o homem é a medida de todas as coisas a obra de suas mãos é o fim supremo carece de beleza. É insatisfatório o deleite nas coisas conquistadas. A alegria de uma conquista é fugaz, hoje celebramos algo que amanhã já não tem mais o mesmo valor. O valor das coisas está relacionado à dificuldade que temos em alcançá-las, no tempo que gastamos para conquistá-las. Há, portanto, uma inegável busca do homem por respostas, mas em meio ao vapor onde as encontramos? Porém, aqui damos um passo em direção ao caminho e a verdade. O vapor nos força a viver por fé e não por vista. Ele encobre sob um véu o próprio Deus.

Tendo esse contexto em vista, ao lermos a obra O fim para qual Deus criou o mundo, de Jonathan Edwards, vemos Deus como um farol em meio a névoa. O Deus que criou a névoa é o mesmo Deus que nos guia e lança luz sobre a criação. Ele é Criador, mas também é Cultivador da sua criação. Conforme escreve Heber Campos Júnior no prefácio da edição brasileira do livro de Edwards: “a finalidade última de Deus ao criar o mundo foi demonstrar às criaturas a beleza de sua perfeição e deleitar-se nela”10. Em meio a névoa vemos que Deus não depende de outro ser além de si, ele não muda, pois se deleita em si e busca sua glória. Deus tira dos ombros humanos a tarefa de dar cor à criação. As cores já estão postas, o empreendimento humano autônomo ofusca as cores que já foram pintadas pela glória da criação. A beleza emana do próprio Deus e da busca por sua própria glória. Como escreveu Edwards: “Qualquer coisa que seja de fato resultante da criação do mundo e que seja simples e absolutamente valiosa em si mesma, essa coisa é o fim supremo visado por Deus ao criar o mundo. […] Ele nada faz inadvertidamente ou sem um plano”11.

Nisso temos que a beleza não está restrita à coisa em si, é apenas uma fragrância, nosso anseio transcende. O que vemos são boas imagens daquilo que desejamos. Edwards parece responder a Agostinho de Hipona, que em suas Confissões escreveu: “Perguntei ao céu, ao Sol, à Lua e às estrelas. ‘Tampouco somos o Deus a quem procuras’, responderam-me. […] ‘Dizei-me algo de meu Deus, já que não sois Deus; dizei-me alguma coisa dele’. E todas exclamaram em coro: ‘Ele nos criou’. Minha pergunta era meu olhar e sua resposta a sua beleza”12. Leithart complementa com uma esperança futura: “Este mundo de lágrimas sob o Sol não é o único, uma confiança que há um tempo depois do tempo sob o Sol”13. Edwards não demonstra apenas as cores que a criação possui, mas também aponta para uma fé escatológica. Nesse ponto é que há um afastamento do pós-modernismo. A glória de Deus tem impactos presentes e futuros. C. S. Lewis afirma que “no presente, estamos do lado de fora do mundo, do lado errado da porta. Discernimos o frescor e a pureza da manhã, mas ambos não nos tornam novos e puros. […] Um dia, permitindo Deus, nós entraremos”14. Podemos viver como Derrida e seu niilismo frustrante ou considerar que há um Deus no meio do vapor. Abandonar toda a esperança de que se possa arrebanhar o vento ou confiar no Pastor que cavalga nas asas da tormenta (Ec 12:11)15. Edwards afirma que “a criatura só é feliz com essa felicidade que Deus torna seu fim supremo se ela se unificar com Deus. Quanto maior a felicidade, tanto maior a união”16. A glória presente e futura é o que satisfaz o nosso desejo original.

Conclusão

Por fim, os pós-modernos acertaram ao dizer que o controle nunca esteve em nossas mãos. Não controlamos a realidade e não precisamos carregar esse fardo. E mais do que isso, não somos responsáveis, nunca seremos responsáveis e nunca precisaremos ser responsáveis, porque o trabalho é de Deus. A vida de fé é a vida de alegria onde lançamos o fardo de que essa criação nunca foi nossa17. Ele tudo criou para sua glória. Na essência, o nosso trabalho é relacional e de descanso, não é serviçal. A criação é dele, nós somos mordomos. Como escreveu Edwards: “Assim o todo pertence a Deus, está em Deus e se destina a Deus. Ele é o começo, o meio e o fim”18.  Há uma vida frugal proposta para os que reconhecem suas limitações e estão dispostos a ver as cores, ocultas pela névoa, dos lírios do campo geradas nos nossos olhos pela confiança no Criador e Senhor. Vem e vê!


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1. LEWIS, C. S. O peso da glória. Traduzido por Estevan Kirschner. 1ª ed. – Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017, p. 48.

2. LEITHART, Peter J. Salomão entre os pós-modernos. Tradução Leandro Guimarães Faria Corcete Dutra – Brasília, DF: Editora Monergismo, 2021, p. 21.

3. LEITHART, 2021, p. 32-33.

4. LEITHART, 2021, p. 37.

5. LEITHART, 2021, p. 39.

6.  LEITHART, 2021, p. 46.

7. LEITHART, 2021, p. 53.

8. LEITHART, 2021, p. 62-63.

9. NAUGLE, David K. Cosmovisão: a história de um conceito. Tradução Marcelo Herberts — Brasília, DF: Monergismo 2017, p. 230.

10. EDWARDS, Jonathan. O fim para qual Deus criou o mundo. Tradução Almiro Pisetta – 1. ed. — São Paulo: Mundo Cristão, 2017, p. 9.

11. EDWARDS, 2017, p. 32.

12. AGOSTINHO. Confissões, vol 2. Tradução Frederico Ozanam Pessoa de Barros — Rio de Janeiro: Petra, 2020, p. 57.

13. LEITHART, 2021, p. 174.

14. LEWIS, 2017, p. 48.

15. LEITHART, 2021, p. 177.

16. EDWARDS, 2017, 139.

17. LEITHART, 2021, p. 178.

18. EDWARDS, 2017, p. 138.


Referências Bibliográficas

AGOSTINHO. Confissões, vol 2. Tradução Frederico Ozanam Pessoa de Barros — Rio de Janeiro: Petra, 2020.

EDWARDS, Jonathan. O fim para qual Deus criou o mundo. Tradução Almiro Pisetta — 1. ed. — São Paulo: Mundo Cristão, 2017.

LEITHART, Peter J. Salomão entre os pós-modernos. Tradução Leandro Guimarães Faria Corcete Dutra — Brasília, DF: Editora Monergismo, 2021.

LEWIS, C. S. O peso da glória. Traduzido por Estevan Kirschner. 1ª ed. — Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017.

NAUGLE, David K. Cosmovisão: a história de um conceito. Tradução Marcelo Herberts — Brasília, DF: Monergismo 2017.